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Amazonas vai exportar bacalhau para a Europa e África

"Nós vamos processar qualquer peixe naquela região. Bacalhau, só vamos produzir de pirarucu.  Mas vamos fazer peixe seco para vender para qualquer pessoa, para a merenda escolar, etc. E vamos fazer conserva de peixe de baixo valor agregado.Por exemplo: cubiu, sardinha, jaraqui, que têm valor agregado, nós vamos transformar em conserva em toneis, para importar, inclusive, para a África.  Já estamos com tudo isso negociado."  

 

 

Secretário de Produção Rural Eron Bezerra garante que o Bacalhau da Amazônia, produzido com a carne de pirarucu numa fábrica de Maraã, é processado com “a mais refinada técnica industrial”. A indústria de Maraã, no Alto Solimões, tem capacidade de processar 1.500 toneladas de pirarucu, por ano, sendo que a partir de 30 toneladas já se torna autossuficiente. Nesta entrevista exclusiva ao Portal do Holanda, Eron anuncia para o mês de agosto a inauguração de uma segunda indústria, dessa vez em Fonte Boa, com o dobro da capacidade de Maraã e onde, além do processamento do bacalhau de pirarucu, outros peixes, de baixo valor agregado, como sardinha e jaraqui, serão transformados em peixes secos e também em conserva, para importar inclusive para a África. Confira a entrevista.

Portal  do Holanda - O Bacalhau da Amazônia já está no mercado, para comercialização. O produto foi bem recebido?

Eron Bezerra  - Creio que, primeiro, é preciso uma explicação preliminar. Bacalhau não é um peixe. É um processo industrial. Nós estamos fazendo o Bacalhau da Amazônia a partir do pirarucu. Hoje tem no mundo quatro peixes que, fundamentalmente são usados  para fazer bacalhau e  o quinto é exatamente o pirarucu. Essa é uma explicação preliminar, porque muita gente pensa que bacalhau é um peixe.  E bacalhau é um processo industrial, assim como a carne-de-sol. Portanto, nós lançamos um processo revolucionário que é a primeira experiência da América do Sul. Não há nenhuma fábrica na Amazônia, nenhuma outra no Brasil. E o Brasil importa 36 mil toneladas de bacalhau, todo ano.  Estamos entrand o no mercado, conscientemente estamos priorizando o mercado de Manaus. Depois vamos priorizar o mercado nacional e depois o mercado internacional. Eu quero vender bacalhau para norueguês (risos)

PH -Como o Bacalhau da Amazônia é produzido?

Eron - Esse bacalhau é produzido com a mais refinada técnica industrial. O nosso engenheiro de alimentos que está à frente desse projeto, lá em Maraã (a 531 km de Manaus). Enquanto eu estou conversando com você aqui, tem uma equipe de mil e cem pessoas trabalhando em Maraã, entre pescadores e operários.  São cerca de 100  operários dentro da fábrica, sob a coordenação de um engenheiro de alimentos chamado Bismarck, que é um gênio nessa matéria: ele já fez bacalhau em Portugal e na Noruega. Portanto, o bacalhau que está chegando à mesa dos amazonenses é feito com a mais sofisticada técnica  que o mundo conhece em matéria industrial. Afora aquele sistema artesanal de seca natural, que era feito no passado. Esse processo do b acalhau é todo industrial: com salmoramento, com retirada de água artificialmente, através de pressão, prensagem, armazenamento e embalagem. É uma técnica completa.  Portanto, a receptividade do produto para nós não é surpresa. Nós sabíamos que teria uma grande receptividade. Para ser sincero, ninguém esperava tamanho apelo. Tanto que hoje o nosso problema não é mercado e sim atender o mercado.

PH - Existe matéria-prima suficiente para atender a demanda?

Eron - Não. Não há e esse é um defeito, é uma limitação que vai desde o nosso pessoal ligado diretamente à área de pesca que, para ser sincero, não acreditava no projeto, e por isso não intensificaram o manejo, até aos órgãos ambientais, o pessoal ligado mais a esses setores do manejo. Mas aqui eu quero fazer justiça a eles.  Não é que eles não acreditassem.  É que, na verdade, o manejo fez crescer muito a população de pirarucu e eles já tinham o problema de comercializar.  Porque na medida em que você maneja, você aumenta muito a produção. E se não tiver como comercializar isso, você vai ter um problema de como colocar o produto no mercado.  Então vai ter o problema de preço , porque cai o preço e, evidentemente, cai a possibilidade de negociar, porque tem muita gente querendo vender pirarucu e não tanta gente querendo comprar.

