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Operação Gaia "foi uma farsa", diz advogada, que acusa dono da Mosaico pela "trama"

A advogada Syrslane Ferreira Navegante, procurada pela Polícia desde abril, disse, em entrevita exclusiva ao repórter Elcimar Freitas,  que a Operação Gaia, da Polícia Civil, desencadeada para prender suposta quadrilha que vendia terrenos irregulares em Manaus, na verdade foi planejada e executada com o propósito de proteger um grupo de empresários que estaria recebendo dinheiro federal por obras numa área em litigio às margens do igarapé do Mindú, em Manaus. Ela aponta o empresário  Jorge Sotto Mayor, dono da  Mosaico Engenharia, como cabeça do esquema que, segundo diz, visa subtrair do verdadeiro proprietário do terreno, Elias Fernandes de Carvalho, o que de direito lhe pertence. Ela aponta ainda o procurador Assembleia Legislativa do Amazonas, Wander Goes, como o homem que autorizou Sotto Mayor a usar um terreno de seu cliente, sem representar as  partes e sem documentação que lhe autorizasse essa medida. A revelação da participação de Wander teria sido feita pelo proprio Sotto Mayor. A advogada também questiona o "sigilo da  Operação Gaia. Segundo ela, Sotto Mayor sabia da operação e que o seu nome estaria entre aqueles com mandado de prisão. Ela afirma que o Operação foi uma farsa para proteger altos interesses do  empresário.

A advogada disse que ao ingressar na Justiça Federal com ação cautelar pedindo o bloqueio do repasse de verbas do Programa de Aceleração do Crescimento para as obras do Corredor do Mindu, contrariou interesses das construtoras Planecon, São Francisco, Mosaico Engenharia,Emparsanco,  das imobiliárias Vieira Alves e Landim. "Encontrei  o empresário Jorge Sotto Mayor, um dos grandes interessados na continuidade das obras, que em conversa comigo  deixou a entender que em breve teria problemas com a polícia.  Ou seja, seria tirada de circulação para não causar mais problemas."


Confira a baixo a entrevista.
 
Portal do Holanda – A senhora e seu Elias, seu cliente, foram autores da denúncia no 27º DIP e viraram de denunciantes a bandidos?

Syrslane – É uma questão delicada, mas não precisa ser nem um James Bond ou um Sherlock Holmes para entender: eu fui colocada nessa situação por interesses de terceiros. Essa área vale milhões, se você calcular a oito reais o metro dessa área, dará cerca de R$ 78 milhões.

– Quais seriam esses terceiros?

Syrslane – Mesmo sendo uma área em litígio, lá tem obras sendo feitas com dinheiro do governo federal, o que não poderia. Inicialmente teve a obra do Passeio do Mindu, que passa dentro do terreno, que somando a área do Águas Claras, chega a  R$ 117 milhões. E a obra ainda esta em andamento porque o Ministério Público Federal não teve conhecimento disso. Tomei conhecimento de tudo isso ano passado, mas como estava na época da política, resolvi deixar passar para poder correr atrás. Quando chegou fevereiro fui correr atrás para saber quem estava por trás das empreiteiras e ai conheci os donos. Cheguei a conversar com o Jorge Sotto Mayor, da construtora Mosaico e o com o dono da construtora São Francisco, seu Ozimar.

– Então a senhora e seu Elias começaram a contrariar interesses da Mosaico, quando questionaram que eles estavam instalando um imenso galpão em área de propriedade de seu cliente?  Foi isso, ferindo interesses do Jorge?

Syrslane - Eu fui pessoalmente no galpão conversar com o responsável porque eles estavam ampliando ainda mais o galpão e eu disse que não poderiam. Questionei se os terrenos era deles - o responsável me disse que não, mas como era da obra o seu Jorge tinha autorizado. Como ele não tinha documentos, disse que embargaria a construção se ele continuasse. Seu Jorge marcou para conversamos e fui lá.  Levei todos os documentos da área e ele me disse que o procurador da Assembleia Legislativa, Wander Goes, foi que tinha cedido a área para ficar lá. Perguntei se o procurador da Assembleia  tinha autorizado por escrito, se havia  algum documento. Ele disse que não. Questionei se ele tinha comprovante de que estava pagando aluguel. Fiz a proposta para ele fazer um contrato com a família, disse que a área estava em litígio. Eu e a família sabemos da importância da obra, mas disse a ele que a família  não poderia estar sendo lesada. Ele me disse que não era só e iria consultar seus sócios e o corpo jurídico da empresa e depois entraria em contato.

