Por Ana Celia Ossame, especial para Portal do Holanda
O Dia Mundial da Água, comemorado hoje (21) foi marcado, nesta manhã, por um movimento denominado Romaria das Águas, que levou representantes do Fórum das Águas do Amazonas ao Encontro das Águas do Rio Negro e Solimões, para um ato de defesa pela proteção a esse bem essencial para a vida e para o ecossistema na Terra e protesto contra as ameaças a esse patrimônio natural da capital amazonense.
Desde 1992, a Organização da Nações Unidas (ONU) estabeleceu a comemoração neste dia 21 de março e, desde 1993, é comemorado com atos em diversos países nesta data. O Fórum é composto por mais de 50 entidades e organizações não-governamentais de Manaus e do Estado.
Vários barcos saíram do Porto do Ceasa em direção ao mundialmente conhecimento Encontro das Águas visando chamar a atenção para a importância de se cuidar melhor da água, que é o bem maior do ser humano, para que se cuide dos esgotos que hoje são lançados direto nos igarapés sem tratamento, disse o padre Sandoval Alves Rocha, membro do Serviço Amazônico de Ação, Reflexão e Educação Socioambiental (Sares), em Manaus e integrante do Fórum das Águas do Amazonas, uma organização criada em 2012 com o objetivo de discutir o direito humano pela água.
Para ele, é lamentável ver que a água potável tenha se transformada em objeto de lucro para beneficiar a empresa de saneamento, perdendo o seu status de direito humano, sendo disponibilizada somente para quem pode pagar, gerando uma multidão de excluídos (mulheres, indígenas, jovens, negros e pobres), com o apoio dos poderes públicos. E as ameaças que se renovam à manutenção do Encontro das Águas, por isso a iniciativa de fazer a manifestação naquele local.
O fórum destacou ainda outros problemas relacionados à água. “A cidade é identificada como uma das piores em saneamento básico, nunca saímos dessas posições inferiores nesse aspecto, segundo pesquisas como do Trata Brasil”, explica o religioso, destacando que o Encontro das Águas é constantemente ameaçado por projetos que favorecem ao desenvolvimento predatório e agressor, sem beneficiar as populações ribeirinhas e prejudicando a biodiversidade, o equilíbrio ecossistêmico, o valor paisagístico e um valioso conjunto arqueológico presente na região.
“O esgotamento sanitário em Manaus, submetido à ideologia da privatização, é apenas uma falácia no discurso da concessão privada, que engana a população há quase três décadas”, afirmou.
Para a bióloga Elisa Wandelli, membro da organização não-governamental “SOS Encontro das Águas”, este Dia Mundial das Águas é um convite à reflexão pela necessidade de preservar e proteger esse bem maior que é a água.
Na manifestação, que além de discursos, teve cantos e leitura de poesias, o líder do movimento Todos pelo Gigante, um igarapé que corta as zonas Norte e Oeste cidade, Gilberto Ribeiro, integrante também do movimento SOS Encontro das Águas, foi outro a se manifestar pela importância do cuidado com o destino dos esgotos e lixos em Manaus.
“Queremos dar visibilidade ao Igarapé do Gigante, que tem sete quilômetros de extensão e 22 pequenas nascentes, nasce na área do Aeroporto Internacional Eduardo Gomes, passa pelos bairros Redenção, Planalto e desemboca na Marina do Davi e precisa ser cuidado para que possa voltar a viver”, afirma Gilberto, explicando que o leito desse rio recebe toda a sorte de dejetos tanto líquidos quanto sólidos.
“Há cinco anos estamos atuando no Igarapé do Gigante, para que as autoridades despertem para a necessidade de ações concretas para proteção desse bem tão importante para a vida”, explicou.
“É pelos igarapés, os rios, as bacias e as vidas que neles e em seu redor habitam, e pelas vítimas humanas que acontece a Romaria das Águas”, afirmou a professora Ivânia Vieira, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e também uma das integrantes do Fórum das Águas de Manaus.
Ao reivindicar políticas públicas inovadoras, capazes de criar as circunstâncias necessárias ao enfrentamento das consequências da mudança climática, a professora lembrou que a escassez de água se tornou endêmica, com mais de 2 bilhões de pessoas no mundo sem acesso à água em condições de consumo, conforme alerta a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