PH - E como está esse problema agora?

Eron - Com a indústria, esse problema acabou. Porque agora nós temos capacidade de  absorver cinco vezes o que é manejado de pirarucu na região do Alto Solimões. Nós não temos problema de armazenamento porque nós produzimos, embalamos e mandamos para Manaus. A indústria manda para Manaus. O processo é todo feito em Maraã, o produto vem embalado para Manaus. Aliás, essa é uma exigência minha.  Faço questão absoluta de que todo o processo industrial seja feito em Maraã. Porque, qual a minha tese? É de agregar valor, verticalizar a produção do produto primário no interior do Amazonas. Então, o que estamos criando é um projeto que eu chamo para além da Zona Franca de Manaus.

PH -Pode explicar melhor?

Eron - É uma nova alternativa econômica para o Amazonas, baseado na agregação de valor da nossa matéria-prima local. O bacalhau do pirarucu é um exemplo. Mas isso serve para as frutas, para a mandioca, óleos essenciais, para a madeira. Ou seja: a tese que eu sustento há muito tempo, como profissional e agora como secretário de Produção Rural do Estado e agora estou executando, é que é possível agregar valor, verticalizar a produção, gerar emprego e renda, a partir da nossa matéria-prima, com sustentabilidade. Até porque eu parto da premissa de que não há desenvolvimento sem sustentabilidade e nem sustentabilidade sem desenvolvimento.  É preciso as duas coisas estar combinadas. Você não consegue preservar a Amazônia com leis, decretos e repressões, que é o grande erro das políticas ambientais. Isso se estru tura no que, academicamente, chamamos de comando e controle: polícia e repressão, polícia e repressão. Isso não funciona. Eu tenho de criar alternativa econômica para as pessoas.  Á medida que eu criar alternativa econômica, a pessoa não vai plantar maconha se tiver como ganhar dinheiro de forma decente. Mas se a pessoa não tiver alternativa econômica, vai plantar maconha, como muitos agricultores plantam. Tem de criar alternativa econômica e esse projeto é um exemplo. Quero que fique bem claro: é uma política nossa e esse é um exemplo para verticalizar a produção, agregar valor e garantir sustentabilidade real na Amazônia. Eu posso ter isso na cadeia de juta e malva.

PH -O que aconteceria com a juta e a malva?

Eron - Na hora que nós tivermos uma grande produção de fibra de juta e malva aqui no Amazonas, nós vamos lançar uma campanha nacional para acabar com o saco plástico. Por que eu não lanço hoje uma campanha dessas? Porque nossa matéria-prima não é suficiente para atender o mercado nacional. Hoje, o Brasil consome em torno de 20 mil toneladas de juta e malva e o Amazonas, como maior produtor, produz em torno de dez mil toneladas, o Pará e o Maranhão cerca de mil toneladas. Ou seja, apenas 11 mil toneladas e o Brasil importa ainda nove mil toneladas. Na hora que a gente tiver 30 mil toneladas de produção aqui no Amazonas, e temos possibilidade de chegar a isso, nós podemos lançar uma campanha para acabar com o saco plástico. E vamos ver quem realmente é “sustentabilista” na prática, e não apenas na teoria.  Ao invés de você comprar saco plástico, compra sacola de fibra. Podemos fazer copo plástico de fibra, de vegetal, que é biodegradável. É orgânico, não tem impacto ambiental alguma. Esse projeto (do bacalhau) apresentava um problema: os pescadores tinham muito peixe e pouco dinheiro. Vendiam a R$ 2,50 o quilo, no máximo a R$ 3,50.  A simples inauguração da fábrica em Maraã fez saltar esse preço para R$ 5,50. Isso para o pescador. Hoje, ninguém compra mais pirarucu lá, no Alto Solimões, por menos de R$ 7 o quilo.

PH   - A fábrica compra toda a produção manejada?

