Ele é um político que acorda cedo, lê bastante para estar sempre atualizado, trabalha muito, está sempre em movimento para atender a compromissos políticos e pessoais, e garante que está na vida política não para se tornar um dos homens mais ricos do Amazonas. Atualmente, lidera uma frente de combate que ele diz ser contra o projeto político da presidente Dilma, mas na realidade aponta sempre para o senador Eduardo Braga, de cujo governo já foi um dos “meninos de ouro”. Com um partido próprio, o PMN, o deputado Marco Antonio Chico Preto se coloca como virtual candidato à sucessão do governador Omar Aziz, com a convicção de que é preciso construir um cenário novo, “primeiro, pela crença de que o Braga não é a única pessoa capacitada neste Estado”. Segundo, porque tem a convicção “que o Eduardo, o Braga, não seria hoje a melhor opção pro Amazonas”. O ex-amigo rebelde Chico Preto fala ao Portal do Holanda sobre a construção de uma política sem “grandes obras nem grandes escândalos” e, principalmente, sem Braga.
Portal do Holanda – O senhor está trabalhando para formar um grupo de oposição que tenha uma candidatura própria nas eleições de 2014. Contra quem irá atuar esse grupo?
Chico Preto - Esse é um processo de muita paciência, muita construção. Neste momento é natural que a gente esteja dialogando com aqueles que têm algo em comum. O quê que é o algo em comum? São os partidos que não vão se aliar ao projeto da Dilma. O PMN está dentro desse conjunto. Estamos conversando e dividindo expectativas, procurando saber o que pretende cada um. O objetivo é tentar montar um time capaz de fazer um confronto. Porque ainda não sabe quantos candidatos a Dilma vai ter no Amazonas, mas um eu sei que ela vai ter. É o senador Braga. A Dilma vai ter esse candidato aqui.Outra coisa comum, entre esses partidos, é também dizer que não é só o Braga a única pessoa capacitada, como candidato ao governo, a tomar decisões . Não é o mais capaz, talvez ele tenha o maior número de informações. Aliás, informações, ou você busca em algum lugar, num arquivo de computador, num relatório, ou você busca pessoas que tenham essas informações. Então, eu tenho a convicção de que é preciso construir um cenário novo.
Portal – O que o senhor acha da provável candidatura de José Melo, uma vez que ele deve assumir o governo em abril. Seria um projeto dele ou da Dilma?
Chico – Olha, é uma eleição que depende do cenário federal, o partido que está alinhado a um projeto que não é o projeto da Dilma, você não pode caminhar nos estados com aquele projeto. Então, isso depende muito daquilo que vai acontecer em nível federal. Eu não tenho, pessoalmente, nada contra o professor Melo. Se você me perguntar: é legítimo? Eu acho que é uma coisa tão lógica ele assumir o governo e buscar a sua reeleição. Isso é um fenômeno que já foi visto. E eu penso que isso acontecendo, para o processo de discussão não é ruim, não.
Portal – O senhor já esteve muito próximo do senador Eduardo Braga no início da carreira e depois houve o afastamento. Agora parece que está havendo uma distensão. O que realmente aconteceu para chegar a esse ponto?
Chico – Os homens se aproximam em determinados momentos pelo conjunto de ideias. Quando você tem a oportunidade de tornar essas ideias reais, os homens ou se aproximam mais ainda porque essas ideias se tornaram reais, ou os homens se distanciam porque essas ideias não saíram do papel. O que aproxima ou distancia pessoas são as atitudes. As atitudes e tudo aquilo que aconteceu dentro do governo do senador Braga foram motivos, pra mim e pra outros, suficientes pra que pudéssemos ver que não era bem aquilo que ele dizia. Como aquela máxima: se você quer conhecer o homem, no exercício do poder você conhece o verdadeiro homem.
Portal – O senhor considera que o senador é o candidato mais forte e mais preparado para governar o Amazonas?
Chico – Eu tenho a convicção que o Eduardo, o Braga não seria hoje a melhor opção pro Estado. Porque foram dois governos, dois períodos, onde a lógica instalada sempre foram as grandes obras, os grandes negócios, sempre travestidos de uma solução popular indispensável. Mas há um débito social com o Estado muito grande. O Amazonas se ressente de políticas sociais, como por exemplo, a questão do combate às drogas, que hoje abate, de cada dez, pelo menos quatro famílias. O Estado está desprovido de um pacto, de uma organização, de um conjunto de procedimentos que precisam ser puxados pelo governo, mas que não são só de responsabilidade do governo. O enfrentamento às drogas eu acho que é um assunto maior, de estado, ou seja, de governo e sociedade. O Braga não viu essas questões.
Portal – O senhor quer dizer que as obras ofuscaram as demandas sociais?
Chico – As obras foram cenário pra grandes negócios, na minha opinião. De grandes negócios e grandes escândalos. Estão aí as obras do Alto Solimões, que viraram páginas tristes na história do Amazonas. Então, ainda que eu reconheça que o Braga é um adversário difícil de ser enfrentado, mas veja, ele não é a pessoa hoje mais capaz.
Portal – O senhor passou por esse governo sem se contaminar?
