Blog do Holanda : As pesquisas apontam que o Amazonas “já elegeu”, por antecipação, o ex-governador Eduardo Braga. Falam até em um milhão de votos. Mas Braga, dizem essas pesquisas, tem a rejeição de 95% dos prefeitos, que reclamam de seus excessos de grosseria quando exercia o Governo. Essa vaga está mesmo decidida, e com esse camburão de votos de que falam os pesquisadores, ou podemos ter alguma surpresa?
Edilson Martins – As pesquisas produzidas como espetáculo, ou mesmo fins comerciais, não é novidade no país. Até em Assis Brasil, na fronteira entre Brasil, Peru e Bolívia, diz a lenda, este fenômeno está se repetindo. As pesquisas e seus agentes, e, de resto as empresas que as produzem, viraram uma indústria generosa, navegando em todos os espaços desse mar de ganhos e vantagens. Ganham não poucos e perdem quase todos. Todos aí é a verdade, primeira vítima dessas malandragens. Pesquisa quantitativa tem a credibilidade de uma nota de 3(três)reais. Vamos supor que a empresa mereça credibilidade, o que não é tão comum; pesquisa quantitativa não passa de um flash, de um instantâneo, de captura de um momento. Até porque a opinião do eleitor, suas juras de amor, tem a consistência de uma paixão adolescente. Alguém conhece um político ou um partido, que contrate pesquisa reveladora de suas fragilidades, fraquezas, perante o eleitorado? Em ano eleitoral ter um instituto de pesquisa vale mais que as ações da Petrobras em tempos de bonança, de pré-sal.
BH – Nada é confiável, então?
Martins – Claro que não é assim. O Datafolha, por exemplo, não faz pesquisa contratada por partidos políticos, nem tão pouco para políticos. Isso estabelece uma diferença monstruosa. Pesquisa que conta é a qualitativa, e dela ninguém fala. As quali revelam tendências, e isto, sim, é o que conta. A conquista do voto é uma conquista chorada, sofrida, com recusas e desconfianças e resulta de uma infinidade de fatores invisíveis. Demanda uma química, de que muitos falam conhecer, dominar, o que não deixa de ser falácia. Essa conquista é muito parecida com a conquista de uma mulher. É possível conquistar uma mulher sem lhe oferecer sonhos, sem lhe acenar com fantasias, sem lhe bater asas e lhe parecer um herói de um conto de fadas? Tudo na vida é sonhos, sedução. O fruto delicioso da árvore, jabuticaba, por exemplo, não deve ser assim por acaso, certamente.
BH – Por que não se divulgam então as qualitativas?
Martins – A realização das quali é mais complexa, demanda melhor apuração, profissionais mais qualificados, mais custos, e de um modo geral o eleitor não quer saber disso. O eleitor está noutra. Ele prefere o Flamengo versus Vasco. Mas não deve ser assim para o candidato. Virou uma febre, aqui no Amazonas e alhures, debruçar-se em pesquisa quantitativa. Claro que o ex-Governador Eduardo Braga está bem avaliado. E claro que dificilmente não será o mais votado. Até os paralelepípedos da rua Acre, se é que existem por lá, sabem disso. Fez por merecer, me parece. É jovem, foi à luta, libertou-se do criador, saiu de sua sombra rapidinho, até porque a fila anda, e assim por diante. Só não sai do guarda-chuva do Negão quem não pode. Ele pôde e estamos falados.
BH – E a rejeição dos Prefeitos, injuriados pelas grosserias de seus quase oito anos de mandato e autoritarismo?
Martins – Imagino que isso seja conversa pra boi dormir. Até recentemente, e ainda hoje, é recebido em público com afagos, pelos que o apedrejam no privado, agora. Malandragem de quem quer mais. O Omar virou um anjo, a etapa superior do paz e amor, é o que dizem. No que está certo. O Eduardo, o demonizado. Talvez por não ter mais a caneta à mão. Os queixumes dos Prefeitos valem menos que uma jura de amor, sob os acordes de uma toada do Boi-Bumbá. Agora dizem que só não vota no Omar quem não o conhece pessoalmente, tal a sua candura. E que só votaram no Eduardo quem não o conhecia pessoalmente, tal a sua truculência. A verdade é que o voto do interior, decisivo em quase todas as eleições majoritárias, passa por outros mistérios, por outras razões, que minha razão aconselha não aprofundar.
BH - Poderia citar um exemplo?
Martins – Não devo. E nem você deveria ter me perguntado. E, no entanto, nas eleições de 2006, quando, ajudado pelo Egberto Batista, dirigi a campanha do palanque eletrônico do Amazonino Mendes, pelo que via, em imagens das visitas do Negão pelo interior, tinha certeza que ele iria bombar. No mundo do garimpo diz-se bamburrar, localizar muito ouro. Pelas imagens que me chegavam o Negão teria uma montanha de votos, no interior. Salvo erro de memória perdeu até mesmo em sua cidade natal. Nos municípios do interior o buraco é mais embaixo. E não se fala mais disso.