 – Veio a resposta ou a senhora voltou a encontrar o Jorge Sotto Mayor?

Syrslane – Eu o encontrei seu Jorge no corredor do Implurb. Ele me disse que depois do carnaval me daria uma resposta. Mas ele não me ligou e eu também não liguei. E pensei: esse pessoal vai tomar posse de tudo. Resolvi correr para a Justiça Federal, por se tratar de verba do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Como é uma Justiça célere as empresas foram citadas, e assim que as empresas foram citadas  eu encontrei o seu Jorge, no corredor da Secretaria de Obras Municipal. Eu o cumprimentei e disse que ele não tinha me ligado, ele disse;  não doutora eu já conversei com o doutor Hissa, ele disse que tá tudo resolvido e a obra vai continuar.

 – E nessa conversa o que mais o dono da Mosaico disse à senhora?

Syrslane – Disse ter ficado sabendo que eu estava com problemas na polícia. Eu disse: eu com problemas na polícia! Eu falei:  será que o senhor está se referindo a entrevista que dei na CBN, quando orientei as pessoas a não comprarem terrenos naquela área e mostrei o título do seu Pedro?   E para a minha surpresa cerca de 45 dias depois fui surpreendida com a Operação Gaia.

– Pela conversa com o Jorge Sotto Mayor, a senhora acredita que ele já sabia da operação supostamente sigilosa?

Syrslane – Eu acho que ele já sabia que eu iria ter problemas com a polícia. Eu acredito que ele já sabia que meu nome iria ser enrolado em alguma coisa. Pelo tom da conversa que tive com ele no corredor da secretaria dá para entender que ele já sabia que eu teria problemas.

– A senhora pediu o quê da Justiça Federal, que assustou tanto as empreiteiras?

Syrslane – Entrei com uma cautelar, pedindo o bloqueio da obra, para evitar os repasses de verbas do Governo Federal. Por conta que eu entendo assim, se a área está em litígio, tem invasões na área, um monte de briga porque o governo federal vai investir neste local? A obra é louvável, mas a área está em litígio, o investimento lá não poderia acontecer.

 – A senhora sabe me dizer quando foi feito a licitação para essa obra dentro da área em litígio?

Syrslane – Sim, no governo do Amazonino Mendes e existe até um fato estranho, que inclusive foi denunciado no Portal do Holanda, na época da licitação, quando a Mosaico, do senhor Jorge Sotto Mayor, venceu, a esposa dele era secretaria do secretário Américo Gorayeb. E foi a empresa dela que estranhamente venceu o certame. Tudo isso ao narro na inicial que fiz à Justiça Federal, inclusive juntei várias matérias que falam de irregularidades na licitação. Lá são dois consórcios Águas Claras (Mosaico e São Francisco) e do Mindu (Emparsanco e Mosaico).

– Então ao   denunciar possíveis irregularidades a senhora  mexeu com interesses de gigantes que, na sua opinião,  armaram para ocorrer a Operação Gaia?

Syrslane – Acredito que juntaram o útil ao agradável. Como eu estava incomodando muita gente por estar fazendo a coisa certa, me envolveram nessa operação, eu e meus clientes. O delegado coloca nas escutas até conversas minhas com clientes meus de outras áreas, briga com meu ex-companheiro, ele colocou de tudo. Ele fez de tudo para me envolver nisso. Eu não pratiquei estelionato, eu não falsifiquei nenhum documento que seja e eu não induzi  nenhuma pessoa a comprar terreno.

- O delegado disse que a senhora era responsável por ajuizar ações em prol da quadrilha?

Syrslane – Sou responsável por duas ações. Uma contra a Mosaico, na Justiça Federal e outra fiz uma defesa com a doutora Onilza, para evitar a quebra das casas. E no meu habeas corpus, fala que a caneta do advogado é mais perigosa do que arma de fogo e eu queria saber que ações são essas, porque se você olhar no site do Tribunal de Justiça, vai ver quando ajuizei ação para Silma, Jean Sombra, Edileuza ou qualquer outro que seja considerado membro da quadrilha...