Chico – Eu vou responder de maneira bem objetiva. Eu não me contaminei por aquilo que eu não queria me contaminar no governo do Eduardo. Eu sou um cidadão como a maioria esmagadora dos brasileiros. Eu acordo cedo, trabalho muito, leio, o deputado precisa ler para conhecer as coisas e confrontar a realidade com aquilo que o papel está mostrando, eu saio muito do gabinete, vou aos bairros de Manaus, ao interior. Eu tenho uma vida normal, como a maioria das pessoas.
Portal – Pelo tom do seu discurso quer dizer que politicamente não haveria hoje condição de uma reaproximação?
Não, não há. São caminhos políticos bem distintos. E já tem algum tempo. Isso não é um distanciamento de véspera de eleição.
Portal – O PMN já esteve na liderança do governador Omar Aziz, que se elegeu pelo partido. Agora, houve um acordo para o senhor assumir o partido e combater o senador Eduardo Braga nesta eleição?
Chico – Veja bem. Confrontar as ideias do candidato Eduardo Braga para mim é um processo de confrontar mostrando outro caminho, não confrontar porque é o Braga. Não é esse o caminho que penso pro Amazonas. O caminho que ele escreveu é o caminho de obras, de escândalos. Então, a comparação ela vai ser inevitável. Mas o movimento que por nós foi feito indo para o PMN, é o movimento de quem vem cumprindo um processo de amadurecimento na política e na vida. Não foi arquitetado pelo Omar, foi algo natural de quem disse ao governador que entende que partidos precisam ocupar espaços e que eu quero ter essa oportunidade.

Portal – Nesse processo, o PMN, PSD e PROS poderiam caminhar juntos?
Chico – Veja. O PMN não vai caminhar no palanque da Dilma. Isso aí, por certo, vai ser uma decisão nacional. O PMN tem afinidade com outros palanques. Próximo ao Aécio, simpatia pelo Eduardo Campos, mas tem restrições à Dilma. Como eu disse, é uma eleição nacional, e aquilo que se decide em nível nacional é o que repercute nos estados.
Portal – Numa composição com as oposições, existe a possibilidade de o senhor se candidatar a deputado federal, por exemplo?
Chico – Não é o que me move hoje. O que me move, verdadeiramente, e eu tenho dito isso de forma muita clara, é o desejo de debater o Amazonas, de defender providências para o enfrentamento do débito social, como a questão das drogas. Não acredito que sozinho o Estado possa fazer tudo. Você tem de construir um pacto social. É preciso começar a gestar esse movimento pra reagir a uma situação que tem abatido o futuro do Amazonas.
Portal – É lenda ou verdade que o Eduardo foi um grande gestor? Porque hoje se sabe que ele tinha por trás uma equipe muito boa que executava as ações de governo, entre eles o próprio José Melo. O senhor que estava bem próximo dele, pode desmistificar isso?
Chico – Ninguém é um grande gestor sem uma grande equipe. Pessoas tocaram esses governos ao longo de anos. O Braga, pelo tempo de vida política e por onde passou, tem um arsenal maior de informações, tem informações que eu não tenho. Mas ele não tem mais determinação, mais compromisso, mais capacidade de gestão do que eu.
Portal – É lenda ou verdade que ele acordava tarde e de mau humor?
Chico – Eu não tenho esse biorritmo de acordar tarde. Porque o mundo da maioria das pessoas acorda às seis horas da manhã. Então, eu permaneço nesse mundo da maioria das pessoas. Das pessoas que passaram pela política e não se tornaram os homens mais ricos do Amazonas. Eu estou na política e continuo não tendo jatinho, helicóptero...
Portal - Quer dizer que na hora de dormir ele dorme mais?
Chico – Olha, eu durmo menos. Eu durmo menos.
Portal – Mudando o rumo da conversa. Na sua primeira eleição para deputado, o senhor obteve 22.909 votos, mas não conseguiu chegar à Assembleia, por causa do quociente eleitoral. Qual a sua opinião a respeito da legislação eleitoral atual?
Chico – Uma boa discussão essa. Olha, no conceito popular a representação tem a ver com a quantidade de votos. A maioria das pessoas comumente acredita que quem vai lhe representar é quem tem o maior número dos votos. No modelo brasileiro, como o voto não pertence às pessoas, o voto e o mandato pertencem ao partido, não se elegem aqueles que necessariamente têm o maior número de votos. Elegem-se aqueles cujos partidos ou coligações obtiveram o número de votos para conseguir uma ou mais vagas.
Portal – Então o senhor acha que a legislação é antipopular?
Chico – Não seria bem isso. Se de um lado eu vejo razão no que a população entende, por outro, há um risco explícito, já que a eleição para a representação popular está ligada umbilicalmente ao parlamento, ali é que existe a representação popular, de você não ter todos os segmentos da sociedade representados.
Portal – Especifique melhor, deputado.
Chico – Uma eleição para o legislativo não se faz sem recursos. E numa eleição sem proporcionalidade é mais provável que só se elejam aqueles que têm maior número de apoiadores. O voto direto corre o risco de promover a exclusão de segmentos do pensamento que não dispõem de recursos para conquistar uma eleição. O sistema proporcional permite que pessoas que não obtiveram um bom número de votos, mas tem boas propostas e bons pensamentos, temperem um pouco o parlamento.