BH – Voltando às pesquisa; por que são divulgadas a todo momento?
Martins – Tudo marola e muita espuma, não de chopp, que por aqui não é mania regional, e sim das beiradas dos rios durante as enchentes. As pesquisas quantitativas, raramente confiáveis, buscam ampliar as alianças, construir arcos de apoio, já que o prazo não se esgotou. E também conquistar o eleitor, já que ninguém quer apostar em cafiaspirina com validade vencida. Nesse sentido as pesquisas jogam para a arquibancada, visando negociar melhor na hora da construção de alianças. Aqui mesmo, em 2002, o Artur buscava seu primeiro mandato de Senador. Estava em terceiro lugar, não poucos juravam que voltaria à carreira diplomática, e o seu candidato Presidencial, José Serra, tirava mais do que acrescentava, o que é de domínio público até hoje. Tive o prazer de dirigir, juntamente com o Valdo Garcia, sua Campanha. Terminou em primeiro lugar. Em 2002 fiz a prestação de Contas do Governador Jorge Viana, assim como seu horário eleitoral. Estava então ameaçado pelo Prefeito da capital, Flaviano Melo. Ganhou de barbada.
BH - E a segunda vaga, hoje? É do Arthur ou o atual Senador corre o risco de ser surpreendido por um “azarão”, que pode lhe roubar o emprego no senado?
Martins – O Artur é um político de referência nacional. Bingo. Se isso ocorrer desconfio que o Amazonas saia perdendo. Mas desconfio também que no imaginário do eleitor, inclusive do interior, ele veja o Artur como uma injunção, uma necessidade, é aquele vizinho ruidoso, polêmico, injuriado por muitos, mas sem ele a comunidade corre risco, pode sair perdendo. Ele precisa ter cuidado, isso sim, pois eleição para o Senado, com duas vagas, tem o maldito segundo voto, para o bem ou para o mal. E esse segundo voto tem sido uma maldição para muitos caciques, em todo o país, na história de todas as Campanhas.
BH – Mas ele e o Braga cessaram o tiroteio mútuo.
Martins – Por questões de sobrevivência, imagino. Que tenha havido um cessar-fogo entre ele e o Eduardo, tudo bem. Mas o processo político, durante uma Campanha, é igual a potro selvagem, ou mulher desejando alguém. O povo costuma dizer que fogo morro acima, água morro abaixo, e mulher desejando alguém, nem os poderes divinos são capazes de impedir. Os dois são esquentados, explosivos, há um rio Amazonas represado de ressentimentos, porque não dizer de ódios, e ai tudo pode acontecer. O Artur fez bonito em 2002 e depois pagou mico duas vezes, em campanhas estranhas. Em 2008 elegeu apenas um vereador, mesmo pondo o seu prestigio, seu rosto, suas digitais, no horário eleitoral.
BH - O Durango disse recentemente que para o Omar vencer no primeiro turno precisa conquistar, a partir de ontem, 1,5 mil votos ao dia. Na sua opinião, a diferença entre o Omar e o Alfredo Nascimento é tão grande assim ?
Martins – São duas perguntas, assim me parece. A primeira é platitude, frase de efeito produzida, por alguns marqueteiros do Sul, há quatro, oito anos atrás.Por outro lado, parece-me que a soberba está dificultando a caminhada do Alfredo, numa estação que exige humildade. Ouvi de um seu interlocutor, que não me lembro o nome, e nem quero lembrar, que ele afirmava, há bem pouco, de forma taxativa, não precisar de ninguém para se eleger Governador do Amazonas. É uma assertiva impregnada de soberba. Um capeta, que conheci furtivamente, líder do Inferno, aonde o filho chora e a mãe não ouve, já dizia no passado, que o pecado da soberba era o seu grande aliado. Tenho visto esse Senhor, algumas vezes, em vôos para Brasília, e fico com a sensação de estar diante do suplente de Deus, senão do próprio.
BH - Cito mais uma vez o Durango porque é considerado, aqui na terrinha, uma espécie de guru. Ao falar da internet nestas eleições, disse que o papel dela será secundário. Ele não estaria subestimando o poder da classe média, que já consulta a rede mundial para se informar e se comunicar via redes sociais, e outras ferramentas disponíveis?