Eron - Nós vamos comprar toda a produção no ano que vem pelo preço negociado com eles (pescadores), num encontro de manejadores que vai acontecer em Tefé, possivelmente em maio. Vamos comprar toda a produção do Alto Solimões. E ao comprar toda a produção, nós vamos passar a produzir o bacalhau em maior quantidade. E esse dinheiro, para onde vai? O lucro dessa fábrica, que é uma empresa e tem de funcionar como empresa, não pode ser uma coisa de governo, porque isso é autossuentável, como vai ser? Uma parte vai para modernizar o próprio equipamento, as máquinas. A segunda parte vai para obras sociais do município, principalmente creches, para atender filhos de operários e pescadores.  E uma terceira parte vai voltar em forma de participação de lucro para os pescadores, proporcional ao que ele s entregaram para a fábrica. Portanto, estamos falando de um projeto inteiramente sustentável. O peixe sai de uma Área de Desenvolvimento Sustentável (ADS), tem cota específica para o pescador numa área de manejo e quando o peixe for processado, industrializado, o pescador vai ganhar de novo, proporcionalmente ao que ele entregou e o lucro que a empresa tiver.  

PH - - Qual a quantidade de bacalhau produzida até aqui?

Eron - Nós compramos 160 toneladas de pirarucu, in natura. Para transformar em bacalhau, nós trabalhamos com, mais ou menos, 40% ou 50%. Portanto, vamos produzir aí volta de entre 60 ou 70 toneladas, este ano. O que é uma coisa já extraordinária. Essa indústria se torna autossuficiente com 30 toneladas.  Então, já é autossuficiente, já tem capacidade operacional real.  Mas a indústria pode processar 1.500 toneladas por ano. É viável economicamente a partir de 30 toneladas. É um dos melhores negócios que alguém pode pensar, honestamente. Em termos econômicos é um dos melhores negócios. Tanto que nosso problema não é mercado, é a capacidade de atender o mercado.  Nós temos pressão de Manaus, do (grupo) Pão de Açúcar e e u estou focando a Noruega: quero vender bacalhau para a Noruega. Do mesmo jeito que os malaios levaram  a borracha e hoje vendem a borracha para nós, eu quero inverter: quero vender bacalhau para norueguês.

PH - Vai ter pirarucu suficiente para atender a toda essa demanda?

Eron - Ainda não há. Mas o que estamos fazendo? Junto com os demais parceiros, incluindo o setor de pesca, que é Secretaria-Adjunta de Pesca, estamos intensificando o manejo. Por exemplo: apenas em Santo Antônio do Içá, tem mil lagos para ser manejados. Mil lagos. Portanto, há condições de termos, a médio prazo, em dois anos, uma quantidade muito grande de matéria-prima. Mas você não pode esquecer  que não é só Maraã.  Vamos inaugurar agora, em agosto, a indústria de Fonte Boa (a 678 km de Manaus), que tem o dobro de capacidade da de Maraaã. Mas nós não vamos processar apenas o bacalhau, que é outra informação que vou aproveitar para lhe dar. Nós vamos processar qualquer peixe naquela região. Bacalhau, só vamos produzir de pirarucu.  Mas vamos fazer peixe seco para vender para qualquer pessoa, para a merenda escolar, etc. E vamos fazer conserva de peixe de baixo valor agregado.Por exemplo: cubiu, sardinha, jaraqui, que têm valor agregado, nós vamos transformar em conserva em toneis, para importar, inclusive, para a África.  Já estamos com tudo isso negociado.  Como dizia o Chapolin: não contavam com a minha astúcia (risos). Estamos montando um projeto revolucionário, essa que é a verdade. As pessoas nem alcançaram. Alguns por mediocridade e outros por inveja. Para alegria do povo amazonense o bacalhau é uma realidade e desespero para meia dúzia que tem ódio de que as coisas dêem certo, porque têm inveja.E eu acho que a inveja é o pior defeito do ser humano. Eu nunca tive inveja de ninguém: se eu achar que alguém está fazendo uma coisa boa, eu procuro fazer melhor ainda. Essa é a minha lóg ica

PH   - Como foi o treinamento do pessoal para trabalhar na indústria de Maraã?

Eron - Nós fizemos um treinamento, inclusive com parceria do Cetam (Centro de Tecnologia do Amazonas) e com técnicos nossos. A UEA (Universidade do Estado do Amazonas)  criou um curso de  Tecnologia de Pescado naquela região. Na região de Maraã e Fonte Boa tem curso de pescado, oferecido pela UEA. Fizemos uma seleção e boa parte deles foi aproveitada.  Então esse pessoal já tem emprego garantido a partir de um treinamento e capacitação que receberam.

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