 – Então vejamos: os gigantes (empreiteiras) se uniram para tirar de cena quem poderia atrapalhar na execução da obra de mais de R$ 100 milhões?

Syrslane – Eu entendo assim;  vamos colocar eles na cadeia, executamos a obra, recebemos o dinheiro, passando três ou quatro anos eles limpem os nomes deles. Mas no momento, vamos sujar o nome dela (Syrslane), ela não vai trabalhar. Vamos quebrar a força das pessoas que estava incomodando, o coronel Berilo, o seu Elias e eu, quem mais?  não tem mais ninguém com ação na Justiça Federal, pedindo o bloqueio da obra, somente eu.
 
 -  Então o  que houve por trás da “Operação Gaia”?

Syrslane – A operação tem interesses de diversos pontos. A operação utilizou-se para prender bandidos, não vou dizer que dentro da Gaia não prendeu bandidos, prendeu sim bandidos, mas outras pessoas que não eram bandidos, que fizeram as denúncias no 27º Distrito Integrado de Polícia, e foram envolvidas por mexerem em interesses dos poderosos que sabem o imenso tamanho da área.

 – Quais são os poderosos interessados?

Syrslane – Se você olhar de início, quem tem interesse na área, que estão no litígio. Temos o litígio do senhor Pedro Silveira de Carvalho contra as imobiliárias, Pinheiro Landim e Vieira Alves, que fizeram o loteamento e venderam os terrenos, Águas Claras 1 e 2 e Parque das Graças, tudo dentro da área. Apesar do Conselho Nacional de Justiça ter bloqueado as matrículas mães, as matriculas subsidiárias continuaram e todos os dias as duas imobiliárias vendem terrenos na área. Inclusive a Vieira Alves responde a processos na Justiça por ter vendido áreas consideradas verdes.

 – E quem é o verdadeiro dono dessa área ?

Syrslane – Temos os documentos que foram passados pelo setor de terras do governo do Estado do Amazonas. A assessoria contratada a época requereu e conseguiu o título, ainda escrito manual, todos os azimutes, o mapa detalhado da área mostrandoa sobreposição de matriculas do VieiraAlves, Planecon e Pinheiro Landim. Existe nos autos da ação de litígio toda essa cadeia de compras, que está na Vara de Registros Públicos, que foi ajuizada em 2010 e tudo foi juntado aos autos pedindo uma anulatória da sobreposição de matriculas. E fica a discussão;  quem comprou antes, seu Pedro ou o VieiraAlves. Eu não sei, mas como advogada eu vislumbro se o estado vendeu para duas pessoas, cabe a indenização porque as imobiliárias recebem todo dia dinheiro da venda de terrenos, enquanto seu Pedro  nunca recebeu nada da área.

– O dizem as imobiliárias a respeito da documentação?

Syrslane – A Landim e a VieiraAlves, em uma ação que tramitou na Corregedoria do Tribunal de Justiça, dizem que se teve algo errado com a documentação não foi feita por eles.

– O delegado que comandou a operação fala em falsificação de documentos públicos?

Syrslane – Fala, mas nunca apresentou nos autos esses documentos que ele diz que são falsos, como ele não comprovou nos autos o loteamento feito pela família.

 – No dia da operação o delegado Bona disse que a quadrilha arrecadava mais de um milhão e meio por mês. o "chefão desse bando", seu Elias Fernandes Carvalho, é um homem rico?

Syrslane - Seu Elias não é um homem rico, é um taxista, que ainda está pagando o financiamento do carro. Eu entendo que se ele ganhasse como disse o delegado - um milhão e meio de rais por mês, ia se  se submeter a financiamentos. Digamos que "a quadrilha", como diz o delegado,  arrecadasse tudo isso e dividisse por 10, cerca de R$ 150 mil para cada, aí seu Elias não precisava sair todos os dias em seu táxi para ganhar seu pão de cada dia.  É um homem simples, do povo humilde e honesto. Ele não aceita coisa errada. A maior vítima de todos nessa operação é o seu Elias. Todo mundo sabe que a cadeia não tem condições de cuidar de um homem, já idoso, com a diabete.

 

NOTA : O Portal do Holanda tentou contato durante todo o dia de ontem com  Sotto Mayor, mas sem êxito, ficando aberto para, se o empresário achar conveniente , rebater a entrevista da advogada.

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