Martins – Cada paróquia tem o guru, ou pastor, que merece. Surpreende alguém, que lida com pesquisa, razoavelmente bem informado, produzir uma veleidade dessa natureza. A internet, com suas redes, sua abrangência, sua capacidade de minimizar o mundo, reduzir distâncias, é a grande estrada, a imensa avenida do conhecimento, da cultura, das trocas. É uma revolução difícil de ser superada, em toda a história da humanidade. Nestes últimos 10 anos o país viu emergir uma nova classe média oriunda das populações pobres. A partir desse fato dá para entender a majestade do Lula. Eles já viajam de avião, freqüentam os shoppings dos bacanas, deslocam-se nas férias de um estado para outro, e são vistos, muitos, com seus note-book nos aeroportos da vida. E agora vai um veneno, o que não é da minha natureza; se o blog dele tivesse o mesmo volume de acesso que o seu, talvez ele não produzisse essa platitude.
BH - Para você, calejado em campanhas aqui no Estado, qual a principal dificuldade para o Omar se comunicar com o eleitorado? E o fato de o Alfredo se dizer candidato do Lula?
Martins – A aprovação estrondosa do Lula, não necessariamente de seu Governo, gera uma penca de políticos em busca de seu apoio. No caso do Alfredo esse apoio tem pompa e circunstância. Só que pode não ser bem assim, na hora de abrir as urnas. Isto já aconteceu em Natal, no Rio, no Nordeste, em diferentes estados e cidades. Em São Paulo, por exemplo, ele jurou que elegeria a Marta. Deu no que deu. Eleitor não é necessariamente marionete. Pelo que sinto, do ruído das ruas, do clamor dos botecos, ao longo das vielas esburacadas, que não são poucas, o arco de alianças do Omar vai bem, obrigado. O Amazonino, se quiser, e ninguém garante isso, lhe repassa pelo menos 10% do colégio eleitoral. Tem o Braga alavancando, tem a máquina do estado.
BH - Uma eventual candidatura do Pauderney Avelino altera o quadro de disputa ou ele entra no processo para fazer número e servir a um dos candidatos considerado “com chances” de ganhar?
Martins – A prevalecer essa candidatura, a versão veiculada é que estaria criando um palanque para a candidatura do Serra, portando indo para o sacrifício. Versão altruísta e generosa. Ou; viabilizando melhor uma das candidaturas ao Governo do Amazonas, como você me parece insinuar. Também versão de renúncia e generosa. E, no entanto, como toda toalha de seda tem sua franja de algodão, é possível imaginar, e nisto não há veneno, acreditem, que sua eleição para a Câmara Federal não esteja assim tão garantida.
BH – As pesquisas aqui no Amazonas praticamente pautam o noticiário político. O Durango é sempre a estrela maior.
Martins – Karl Marx criou a Primeira Internacional. Engels participou da fundação da Segunda. Lenin produziu a Terceira. Trotski fundou a Quarta. Machado de Assis consolidou o realismo brasileiro. JK criou Brasília. Lula refundou o Brasil, ele garante. Já o Durango descobriu a magia de interpretar as tendências do eleitor amazonense. O perigo é ele estender essa ação para o resto do país.
BH – O palanque eletrônico perde força?
Martins – Ele agora não está mais sozinho. As redes sociais da Internet chegaram para ficar. Não mais devemos subestimá-las. Elas crescem. O desafio é saber usar essas ferramentas. Aqui no Amazonas as campanhas televisivas ainda estão na era do Rádio. Isso com generosidade. Propaganda boa é a que não parece. Peça defensiva, que fala dos feitos do candidato, pode ser bonitinha, mas não funciona. Este é um dado novo. Peça que fica é aquela que compara, desconstrói o adversário. E isso não é fácil de fazer, pode gerar efeito contrário. Se o eleitor identificar o Omar como a continuidade do Eduardo, fica difícil derrotá-lo. Eis um exemplo. O Alfredo, como Ministro, não disse bem para o que veio, tanto para o Amazonas, como para o país. Pode ser, em futuro próximo, um exemplo didático de como o fracasso nos sobe à cabeça.
BH – O que deve fazer um candidato majoritário?
Martins – Numa eleição ele precisa crescer em cima do mercado do adversário. O mercado eleitoral tem que ser conquistado casa por casa, ele é difícil, é uma guerra de ocupação de terreno, uma verdadeira Stalingrado. Candidato dizer o que seu eleitor, seus militantes, querem ouvir é tiro no pé, senão no próprio peito. Eleição se ganha com emoção, pautando, isso sim, a agenda do adversário. O ideal para uma candidatura majoritária é a vitimização. O Serafim foi um exemplo, na eleição para a Prefeitura de 2004. O mesmo já ocorrera com Lula, em 2002. Os exemplos são muitos. Tirando a espuma, a eleição de outubro vai nos oferecer muitas surpresas. Como a derrota é órfão e a vitória tem muitos pais, teremos, como sempre, um misto-quente de chororô e muitos folguedos.
