TAIPÉ, TAIWAN (FOLHAPRESS) - Dois soldados guardam a entrada de um templo tácito em Taipei, capital de Taiwan, erguido nos anos de repressão política. Ali estão guardados, em plaquinhas de madeira, os nomes dos mortos nos conflitos que direcionaram a história da ilha a colonização japonesa, os anos de ditadura e a conturbada separação da China. A apenas um quilômetro dali, artistas rompem o silêncio e dissecam esses eventos como traumas na Bienal de Taipei, mais importante evento de arte do território.
O tom político desta edição não é por acaso, e reflete a intensificação do conflito com a China no último ano, quando o líder chinês Xi Jinping passou a adotar um discurso mais direto em defesa da reunificação de Taiwan em resposta à eleição de Lai Ching-te na ilha forte defensor da independência de seu território.
Enquanto Taiwan aumentou exercícios militares alegando defesa para uma possível invasão da China, Jinping já cobrou Donald Trump, que tem se mantido neutro, de se opor formalmente à independência da ilha. Os Estados Unidos são aliados de Taiwan desde que o Partido Comunista venceu a Guerra Civil chinesa, em 1949.
A disputa vem dificultando a entrada de artistas chineses em Taiwan para exposições, segundo profissionais do Museu de Belas Artes de Taipei, instituição que sedia a Bienal na cidade e também nomeia o representante de Taiwan na Bienal de Veneza, mais importante evento do mundo da arte. A burocracia para conceder vistos de entrada a cidadãos chineses teria aumentado nos últimos meses ainda que muitos deles já nem morem no próprio país.
Eles têm deixado a China após o acirramento de uma legislação do governo que limita a liberdade de expressão. Dos sete chineses vivos que participam da Bienal de Taipei, por exemplo, apenas um deles reside em seu país os outros vivem entre suas cidades natais e metrópoles como Nova York, Londres, Amsterdã, e a própria Taipei, ou migraram definitivamente para esses lugares.
"Algumas conversas foram delicadas. Para artistas que vivem sob certas restrições, participar da Bienal em Taipei é um gesto carregado politicamente", dizem os curadores Sam Bardaouil e Till Fellrath, sobre o convite a artistas chineses. Seus trabalhos, no geral, ficam mais no plano simbólico e onírico, distante de referências diretas, mas ainda assim carregados de emoção.
É o caso, por exemplo, da obra de Isaac Chong Wai, uma das mais cativantes da mostra, uma série de gravuras de vultos sobre vidros azuis e brancos que, postos contra a luz, refletem as figuras no chão. As silhuetas de pessoas dançando e se tocando vem de memórias turvas de sua infância em Hong Kong.
Há dois brasileiros no evento, Fran Chang e Henrique Oliveira. Entre os taiwaneses, 23 dos 72 artistas que compõem a mostra, as referências à separação conturbada são mais diretas. Lee Hui-Fang, por exemplo, pinta naturezas mortas repletas de vasos ornamentais chineses que se misturam a objetos do cotidiano em Taiwan. Outros, como Liu Kuo-Sung, Lee Chun-San e Yang Wen-Yuan, já mortos, renovaram a pintura tradicional chinesa inspirados pela tendência abstrata americana, dominante no pós-guerra. Eles se mudaram para Taiwan na década de 1950.
Ho Huai-Shuo tem uma história parecida, e deixou a China para continuar os estudos artísticos após a Revolução Cultural, que minou as práticas tradicionais no país. Hoje, aos 84 anos, ele continua pintando paisagens obscuras, mas delicadas, transpostas da memória de um lugar distante para o papel.
Até artistas convidados de outros países para a exposição abordaram o tema. É o caso da francesa Eva Jospin, que construiu uma cidade em 3D com detalhes hiperrealistas de relevo e arquitetura usando apenas camadas de papelão. A cidade está duplicada, como se a parte de cima refletisse a de baixo uma referência a pintura secular "Dwelling in the Fuchun Mountains", de Lu Jian, um dos mais importantes artistas da dinastia Yuan. A obra de 1348 foi repartida, e hoje tem uma de suas partes guardadas no museu do Palácio Nacional, em Taiwan, e a outra no Museu de Zhejiang, na China.
