Mas assunto e melodia eram justamente o que sobrava a Don McLean naquele começo de década e sua American Pie, ele sentia, tinha forças para derrubar um império. A canção saiu em 1971 arremessada como um arpão de muitas pontas, atingindo o coração de um mundo repleto de dilemas sexuais, raciais, políticos, bélicos, éticos, musicais e existenciais. Já havia muito vazio e frustração naquela fenda do tempo pós-Beatles, pós-Woodstock, pós-Martin Luther King Jr., pós-Robert Kennedy e pré-disco music. Ou seja, resumindo - e apesar do Sly and Family Stone -, pós-sonho. McLean pegou seu violão e captou a falta de inspiração planetária com uma sequência poética e melódica crescente das mais inspiradas de seu tempo. American Pie, a simbólica torta de maçã, saiu direto do álbum, o segundo de McLean, para o topo das mais tocadas. E está lá por mais de 50 anos como a canção mais longa a atingir tal posição.
O tempo foi tornando a canção ainda maior do que o que os estadunidenses chamam de "música de fogueira". Além de ter a ternura das folk songs mais dilacerantes, certa em tudo, sua letra começou a ganhar interpretações mitológicas, equivocadas, fake ou, isso também aconteceu, perfeitamente adequadas.
SIGNIFICADOS
Sempre que questionado pelos jornalistas sobre os significados de seus versos, McLean saía pelas beiradas: "Afinal, qual o significado de American Pie?", perguntavam os jornalistas. "Ela significa que nunca mais vou precisar trabalhar", respondeu uma vez. Sua lógica era simples. Ao explicar qualquer coisa, McLean esvaziaria a magia das possibilidades: "Você encontra muitas explicações sobre minhas letras, nenhuma delas dita por mim... Sinto deixar todos vocês assim no escuro, mas descobri há muito tempo que compositores devem se expressar e seguir em frente, mantendo um silêncio respeitoso".
Aos 76 anos de idade, já com uma estrela garantida no Rock and Roll Hall of Fame, o autor viveu para ver um documentário inteiro dedicado a sua música. The Day The Music Died, ou O Dia em Que a Música Morreu, uma frase da canção e o nome pelo qual ficou conhecida uma das tragédias mais chocantes da história do rock, está na plataforma Paramount+ com boas histórias, bons entrevistados e uma parte em que a letra é dissecada para que, na medida do possível, as verdades sejam reveladas ou reforçadas. A mais evidente delas confere: a canção foi dedicada a Buddy Holly e feita ainda por um coração sangrando pela morte do ídolo. McLean ficou sabendo da morte de Holly enquanto trabalhava como entregador de jornais na manhã de 3 de fevereiro de 1959. A letra diz: "February made me shiver / with every paper Id deliver", ou "Fevereiro me dava calafrios a cada jornal que eu entregava".
FAKE NEWS
Coisas a serem demolidas: Elvis Presley não é o "rei" citado na canção; a "garota que cantava blues" não era Janis Joplin e Bob Dylan não era o "bobo da corte". A fake news foi tão longe que chegou ao próprio Dylan, levada por um repórter da revista Rolling Stone: "Um bobo da corte?", disse Dylan. "Claro, o bobo da corte escreve músicas como Masters of War, A Hard Rains Gonna Fall, Its Alright, Ma. Eu só posso pensar que ele está falando de outra pessoa." Ao mesmo tempo, o filme confere que "o dia em que a música morreu" diz respeito ao acidente aéreo que levou as vidas em franca ascensão de Buddy Holly, Ritchie Valens e The Big Bopper, além do piloto Roger Peterson.
A solução da gravadora para lançar a longa canção também é lembrada. Um single trazia a primeira metade da música no lado A enquanto a segunda era escutada no B. A canção era tão boa que as pessoas viravam o álbum apenas para ouvir a sequência da história. Nenhuma das versões seguintes teria a mesma audácia. Garth Brooks, um de seus versionistas e entrevistado no filme, diz que a canção é "sobre esse impulso de independência, esse impulso de descoberta, de acreditar que tudo é possível".
John Meyer, Jon Bon Jovi e mesmo Madonna, avassaladora, também fizeram suas versões, mas nenhuma a ponto de superar a força afetiva imposta em 1971. "Para mim, American Pie é o elogio a um sonho que não se realizou", diz no filme o produtor da música, Ed Freeman. "Fomos testemunhas da morte do sonho americano."
McLean diz que "o país estava em algum estado avançado de choque psíquico. Toda essa confusão e tumultos e cidades em chamas." Sua ideia, conclui afinal, era a de conseguir fazer uma canção sobre os Estados Unidos de uma forma que ninguém havia feito. E ele conseguiu.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.



