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“Eu sou imortal, darling!”

Por Raimundo Holanda

Quase implorei essa entrevista com a Mazé Mourão, a nova imortal da Academia Amazonense de Letras. No começo das perguntas que lhe enviei por e-mail, anexei um acanhado pedido: “por favor, responda do seu modo, meio chique, meio brega, mas com esse jeito bonito de quem conhece o mundo e as pessoas". E Mazé não passou por cima de nenhum questionamento, mesmo quando invadi sua privacidade ao perguntar sobre o marido, do qual se separou e sobre a relação de amor e ódio que mantém com os colegas de redação. O leitor, com essa entrevista,vai conhecer  melhor a jornalista, a escritora, a nova imortal. Para quem dela ouviu falar ou leu suas crônicas, que são quase uma chicotada na velha hipocrisia cabocla, vai se surpreender ao saber que ela também tem seus medos, às vezes da vida, às vezes do escuro , outras vezes de simples baratas...
 

Blog do Holanda -  Você pensou que algum dia essa palavra imortal entraria definitivamente no seu vocabulário?

Mazé Mourão - Sim, sempre pensei em ser imortal. Era um dos meus objetivos de vida. Agora, busco um novo desafio. É da minha natureza e do meu signo, sou ariana, de ponta cabeça.

BH - Para se tornar imortal é preciso ter livros publicados. Você tem três. Um de crônicas e os outros, tratam de que temas?

Mazé - Não necessariamente, segundo soube, para ser acadêmico no Amazonas não precisa ter livros publicados, mas ter, também prestado relevantes serviços ao Estado. Porém, no meu caso, tenho dois livros de crônicas, o primeiro lançado no Rio de Janeiro com escritos feitos no jornal Amazonas em Tempo, onde mantinha um espaço aos domingos; o de crônicas lançado em 2008 com trabalhos publicados em A CRITICA e o “Boa Mesa por Mazé Mourão”, em 2006, estouro de vendagem ultrapassando a marca de 100%, para o jornal.

BH - Você ainda morava no Rio de Janeiro quando começou a escrever uma coluna no Jornal da Família no jornal A Crítica. Como se dava esse processo? Quem editava o caderno e como era esse relacionamento entre Manaus e Rio?

Mazé - Sim, fui convidada pelo diretor de redação Sebastião Reis, por minha maneira irreverente de escrever (ele conhecia o meu trabalho no Em Tempo). O processo era um pouco diferente, pois mandava a coluna por correio, logo em seguida, com a modernidade, veio a Internet e tudo ficou muito tranquilo. Minha editora foi Chica do Valle.

BH -  Depois você largou o Rio e veio de malas e cuias para Manaus. Aqui continuou fazendo a coluna e só mais tarde passou a editar o caderno Bem Viver. Como foi esse período? Sei que você enfrentou dificuldades de toda ordem e que seus relacionamentos na redação, ainda como acontece hoje, é de amor e ódio. Qual a razão disso?

Mazé - Não larguei tudo no Rio, continuo com apartamento, filho, amigos e boas lembranças cariocas, portanto... Além do mais, darling, sou amazonense perrexé, cabocla que sentia saudade de tacacá, tucumã e do cheiro da minha terra. Então, filhos criados, todos na mais perfeita ordem, resolvi aceitar o convite de A Crítica para residir em Manaus e ser editora dos Cadernos Especiais. Dificuldades? De toda ordem, mas como é da minha índole, enfrentei tudo de cabeça erguida e vamos que vamos.

BH -  Finalmente você passou para as crônicas. Aí foi que o bicho pegou não é mesmo? Aquela sensação de ser amada e odiada ao mesmo tempo estendeu-se por toda Manaus e até mesmo em Parintins, onde você é conhecida por seu humor nas coberturas bovinas. Como você lida com essa situação?

Mazé - Passei para as crônicas depois que fui convidada a assumir a editoria do Bem Viver. Foi uma negociação normal. Já ia para Parintins ainda morando no Rio de Janeiro. Portanto, nada se deu drasticamente, entende? Nutro por Parintins e pelos bois um amor imenso, adoro a Ilha Tupinambarana e isso nunca vai mudar na minha vida.

