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Cientista do Inpa pede reação da sociedade contra novo decreto que legaliza garimpo

Cientista do Inpa pede reação da sociedade contra novo decreto que legaliza garimpo
Cientista do Inpa pede reação da sociedade contra novo decreto que legaliza garimpo

 
Manaus/AM - O decreto editado na segunda-feira (14), pelo presidente Jair Bolsonaro criando o Programa de Apoio ao Desenvolvimento da Mineração Artesanal e em Pequena Escala (Pró-Mapa), é mais um ato que vai prejudicar o meio ambiente e afetar a saúde de toda população.

O alerta vem do cientista Philip Fearnside, PhD em Ciências Biológicas e pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em entrevista ao Portal do Holanda. Para ele, a legalização do garimpo vai trazer enormes impactos não só no local onde houver a atividade, mas em todo elo da cadeia alimentar que vai terminar na mesa dos consumidores de peixes, por exemplo.

De acordo com o cientista, é preciso haver uma reação da sociedade, pois já existe muita atividade garimpeira ilegal em terras indígenas, contaminando os rios com o mercúrio. O novo decreto só vai estimular a ação dos garimpeiros, que agem sem medo da fiscalização e sem qualquer cuidado com o meio-ambiente e até mesmo com a própria saúde, observa.

Segundo Philip, o decreto atual facilitará ainda mais a chamada “lavagem do ouro” extraído das terras indígenas. Licenças aprovadas para cooperativas de garimpeiros em locais fora das terras indígenas atualmente servem como fachadas para exportar o ouro dessas terras através da autodeclaração da origem em uma lavra autorizada.

Philip garante que, com o novo decreto, haverá um aumento da presença dos garimpeiros, tanto dentro como fora das terras indígenas. Isto aumentaria ainda mais o uso do mercúrio que vai contaminar a água, os peixes, e os seres humanos.

Os riscos disso estão em exemplos como a cidade japonesa de Minamata, visitada por ele em 1990. Contaminada por dejetos de mercúrio por décadas, a doença que levou o nome da cidade, foi identificada primeiramente nos pássaros, que perdiam a coordenação motora, voavam de forma descontrolada e caíam no solo, assim como os gatos que corriam em círculos e espumavam pela boca.

Depois, a doença afetou pessoas, mais especificamente as famílias de pescadores, pois essas faziam grande consumo de peixes e moluscos provenientes da Baía de Minamata, que estavam contaminados.

Só 10 anos depois dos primeiros casos, a doença foi determinada como uma síndrome neurológica causada por envenenamento por mercúrio. Os sintomas iniciais eram sutis: fadiga, irritabilidade, dores de cabeça, falta de sensibilidade nos braços e nas pernas e dificuldade de deglutição, enquanto os mais graves envolviam distúrbios sensoriais nas mãos e pés, danos à visão e audição, fraqueza e, em casos extremos, paralisia e morte. Além de problemas nos nascituros.  Na época, milhares de pessoas daquela região ficaram com sequelas permanentes e outras tantas morreram aproximadamente 20.000 (vinte mil) pessoas se declararam afetadas.

REVOGAÇÃO

Philip observa que a contaminação de mercúrio já é um problema sério na Amazônia, que vai se agravar com a entrada em vigor do novo decreto. Por isso, ele espera que representantes da sociedade reajam e, a exemplo de outras tentativas do Governo Federal de legalizar a garimpagem sem controle, busquem revogá-lo.

O corpo humano não tem como eliminar o mercúrio, que causa sequelas graves.   “É preciso entender que todos seremos prejudicados, não somente o garimpeiro, mas todos os consumidores”, advertiu o pesquisador, citando o exemplo de Autazes, quando em novembro do ano passado, teve o Rio Madeira invadido por centenas de garimpeiros que usaram mercúrio e deixaram o rio contaminado.

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