Por Ana Celia Ossame, especial para Portal do Holanda
“Os cabanos ainda vivem”. Isso pode ser provado no Rio Mutuca, afluente do Rio Autazes, onde a severa estiagem deste ano fez reaparecer as cercas fincadas no rio para impedir o acesso ao local no movimento conhecido por Revolta da Cabanagem, ocorrido entre os anos de 1836 a 1840 na então província do Pará, que compreendia o que é hoje os estados do Amazonas, Pará, Amapá, Rondônia e Roraima.
A seca do rio mostrou que inúmeras estacas de louro, paracuúba e piranheira com pontas afiadas, postas assim para furar as embarcações que ali navegassem, ainda resistem e embora muitas tenham sido arrancadas ou serradas para evitar novos acidentes, como revela o morador Arivan Pessoa Bezerra.
As que permanecem fincadas no rio e são difíceis de serem arrancadas mostram que ‘os cabanos vivem’, como afirma o professor e historiador José Ribamar Bessa Freire, para quem esse traz à memória um dos mais importantes movimentos que conseguiu reunir indígenas, caboclos, mestiços e negros na Amazônia contra os colonizadores.
A luta dos cabanos era pela melhoria das condições sociais e econômicas e a revolta recebeu essa denominação porque a maioria dos rebeldes morava em cabanas às margens dos rios dessa grande região. Também disputa pelo poder político e a independência da região do domínio português.
A Cabanagem é considerada uma das mais violentas do período colonial, pois estima-se a morte de aproximadamente 30 mil pessoas na capital e no interior da Província. Entre os mortos, estavam os líderes cabanos Felix Clemente Malcher e o presidente da província, Bernardo Lobo de Souza. Outros líderes foram os irmãos Francisco e Antônio Vinagre, Eduardo Angelim e o cônego Batista Campos, considerado um dos mentores do movimento.
A cidade de Autazes era chamada inicialmente de Ambrózio Ayres, em homenagem ao fazendeiro bararoá que lutou contra os cabanos e foi morto durante os conflitos.
Em artigo publicado em suas redes sociais, Bessa destaca o livro do professor Luis Balkar, da Ufam, denominado “Visões da Cabanagem”, fruto de sua tese de doutorado defendida na PUC de São Paulo. No trabalho, ele desconstruiu os diversos discursos sobre a Cabanagem, trazendo a contribuição que em diferentes momentos deram uma compreensão importante sobre o movimento.
Para Bessa, uma contribuição pode ajudar os professores a recolocar a questão em sala de aula. “Este livro, se lido e debatido pelos professores, com certeza modificará a prática pedagógica e permitirá uma compreensão mais profunda de um movimento vital para a construção da nossa memória e da nossa identidade”, pontuou.
Conflitos em Manaus
Outro historiador, Antônio Loureiro (1984), escreveu que Manaus, na época Vila de Luseia, foi palco de muitos conflitos entre os cabanos e as tropas fiéis ao governo português. No Amazonas, o ciclo da Cabanagem continuou até 1840, quando os últimos rebeldes se entregaram, escreveu Loureiro.
Mas no baixo Amazonas, onde está situado Autazes, houve os maiores conflitos, quando os portugueses foram expulsos por Ambrózio Ayres, que se destacava nos combates aos estrangeiros colonizadores.
Os cabanos se renderam em 1840, após o decreto de anistia aos revoltosos, assinado em 23 de março desse ano quando 980 cabanos entregaram as armas e tiveram que jurar fidelidade à Constituição vigente.
No estado do Pará foi inaugurado em 1985, durante do governo de Jader Barbalho, o Memorial da Cabanagem, projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer





