SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O Pará é considerado um centro nervoso para o tráfico internacional, com peso estratégico para o Comando Vermelho, e as rotas rodoviárias e aéreas têm ganhado força entre os criminosos, que também usam o dinheiro da cocaína para financiar outras atividades.
É o que diz o relatório "Crime Organizado na Amazônia Paraense", produzido pelo Instituto Mãe Crioula, que será lançado nesta quarta-feira (19) na Embaixada dos Povos, em Belém. O cenário atual no estado conjuga conflitos históricos pela terra e a atuação do crime organizado, que busca controlar tanto as rotas de droga quanto explorar recursos naturais.
O chamariz da Amazônia Legal como caminho da cocaína para os mercados norte-americano, europeu e africano tem atraído facções do Sudeste, como o CV (Comando Vermelho) e o PCC (Primeiro Comando da Capital), que não só disputam e dominam, mas também se aliam a grupos já existentes na região, como Comando Classe A e a Família Terror do Amapá.
O consumo também cresceu no Brasil e levou o país à segunda posição no ranking mundial, segundo dados do escritório da ONU sobre drogas, atrás apenas dos Estados Unidos. Isso faz, segundo o estudo, com que o garimpo e a grilagem sejam usados para aumentar o poder do narcotráfico. Análise, inclusive, que contrasta com uma possível redução do peso da droga nas atividades das facções.
"É um equívoco a avaliação de que outras atividades estão substituindo a questão da droga. O valor da cocaína no mercado europeu precisa ser enfatizado", afirma Aiala Couto, diretor-presidente do Instituto Mãe Crioula e pesquisador da Universidade do Estado do Pará. "É o dinheiro do narcotráfico que constrói infraestrutura com aviões, máquinas, com pistas de pouso e com a cooptação de pessoas para trabalhar na operação e no garimpo."
Ao longo dos anos, segundo Aiala, o comércio ilegal da droga tem se fortalecido com a proibição do consumo. "A questão do proibicionismo valoriza o preço da droga no mercado global. Uma cocaína que chega com o quilo a R$ 20 mil na fronteira do Amazonas chega à França a R$ 400 mil. Agora imagine uma tonelada."
Para ele, não é possível dissociar a relação financeira do narcotráfico com a lavagem de dinheiro e a multiplicação de atividades ilícitas. "O narcotráfico é a grande arma dessa conexão."
Além da integração entre as esferas municipal, estadual e federal para enfrentar o crime organizado, o instituto defende uma política de segurança com participação comunitária, a inteligência e o uso de dados, justiça territorial, para mediar conflitos e a prevenção contra a entrada no crime, com a promoção de educação, profissionalização e cultura para a juventude.
A instalação de bases fluviais de fiscalização nos municípios paraenses de Breves e Óbidos, por exemplo, aumentou as apreensões de drogas na região.
A presença do CV no território paraense tem como objetivos assegurar o transporte para outras regiões do Brasil e fora do país, manter a proximidade com o Amazonas e a rota do rio Solimões, caminho de cocaína e skunk de produtores como Colômbia e Peru, e garantir a circulação nas redes hidroviária, rodoviária e aérea no estado.
A predominância aparente da facção no estado é um resultado, segundo o relatório, da disputa com o PCC, que dominava a chamada rota caipira da droga. O CV começou a se projetar em 2012 de Belém para a região metropolitana e para o interior, atingindo também comunidades rurais e territórios indígenas e quilombolas. Segundo o estudo, a facção tem se aproveitado do que chama de vazio institucional, que seria a ausência do Estado e de serviços e políticas para essas populações e territórios.
Com grupos locais, o CV foi estabelecendo alianças e conflitos um dos mais notáveis foi contra o Comando Classe A, aliado do PCC, que ocorreu no presídio em Altamira, em 2019, com 62 detentos mortos.
A expansão do CV pode se dever ao modelo de franquia apontado no estudo, que tem no Rio de Janeiro sua matriz, responsável por coordenar a atuação de células. Entre os locais da matriz estão os complexos de favelas do Alemão e da Penha, além de Salgueiro e Rocinha. Ali são decididos os locais que seriam fortalecidos com armamento, por exemplo.
Isso também seria evidenciado pela presença de lideranças paraenses do CV entre os presos e mortos na Operação Contenção, a mais letal na história do país. Seis dos detidos eram do Pará, e os mortos foram 15.
Esse modelo de franquia também prevê uma exploração de taxas da população e de outros negócios, o que espalha, inclusive, a violência. Em 10 dos municípios mais violentos, a ação de facções é citada em 9.
Em Cumaru do Norte, cidade com cerca de 15 mil habitantes e líder do ranking, os exemplos estão nas disputas relacionadas a desmatamento para uso agropecuário ou de garimpo. Desde 1980, segundo o relatório, o garimpo Maria Bonita, instalado dentro da terra indígena Kayapó, é um vetor de violência. Mais recentemente, as disputas entre Comando Vermelho e PCC também têm contribuído para elevar as mortes violentas intencionais.

