Por Ana Celia Ossame, especial para Portal do Holanda
A ausência de informações importantes das mulheres vítimas da violência nos Boletins de Ocorrência (BOs) feitos na delegacia e a frequência de homens com formação militarizada, com acesso ao porte de arma de fogo, entre os autores, são alguns destaques do relatório sobre a violência contra as mulheres em São Gabriel da Cachoeira, município mais indígena do Brasil.
A afirmação é da antropóloga Flávia Melo, coordenadora do Observatório da Violência de Gênero no Amazonas da Universidade Federal Amazonas.
O relatório, cujo título é “Tecendo a vida sob braços fortes - Caracterização da violência contra mulheres na cidade de São Gabriel da Cachoeira/AM”, é resultado de um esforço coletivo para responder às constantes queixas de mulheres indígena e traz dados sobre as principais formas de agressões registradas na delegacia do município que são a violência patrimonial, com 23,3% das ocorrências, a psicológica, 17,7%, a moral, 11,5% e a sexual, 3,8%.
Flávia explicou que após a coleta, pesquisa e análise dos dados, chama a atenção a ausência de informações elementares das vítimas que procuram a delegacia. Essa ausência de informações, como a idade da vítima, impede o cruzamento da prevalência de determinados crimes em algumas faixas etárias.
“Se tenho a idade das vítimas de estupro, por exemplo, eu posso cruzar o crime com a idade e a hora que ocorreu para ter dados mais apurados da dinâmica desse crime”, afirma Flávia.
A coordenadora aponta ainda como importante a participação de homens de formação militarizada e com porte de arma de foto envolvidos nesses crimes ocorridos em São Gabriel da Cachoeira, nos anos de 2010 a 2019, registrados em oito livros de ocorrência.
Mas nos registros foi constatada a falta dados importantes para se conhecer melhor os agressores, embora nas informações disponíveis seja possível concluir que pelo menos 61% dos autores são homens de formação militarizada, vindo tanto das forças armadas, quanto da polícia, guarda municipal e segurança privada.
Esses dados acendem um alerta, segundo a professora, porque mostram serem homens com porte de arma ou acesso facilitado às armas, o que indica uma necessidade de nova pesquisa para investigar a fundo se essa de fato, que acompanha o perfil de agressões. “Se tem relação com a extensiva e numerosa presença militarizada do Estado na região, é preciso buscar medidas que nos levem a mitigar os efeitos danosos do porte de arma de fogo e relações conflituosas”, argumenta.
Para ela, ao se considerar o São Gabriel da Cachoeira como detentor da maioria da população indígena, é possível que as lacunas nesses documentos tenham como causa não somente a negligência dos agentes do estado que as produzem, mas também a influência da diversidade étnica e linguística da região.
Flávia recomenda a leitura da pesquisa às autoridades tanto estaduais quanto municipais e agradece as parcerias que levaram ao protagonismo da Ufam, por meio do Observatório da Violência de Gênero no Amazonas, do movimento indígena, do Departamento de Mulheres Indígenas da Federação das Organizações Indígenas do Alto Rio Negro (Foirn) e da delegada Greice Jardim, que garantiu o acesso controlado e ético aos documentos no ano de 2020.
O conteúdo pode ser acessado pelo link: https://drive.google.com/file/d/1CUbyyLpMA1BY_b0NpNhVLrRfWQzM118Y/view