BH -  Esse amor e ódio são  tão verdadeiros que se de um lado você recebe a maior homenagem que alguém pode ter como escritor, de outra você já foi até mesmoagredida e foi parar nas páginas policiais. Como isso aconteceu?

Mazé - Agressão insana que comigo, meu querido, o buraco foi mais embaixo. Não tenho rabo e nem pulso presos, não devo favores, tudo que faço é comunicado ao Jornal, então, o agressor tinha que parar com seus ataques e, para isso, fui à polícia, para preservar a minha integridade física e da minha família. O jornal A Crítica deu-me total apoio e pronto. Quanto à homenagem, é algo que não dá para envolver com baixaria, sabe como?

BH - Nesses anos em A Crítica você foi de colunista de moda a conselheira sexual, passeia entre o brega e o chique e usa, às vezes, uma linguagem que muitos consideram chula ou inapropriada. Além disso, recebe críticas dos próprios colegas (seja abertamente ou nos bastidores) por causa de erros de português. Alguns chegaram a ponto de mandar você verificar no dicionário como se escrevia tal palavra e o seu significado. O que tudo isso representa para você e como você lida com essas coisas? Isso te irrita, te chateia, ou você não dá a mínima?

Mazé - Olha só, quem fala de mim na minha ausência, respeita a minha presença! Abertamente, meu caro, nenhum deles, colegas de redação, fala pela frente, até porque coleciono erros de português e de concordância dessa turma a balde, ok, basta ler atentamente... Escrever diariamente é lidar com fechamento, com a pressa, com telefonemas, com as conversas paralelas, enfim, assim é o trabalho numa redação, às vezes “escapole” e como jornal não tem borracha, é pensar que no fim da tarde o periódico já está embrulhando peixe, fazer cara de paisagem, se chicotear várias vezes e começar um novo dia.

BH
-  Vamos agora para a Mazé Mourão esposa e mãe. Quem é ela? Você já foi casada, tem três filhos (é isso?), um dos quais é um dos mais famosos bailarinos em Nova York. Como foi o casamento e porque terminou? Algum arrependimento ou ressentimento? Além dos filhos, o que sobrou desse relacionamento de quantos anos mesmo?

Mazé - Tenho três belos e educados filhos, isso é um ótimo saldo de 33 anos de casada, certo? Sempre disse que nunca ia me separar, mas um dia a validade venceu e como não sou de estar “mais ou menos casada” apenas por aparência, terminei, assim, na bucha.

BH - A mãe de Marcelo Mourão Gomes. Com certeza você deve se orgulhar muito, mas deixa transparecer que não se ufana por causa disso. É isso mesmo?

Mazé - Sinceramente? Não sofro de uma doença chamada modéstia, querido! Ele não é só o melhor do mundo, atualmente, como consta entre os 100 brasileiros mais influentes de Nova York, tampou? Porém, existem (uma pacoteira, pode crer) amazonenses quem não gostam que filho da terra brilhe lá fora, fazer o quê? Pelo Marcelo, pela Alessandra e pelo Haroldinho o meu ego vai bater lá na mão de São Pedro!

BH
-  Mazé separada: Como você lidou com o processo de separação. Dizem as más línguas que você deixou seu marido porque ele estaria com câncer. Isso é verdade (quero dizer, o câncer)?

Mazé
- Separei, como já disse, porque a validade do casamento estava vencida. Ele que não quis vir morar em Manaus, apesar de ter dado “a maior força” para que isso acontecesse comigo, ou seja, ele ficava lá, com status de solteiro e eu aqui, casada, vigiada e com o mundo falando para ele o que eu estava fazendo, ora bolas! Quem vive de imagem é espelho, amigo. Quanto ao câncer, pelo que soube, está curado, porém a doença surgiu depois que estávamos separados há tempos e ele com nova família.

BH -   Mazé fica com... Os conselhos matrimoniais e sexuais que você dá para suas leitores são a sua cara. Então, Mazé, como é que é essa satisfação com o ficar com alguém? E agora, você está ficando ou está rolando algo mais sério. Quem é o felizardo?

