Em depoimento, Pazuello contradiz versão sobre falta de oxigênio em Manaus

Por Portal do Holanda

27/02/2021 14h32 — em Amazonas

Ministro afirmou que só foi alertado sobre a falta do insumo no dia 10 de janeiro. Foto: Reprodução

Em depoimento à Polícia Federal no dia 4 de fevereiro, em Brasília, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, mudou sua versão inicial sobre quando ficou sabendo do risco de colapso na crise da saúde em Manaus. O inquérito sigiloso do Supremo Tribunal Federal (STF) apura se Pazuello foi omisso nas ações de combate à pandemia em Manaus.

No depoimento, obtido pelo jornal "O Estado de S. Paulo" e acessado pelo Grupo Globo, o ministro afirma que não foi informado sobre a falta de oxigênio em Manaus no dia 8 de janeiro, e sim dois dias depois.

A informação contradiz um documento oficial entregue pela Advocacia-Geral da União (AGU) ao STF, assinado pelo advogado geral, José Levi. Ele afirmou que o Ministério da Saúde ficou sabendo da falta de oxigênio em Manaus, no dia 8, pela empresa White Martins, fabricante do produto.

No depoimento, Pazuello afirma que só no domingo, dia 10 de janeiro, às 21h, realizou uma reunião com o governador do estado do Amazonas. E nessa oportunidade foi relatado um problema de abastecimento de oxigênio no estado. E que no dia 11 convocou uma reunião com todos os secretários municipais de saúde do Amazonas e o secretário estadual para entender a abrangência da falta de oxigênio e demais dificuldades no atendimento à saúde.

Ao ser indagado sobre o documento, enviado pela empresa White Martins notificando a respeito da possível insuficiência no fornecimento de oxigênio, Pazuello respondeu que o documento nunca foi entregue oficialmente ao Ministério da Saúde , e que empresa nunca realizou contatos informais com representantes do ministério.

Porém, em entrevista coletiva no dia 18 de janeiro, o ministro disse que foi avisado pela empresa no dia 8 de janeiro.

"Essa missão voltou no dia 6 com esses dados. 6 de janeiro. No dia 8 de janeiro, nós tivemos a compreensão a partir de uma carta da White Martins de que poderia haver falta de oxigênio, se não houvesse ações pra que a gente mitigasse esse problema", afirmou Pazuello na ocasião.

"Nós só soubemos dia 8 de janeiro. Quando chegamos lá, dia 4, o problema não era oxigênio", acrescentou o ministro.

No documento da AGU entregue ao STF, o ministro José Levi diz que o Ministério da Saúde soube da crítica situação de esvaziamento de estoque de oxigênio em Manaus em 8 de janeiro, por meio de e-mail da fabricante do produto.

Em outro documento enviado pelo próprio ministro da Saúde ao procurador-geral da República, e que serviu de base para o pedido de abertura do inquérito, o procurador-geral da República, Augusto Aras, relata que a falta de oxigênio chegou ao conhecimento do Ministério da Saúde no dia 8 de janeiro.

"No relatório parcial de ações – 6 a 16 de janeiro de 2021 (fls. 9/11), datado de 17/1/2021 também subscrito pelo representado consta que foi detectado, ainda, logo no início do período, a gravíssima situação dos estoques de oxigênio hospitalar em Manaus, em quantidade absolutamente insuficiente para o atendimento da demanda crescente. Tal problema chegou ao conhecimento do ministério no dia 8 de janeiro, por meio de um e-mail enviado por Petrônio Bastos, da White Martins (fabricante do produto)", escreveu o procurador.

No depoimento à PF, quando foi perguntado sobre o relatório do ministério que cita o e-mail da White Martins, Pazuello disse que houve um "equívoco" de um servidor da Saúde que passou informações para a AGU.

O ministro também relatou que a partir do dia 12 de janeiro mudou a estratégia para o fornecimento de oxigênio para o Amazonas, com a requisição e transporte de usinas geradoras do produto para que o oxigênio da White Martins, principal fornecedora, ficasse como uma reserva. Falou também do transporte de pacientes do Amazonas para outros estados.

Agora, os investigadores buscam novas informações sobre se a suposta omissão do ministro Eduardo Pazuello contribuiu para o colapso da rede de saúde no Amazonas. A Polícia Federal está ouvindo autoridades locais, funcionários do Ministério da Saúde e de empresas fornecedoras de insumos.

Em nota, o Ministério da Saúde informou que "Eduardo Pazuello teve conhecimento do colapso de oxigênio apenas no dia 11 de janeiro".

"No dia 8 de janeiro, o ministro recebeu uma ligação do secretário estadual de saúde do Amazonas solicitando apoio no transporte de cilindros de oxigênio, sem mencionar nenhum colapso", continuou o ministério.

Também em nota, a White Martins disse que sinalizou o risco de falta de oxigênio para o governo de Manaus na primeira semana de janeiro. A empresa afirma que também avisou os hospitais e que foi chamada para uma reunião com Pazuello no dia 11.

"No dia 10/01, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, convidou os representantes da White Martins, por meio do comitê estadual, para uma reunião em Manaus, na manhã do dia 11/01, para tratar do tema", informou a empresa.

Pazuello foi perguntado sobre um aplicativo feito pelo ministério e que orientava sobre o uso da hidroxicloroquina como tratamento precoce da Covid-19. O ministro afirmou que o ministério não tem protocolo para uso de qualquer medicamento, incluída a hidroxicloroquina.

Sobre o aplicativo Tratecov, Pazuello dise que ficou ativo dois dias, e foi retirado do ar pela falha de indicar o uso da hidroxicloroquina. Ele reconheceu que o aplicativo era apenas para médicos, mas estava aberto a qualquer pessoa.

 


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