Pelo menos 80% das famílias beneficiárias do Programa Bolsa Famíla relataram o consumo de alimentos ultraprocessados pelos filhos e filhas. Os alimentos mais consumidos foram biscoitos salgados ou recheados e bebidas açucaradas, como bebidas lácteas e achocolatados.
Este é o resultado do estudo inédito divulgado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), que aponta o risco para o desenvolvimento dessas crianças devido ao alto consumo de alimentos ultraprocessados e a insegurança alimentar, segundo um estudo do UNICEF.
O estudo foi realizado com o objetivo de mapear hábitos e práticas, nível de acesso à informação e insegurança alimentar agravada pela pandemia de COVID-19.
Os três tipos de alimentos ultraprocessados mais percebidos como saudáveis foram pão de forma (47%), achocolatados e cereais matinais (35%) e bebidas lácteas e/ou queijo petit suisse (23%).
Para os especialistas, o consumo dessas famílias com crianças com idade entre zero e seis anos, de famílias beneficiadas pelo programa Bolsa Família, reflete uma série de fatores que passam pela falta de políticas públicas para a promoção de uma alimentação saudável e acessível entre as famílias mais pobres.
“A falta de informação sobre o que são os produtos ultraprocessados e os impactos do seu consumo, e o marketing da indústria desse tipo de alimentos. Isso se agrava ainda mais com a insegurança alimentar aumentada pela redução de renda das famílias mais vulneráveis no contexto da pandemia de covid-19”, explicou Stephanie Amaral, oficial de Saúde e Nutrição do UNICEF no Brasil.
O estudo denominado “Alimentação na Primeira Infância: conhecimentos, atitudes e práticas de beneficiários do Bolsa Família”, realizado pelo UNICEF, analisou os hábitos alimentares de famílias com crianças menores de 6 anos apoiadas pelo Bolsa Família, agora substituído pelo Auxílio Brasil. Foram entrevistadas 1.343 pessoas responsáveis por 1.647 crianças, em 21 estados.
De acordo com os resultados, cerca de 80% das famílias relataram o consumo de alimentos ultraprocessados pelos pequenos no dia anterior à entrevista.
Entre os motivos citados com maior frequência para a compra de alimentos e bebidas ultraprocessados foram sabor (46%), preço (24%) e praticidade (17%).
Outro fator é a acessibilidade, uma vez que 64% das famílias afirmaram morar perto de estabelecimentos de refeições prontas e 54%, próximos de lojas de conveniência, enquanto o acesso a hortas perto da casa é menor, apenas em 15% dos casos.
FALTA DE INFORMAÇÃO
A falta de informação adequada sobres os riscos desse consumo impacta de maneira preocupante os hábitos alimentares dessas famílias, que enfrentam barreiras para identificar o que é de fato um alimento saudável.
Pouco menos da metade (48%) das famílias não se sente confiante para interpretar os rótulos dos alimentos. Soma-se a isso o fato de que apenas 34% afirmaram que costumam lê-los e entendê-los com frequência antes da compra.
Cerca de 83% dos entrevistados não considera que seus filhos ingiram esses alimentos numa frequência maior do que deveriam. Cerca de um quarto da amostra relaciona erroneamente os alimentos ultraprocessados a fontes de vitaminas e minerais para seus filhos e 47% associam pelo menos um alimento ultraprocessado como parte de uma alimentação saudável.
Essa percepção é maior nas áreas urbanas, o que pode representar um reflexo da imagem vendida pelo marketing desses produtos, que enfatiza na sua publicidade que esses alimentos são complementados com nutrientes importantes para a alimentação infantil.
O quatro é preocupante porque evidências mostram uma baixa adesão ao aleitamento materno exclusivo nos primeiros seis meses de vida (segundo o Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil, apenas 45,7% dos bebês com menos de 6 meses de idade são alimentados exclusivamente com leite materno).