São obras que dão pistas de uma ligação cultural frágil entre os dois países. O distanciamento começou com a colonização japonesa da ilha no século 19, depois que a China foi derrotada na guerra Sino-Japonesa. O governo japonês inaugurou exposições oficiais na ilha, que antes tinha tinha uma produção artística difusa entre caligrafistas tradicionais e artistas indígenas, conta a historiadora da arte Jau-Lan Guo, professora da Universidade Nacional de Artes de Taipei. Por outro lado, ela diz, a política imperialista do Japão exigia que a produção se adequasse a estética moderna.
Os colonos só deixaram a ilha em 1945, com a derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial. Começaria, pouco depois, a guerra civil que terminou com a vitória do Partido Comunista, e o refúgio do então líder chinês, o nacionalista e conservador Chiang Kai-Shek, em Taiwan. Ele declarou a ilha como uma república autônoma e instaurou uma ditadura que só teve fim nos anos 1980, período em que muitos artistas foram perseguidos e assassinados.
As agruras da colonização japonesa e dos anos de perseguição política são ainda mais recorrentes nos trabalhos da Bienal. Entre eles está, por exemplo, o retrato do marionetista Li Ten-Lu, popular nas ruas de Taipei entre os períodos de repressão, feito pelo fotógrafo Chang Chao-Tang. Pela boca do boneco, era possível falar o que não podia ser dito.
Já as pinturas coloridas de Skyler Chen misturam eventos históricos com narrativas familiares. Nascido nos últimos anos da ditadura, o artista retrata cenas cotidianas de Taipei de sua infância e adolescência, período em que descobria também a própria sexualidade. Em uma das telas, ele segura sobre uma mesa enfeitada de classe média o livro "Crystal Boys", romance gay publicado em Taiwan e na China nos anos 1980.
As obras, carregadas de reflexão política, contrastam com os monumentos espalhados por toda capital entre eles o Santuário dos Mártires Revolucionários Nacionais, o mausoléu que guarda o nome dos soldados mortos erguidos durante o regime de Kai-Shek. As obras apresentadas na Bienal refletem um esforço coletivo de digerir os traumas da ilha e entender sua identidade. E, em meio as polêmicas envolvendo censura na China, tornar Taiwan um polo da arte contemporânea na Ásia tem sido parte da política do governo para estabelecer a influência regional da ilha, afirma Guo.
"A história produziu uma sociedade profundamente sintonizada com a fragilidade, a resiliência e a reinvenção. Os artistas respondem a isso não erguendo uma bandeira, mas expandindo o vocabulário do que Taiwan pode significar", dizem Bardaouil e Fellrath.
"É muito difícil pensar de onde viemos na história. Na minha família, meu avô materno emigrou da China e precisou adotar um nome japonês durante a ocupação. A vida inteira ele se perguntou quem era", diz Li Yi-Fan, artista escolhido para representar Taiwan na próxima Bienal de Veneza. O tom universal de seu trabalho, que aborda de forma ácida o esvaziamento de uma sociedade acorrentada ao mundo digital das redes sociais e da IA, é uma tentativa de se encaixar no mundo, ele mesmo diz.
"O medo, enquanto taiwanês, está sempre presente. A ideia de que algo pode acontecer. Isso vem da nossa origem enquanto nação, estamos sempre com medo de algo que não podemos controlar", diz.
A jornalista viajou a convite do Museu de Belas Artes de Taipei
BIENAL DE TAIPEI
- Quando Ter. a dom., das 9h30 às 17h30; sáb., até 20h30. Até 29 de março de 2026
- Onde Museu de Belas Artes de Taipei - 181, Zhong Shan N. Road, Taipei, Taiwan
- Preço 30 dólares taiwaneses (R$ 5)

