Edilson Martins
Que o estado brasileiro, nos anos 30 do século passado, manteve relações estreitas e cordiais com o nazismo alemão não é novidade. Que Getúlio Vargas, naqueles anos de incertezas e convulsões, nutria visível preferência pelos alemães, deixando os americanos, que reclamavam a opção preferencial, no banco de reserva, também não é novidade.
O que não se sabia, e isso permaneceu no limbo por mais de 75 anos, é que o Brasil recebeu e hospedou, entre os anos de 1935 a 1937, uma expedição alemã dita científica, poderosa, com aviões, navios, militares, pesquisadores e uma tecnologia altamente sofisticada, na foz do nosso rio Amazonas.
Durante três anos, portanto, às vésperas da 2ª Grande Guerra, o mundo já começando a pegar fogo, essa curiosa e poderosa expedição, que de científica nada tinha, acredita-se hoje, permaneceu intocável no vale do rio Jari, na foz do Amazonas. Esse rio, não custa lembrar, localiza-se em um ponto decisivamente estratégico para se penetrar na Amazônia, via rio Amazonas, até porque ele separa os estados do Pará e Amapá. Escolha mais acertada não poderia ser.
Percorreram e pesquisaram nossas matas, solos, fauna e rios, e, não menos curioso, ciceroniados pelos aborígenes mais isolados do país, que sequer o estado brasileiro conhecia. Que foi bizarro, lá isso foi; o III Reich de mil anos, encantando o mundo com suas mudanças bélicas, econômicas e sóciais, recorrer a um povo afastado que sequer conhecia a dúvida, na idade da pedra, lá na rabeira, diriam os idiotas do processo
civilizatório, há pelo menos 10,11 mil anos.
Bizarro, sinceramente bizarro.
Causa espécie, e a percepção chega a ser patética, as imagens desses índios em estado de cultura pura, portanto isolados, no meio da mata, nas quebradas da selva, no meio de correntezas e rios adversos, conduzindo alegremente os símbolos do Governo nazista – sua bandeira principalmente – que logo mais levariam o terror – deflagração da 2ª Grande Guerra – ao restante do mundo.
Se há uma dimensão patética e bizarra em tudo isso – selvagens liderando uma expedição nazista no coração da Amazônia – vale lembrar que alguns desses “cientistas” tiveram aqui seus pés comidos pela terra, onde as cruzes ainda existentes, nas margens do Jari, são um testemunho.
O retorno da expedição, em 1937, à Alemanha, aconte com a precipitação do início da Guerra – guerra civil na Espanha, anexação da Áustria e invasão da Polônia. Não custa informar que o nazismo tinha simpatizantes não só nas nossas forças armadas – Eurico Dutra, ministro da Guerra e futuro Presidente da República, Góis Monteiro, também ministro da Guerra, Filinto Muller, de triste memória, no capítulo da censura e prática de torturas e tantos outros. Esse mesmo Filinto Muller, mais tarde, serviria ao Governo militar, 1964/1985, na condição de Senador pela Arena. E prestou, novamente, excelentes serviços; é verdade que na contramão da democracia.
Essa expedição, vamos supor, caso tivesse sua presença vazada, à época, na imprensa brasileira, contaria com bons padrinhos e defensores, certamente.
Havia também intelectuais e religiosos ilustres, robustos, como se diria hoje, simpatizantes com o 3º Reich; Dom Helder Câmera, San Tiago Dantas, Augusto Frederico Schmidt, Adonias Filho, Câmara Cascudo, José Lins do Rego, Miguel Reale e tantos outros.
Até o querido Vinícius de Morais, que tive privilégio de ser amigo, confessava ter sido picado pelo integralismo brasileiro, naqueles anos de turbulências e incertezas. Nada nos jovens é ridículo; quase nada deixa de sê-lo nos homens maduros.
E vai agora mais uma curiosidade; se essa expedição, desconhecida durante quase um século já causa espécie, não custa lembrar que 30 anos após a permanência da turma do Hitler, no mesmo local, no mesmo rio – Jari – e na mesma foz do Amazonas, o Governo militar, saído do Golpe de 1964, cede essa região ao milionário norte-americano Daniel Keith Ludwig.
Esse visionário vai investir na produção de arroz, celulose, criação de búfalos e bauxita. Levando-se em conta que o grande desafio do século 21 é a produção de alimentos e energia, o tempo conspirou em favor de suas ousadias, até porqie ele tinha 80 anos quando iniciou o Projeto.
É criado, portanto, o polêmico e famoso projeto Jari. Ludwig foi levado à presença de Castelo Branco, nos idos de l967, pelas mãos de Roberto Campos, e seu projeto produziu uma imensa polêmica nacional envolvendo forças armadas, intelectuais, comunistas e nacionalistas. Dizia-se, o Brasil está entregando a Amazônia ao capital estrangeiro. O nacionalismo sempre foi paranóico, heróico e ridículo.
Há quem diga hoje que o projeto, a quem o Governo militar, na ocasião, garantiu proteção absoluta - a república sindicalista de Jango pairava à cabeça do grande capital - trouxe mais tarde, em razão do Jari, segurança aos que queriam investir vindos de fora, e vai determinar a consolidação do capitalismo brasileiro atual.
Diante de todo esse histórico, podemos até dizer, ampliando no possível as teorias conspiratórias, que ali, nas margens do vale do Jari, foz do Amazonas, tem coisa. E, no entanto, as imagens desse vídeo, são estonteantes, inéditas e, nos perguntamos; porque só agora soubemos delas?
Edilson Martins – documentaris, jornalista e escritor
OBs – Desde o dia 19, às 23hs – Brasília - estreou uma Série “AmazôniAdentro”, 4 capítulos, na TV Brasil. A série foi dirigida por Edilson Martins

