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Alterações climáticas registradas em diários de indígenas são apresentadas em oficina

Alterações climáticas registradas em diários de indígenas são apresentadas em oficina
Alterações climáticas registradas em diários de indígenas são apresentadas em oficina

Manaus/AM - Mudanças nos ciclos de alguns frutos amazônicos, no clima e nas vazantes e enchentes dos rios são as principais alterações ambientais registradas no diário de Damião Amaral Barbosa, da etnia Yeba Masã, morador da comunidade Açaí-Paraná, no Baixo Rio Uaupés, município de São Gabriel da Cachoeira (AM).

O relato foi feito pelo próprio Damião durante a oficina de AIMAs, os Agentes Indígenas de Manejo Ambiental, evento que encerra-se hoje (15), reunindo cerca de 30 agentes ambientais que vivem em comunidades indígenas dos rios Tiquié, Baixo Uaupés, Igarapé Castanha e Negro, para troca de experiências sobre as observações nas comunidades onde moram.

Nos diários, cujas anotações são feitas em cadernos, agendas e tablets, indígenas acompanham as enchentes, os períodos de verão, os trabalhos, florações, migrações de peixes, aves e outros a animais, piracemas, doenças, festas e benzeduras, tendo como referência as constelações.

Em 2021, no seu diário, Damião registrou os severos efeitos da maior enchente já registrada nos rios do Amazonas.

Num dos trechos, ele relata como seria a preparação da festa denominada Verão do Umari, período no qual os parentes da aldeia Porto Amazonas e Colômbia fazem a Festa de Pupunha. “É a última festa de verão pupunha. E logo em seguida terá cerimônia de Dabucuri de frutas silvestres com flauta sagrada. Feito isso, cunhados da aldeia Puerto Inajá e Santa Isabel (Komeña) já começam um novo ciclo de jejuar (…)”

Mas nos primeiros dias de abril de 2021, o registro foi de outro cenário: a fruta umari veio na época certa, mas o chamado verão de Umari — que são alguns dias sem chuva — não apareceu. “O rio já encheu grande, enchente grande, encheu igapó, não teve mais verãozinho de três ou quatro dias. Veio a fruta, mas não verão do Umari”, descreveu.

Mesmo estando numa das regiões mais preservadas da Amazônia, os agentes percebem alterações nos ciclos naturais e constatam impactos da emergência climática.

O agente Lucas Alves Bastos, morador da comunidade de São Paulo, no Alto Rio Tiquié, da etnia Tukano, fez seu relato das mudanças. “As enchentes, os verões, as revoadas, as migrações de pássaros, também desova dos peixes, cada dia que passa não acontece mais como nos anos anteriores. As coisas estão mudando. Na época, cada ano tinha que fazer roça para queimar em certo período. Hoje em dia, alguns fazem a roça, mas não conseguem fazer a queima, pois chove, perde seu trabalho”, relata.

No evento, além das mudanças climáticas, temas como lixo, manejo dos peixes, cadeia de valores e o reconhecimento dos agentes ambientais pelos órgãos oficiais entraram no debate.

O coordenador-adjunto do Programa Rio Negro do Instituto Socioambiental (ISA), antropólogo Aloisio Cabalzar, que está à frente do projeto Rede de AIMAs, desenvolvido em parceria com a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), ressaltou a importância da rede, inclusive para a conscientização da importância dos territórios indígenas.

Ele lembrou que o projeto não surgiu com o objetivo de monitoramento de mudanças climáticas, mas esse tema vem aparecendo nos relatos dos agentes ambientais.

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