Mazé
- Adoroooo! Os conselhos matrimoniais e sexuais são baseados na minha vida, darling! E sou adepta de que, enquanto não aparece o par certo, vou me divertindo com o errado. Porém, atualmente estou apaixonada, casadíssima e super feliz. É o par certo? Claro, como diz Vinícius de Moraes “que seja eterno enquanto dure!”

BH
-  Mazé liberal e liberada. Em algum momento da vida você participou de movimentos feministas ou essa mulher liberal e liberada faz parte de sua própria personalidade? Ela tem algum componente genético (pai ou mãe) ou foi adquirida no batente da vida?

Mazé - Odeioooo movimentos feministas, levantar bandeira de “Avante, companheiras!”, mas não condeno, de jeito nenhum quem assim procede ou gosta, aí está a minha porção liberal e liberada, sabe como? Minha mãe era uma mulher inteligente e avant para o seu tempo, procuro seguir os seus ensinamentos! Além do batente da vida, que aprendo todo dia, mas não me emendo...

BH
- A cronista: Em suas crônicas você não perdoa, mata. É o tal do doa a quem doer. Do presidente ao governador, muita gente já recebeu uma dose do seu humor crítico. Ninguém escapa ou existem algumas exceções? Quem você não criticaria de jeito nenhum e por que?

Mazé
- Adorooo perder o amigo, mas não perco a crônica. Então, está todo mundo no bolo, critico, sim, se der na veneta, doa a quem doer, sem medo de ser feliz! Foi esta minha irreverência e sinceridade com os assuntos públicos que me colocaram nos braços do meu querido e assíduo leitor.

BH -  Corre solto na cidade (nos blogs, tuiters etc) que o seu espaço em A Crítica é usado para meter o pau em quem a direção do jornal gostaria de meter, mas não pode abrir a guarda. É verdade isso? Em algum momento você fez uma crõnica a pedido da direção? Sei (e você mesmo confessa) que já escreveu em nome de colegas que não poderiam opinar sobre certos assuntos. Está correto?

Mazé
- Meu espaço é democrático, meu bem. Toda e qualquer sugestão eu acato, seja do leitor, do diretor ou do colega, contudo, coloco em prática ou não, vai da minha vontade, entende? Os meus colegas sugerem porque eles não fazem crônica, fazem matéria e, como se sabe, não podem emitir opinião, passam para mim e eu faço o gol e, sem nenhuma modéstia, às vezes gol de placa!!!

BH - Agora que você é imortal, você tem medo de que, do que ou de alguém?

Mazé  - Tenho medo de escuro, de barata, de morcego, mas de gente viva e maldosa não tenho medo não! Pode vir quente que estou fervendo!

BH - Ser chamada de imortal provoca que sentimentos em você?

Mazé - Não caiu a ficha, totalmente, sabia? Estou meio anestesiada de felicidade, mas como disse a minha querida mestra Ivânia Vieira “curta esta boa anestesia de emoção por essa sua grande conquista”. Como sou de seguir conselhos, estou curtindo a beça (fazendo alusão à cadeira que assumi que era do queridíssimo amigo Anibal Beça)!

BH - Bem lá no fundo da alma, você pensava em se tornar membro de uma instituição que representa a intelectualidade?

Mazé - Claro que sim, lá no fundo, lá no meio e lá na frente da alma, por que não? Eu me preparei para isso, como disse no início da entrevista, amigo!

BH - No Twitter apareceram algumas críticas sobre a escolha do seu nome para a Academia. Teve internauta amazonense afirmando desconhecer que você tivesse escrito algum livro. Fica aborrecida com esse tipo de
questionamento?

Mazé - Respondo aos desavisados e invejosos com uma única frase: “Eu sou imortal, darling!”

BH - Você acha que sua rotina vai mudar muito a partir de agora?

Mazé - A posse será ano que vem. Depois é que vou pensar se vai mudar ou não a minha rotina.

BH - O que você espera da convivência com os outros imortais?

Mazé - Aprender e aprender.

     

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