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Pesquisa mostra importância de ações afirmativas para proteção de mulheres

Pesquisa mostra importância de ações afirmativas para proteção de mulheres
Pesquisa mostra importância de ações afirmativas para proteção de mulheres

Por Ana Celia Ossame, Especial para Portal do Holanda
  

A naturalização da violência contra as mulheres na sociedade brasileira pode ser identificada até mesmo em espaços como nas instituições públicas de ensino superior do Estado do Amazonas e para combatê-la, há necessidade de ampliar as ações afirmativas e políticas públicas que considerem essas desigualdades. 

“A pesquisa mostrou não haver locais onde as mulheres estejam completamente protegidas, nem em casa, nem nas instituições de ensino superior” , afirmou a professora doutora em Serviço Social, Milena Fernandes Barroso, que coordenou uma pesquisa que avaliou a violência em espaços acadêmicos públicos no Amazonas.

A pesquisa ouviu 1.116 pessoas entre acadêmicos, professores, técnicos e terceirizados de ambos os sexos para identificar a dinâmica da violência contra a mulher nesses espaços e descobriu que 38% afirmam ter sofrido algum tipo de violência no ambiente acadêmico nos últimos cinco anos. Destes, 73% são mulheres, as maiores vítimas de assédio moral e sexual, estupro, racismo, xenofobia, homofobia e transfobia.

O trabalho teve o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), foi realizada por meio de formulário virtual e encaminhada aos participantes das Universidade do Estado do Amazonas (UEA), Federal do Amazonas (Ufam) e do Instituto Federal do Amazonas (Ifam), abrangendo unidades da capital e do interior.

“Se, por alguns momentos nós, pesquisadores, pesquisadoras, achamos que a casa, a família, seria esse lugar de proteção, os estudos revelam exatamente o contrário, pois são nos espaços das relações domésticas onde as mulheres estão mais expostas”, explica.

Mas a violência não se restringe aos ambientes domésticos. A pesquisa mostrou, conforme destaca Milena, que as universidades reproduzem a discriminação e as desigualdades da sociedade, portanto, a violência contra as mulheres é uma experiência que causa dor, sofrimento e impedimentos dentro das instituições. 

“Muitas mulheres estudantes deixam de seguir com seus projetos pelas experiências de assédio, e outras violências vivenciadas nesses espaços”, afirma a pesquisadora, incluindo tanto as estudantes, técnicas e professoras nesse quadro.

Ao comentar a ideia de que há um exagero no volume de denúncias por conta da abertura de canais para que as mulheres façam suas acusações e de que a lei estaria tratando os homens como cidadãos de segundo classe, deixando muitos deles apreensivos e sem saber como lidar com esse fato, Milena justifica que essa visão tem a ver com o processo de naturalização dessa violência.

“Vivemos numa sociedade que historicamente naturalizou determinados tipos de comportamentos e tratamentos desiguais, que em grande medida inferiorizam as mulheres e essa naturalização, quando passa a ser questionada, problematizada a partir de mobilização, de mudanças no campo da legislação, da criação de políticas públicas de proteção às mulheres, provoca esse tipo de percepção”, argumenta.

Entretanto, prossegue Milena, “isso faz parte de um processo de desconstrução de determinados comportamentos que são machistas, sexistas, que colocam a mulher nesse lugar de um ser inferior, objeto passível de ser usado e descartado e dessa forma contribui para que a gente consiga expor o problema de forma mais abrangente e avançar na construção de relações mais igualitárias.

Para exemplificar, a pesquisadora cita que a sociedade exige que as mulheres conciliem as atividades domésticas e as do trabalho nas universidades, o que muitas vezes não é cobrado dos homens. As mulheres têm que cuidar dos filhos, da casa, da mesma forma que têm que dar conta das atividades da esfera pública, muitas vezes, sem apoio e estrutura para tal, o que contribui para dificultar que mulheres ocupem determinados lugares, cargos e avancem em suas carreiras dentro das instituições.

“Nas universidades, são as mulheres que mais entram, mas elas não conseguem permanecer nesses espaços com o mesmo sucesso que os homens não por faltar competência, mas porque as condições e oportunidades para que elas consigam alcançar os espaços são desiguais”, observa a pesquisadora.

Outro ponto destacado por ela é a existência de descrédito contra as mulheres que denunciam, resultado desse machismo, dessas relações patriarcais, para justificar a violência. 

“Muitas vezes a fala dessa mulher é desacreditada quando se pergunta sobre que roupa usava, em que horário, o que estava fazendo e o que deixou de fazer para vivenciar aquela situação, revitimizando a vítima, ou seja, expondo a pessoa a uma nova violência, do tipo institucional que acaba por reproduzir os mesmos julgamentos históricos de machismo, racismo que tem no patriarcado racista sua fundamentação”, assegura.

Por esses fatos, muitas pesquisas apontam para a importância de ações afirmativas, e a ampliação de políticas públicas que considerem essas desigualdades tão presentes na nossa sociedade para garantir a proteção, o acolhimento e mais oportunidades para as mulheres, da mesma forma que os homens têm na sociedade, completa Milena, destacando que tais mudanças são centrais para o avanço da ciência e da sociedade como um todo.

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