BH – O nome da Rebecca Garcia está sendo aventado para vice-Governadora. Ela foi eleita quase na prorrogação, a última dos oito eleitos. Agora tem a melhor avaliação para a Câmara dos deputados federais. Desde 2007, você vem fazendo suas peças. A que se deve esse desempenho?
Martins – Primeiro aos seus méritos pessoais. É jovem, aguerrida, qualificada, tem garra, e nenhuma rejeição praticamente. Depois é herdeira de um espólio valioso, Chico Garcia, cacique que em boa hora poderá renovar seu baú de prestígio, através da filha. Garcia tem um mérito único na política amazonense; atende todo e qualquer telefonema e cumpre, rigorosamente, o que foi acertado. É um diferencial incrível, no Amazonas.
BH – Ela pode emplacar uma vice?
Martins - Acho praticamente impossível. Claro que numa eleição polarizada, como parece ser a atual, quem a tivesse para vice era só correr para o abraço. Ela poderia até mesmo virar febre eleitoral, o que não é raro acontecer. E justamente por isso é que haverá veto, imagino. O x da questão é justamente esse; o seu teto de crescimento é infinito, e aí o bicho pega. Ninguém está a fim de incubar os ovos da serpente, nem tão pouco colocar azeitona na empada alheia. Já em 2012, teremos eleição para a Prefeitura de Manaus. Não tem bobo nesse game. Por enquanto, para ela, a boa estratégia é a do passarinho na muda não canta.
BH – O Alfredo já tem vice, o Serafim Correa. O ex-prefeito não teria cacife para concorrer ao Governo do Estado? Até porque não fez feio na última eleição.
Martins – Pode-se supor que essa desistência é um verdadeiro mistério, algo mais impenetrável que o próprio segundo ou terceiro segredo de Fátima. Na última eleição não só fez bonito, como produziu um novo paradigma, fato novo na literatura do marketing político. Começou a Campanha para renovação de seu mandato com uma aprovação pífia de 6 a 8% do eleitorado, e, mais grave ainda, uma rejeição superior a 40%. Pelo menos é o que anunciavam as pesquisas. Pois bem; foi para o segundo turno, e desconfio que se a campanha contasse com mais 10 dias, ele teria ganhado do Negão.
BH – Tal feito o habilita para concorrer ao Governo do estado?
Martins – Certamente. Primeiro; é bom de palanque, palanque eletrônico. Não conheço nenhum político no Amazonas que saiba tão bem utilizar essa ferramenta. Tem excelente memória, raciocínio rápido, é sereno, chega a ser frio no calor dos embates, e tem bom jogo de cena. Dez dias a mais de campanha em 2008, teria ganho do Amazonino. Até porque a campanha do Negão, bom, cala-te boca... Pois bem; numa disputa que certamente será polarizada – Omar versus Alfredo – onde os dois terão que partir para o confronto, e nenhum deles é carismático, enfrentam diferentes dificuldades, todos os dois, talvez fosse a hora e a vez do Serafim. Sua desistência é um fato curioso, curiosíssimo.
BH – Não há nessa avaliação uma dose de ressentimentos? Até porque você perdeu o comando da Campanha do Amazonino em 2008.
Martins – Negativo. Tive e tenho pelo Antônio Melo e o seu grupo, a melhor memória. Nos visitamos diversas vezes, mantivemos contato permanente, e em verdade não tiveram nenhuma culpa. O problema é que caíram de pára-quedas, num terreno que exige tempo para se conhecer. Quanto ao meu afastamento, normal em quaisquer campanhas, nada demais. Foi jogo, jogado. E, se mais não fosse, não poderia dirigi-la já que naquele momento estava isolado, não tinha mais sustentação política, não tinha mais retaguarda.
BH – O Pauderney em 2006, para o Senado, teve votação de time de
primeira divisão.
Martins - Não custa lembrar que Pauderney Avelino, nas eleições de 2006, cristianizado por todos os lados, inclusive por seus pares, se houvesse duas vagas para o Senado teria sido eleito. Quase 300 mil votos. E poucos apostavam nele; nem o Negão. Fizemos também aquela Campanha.
BH – Campanha eleitoral pode ser chamada de uma Guerra?
Martins – Certamente. E não custa lembrar que a guerra de armas, de canhão, de infantaria, nada mais é que a extensão da guerra política. Isto já foi dito. Churchill até observava que a única grande diferença, é que na guerra de bombas e tiros, só se morre uma vez. Enquanto nesta outra, da qual estamos matracaqueando até agora, morre-se muitas vezes, e não poucas se ressuscita, até mesmo com mais poder e pompa do que antes da primeira ou segunda morte. Por isso é que ela não comporta amadores, almas frágeis.




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