RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Na parede recém-pintada de um dos pátios do quilombo Sacopã, no alto da ladeira de mesmo nome, na região da Lagoa Rodrigo de Freitas, zona sul do Rio, frases que exaltam ancestralidade africana: "Negro levanta a cabeça" e "Negro é lindo". No centro do espaço, uma pequena fotografia emoldurada mostra os pais de José Luiz Pinto Júnior, 83, o Luiz Sacopã, líder da comunidade. A imagem é um lembrete da origem daquele território e do que precisou ser enfrentado para que ele ainda exista.
O Sacopã é o último reduto quilombola da zona sul carioca, uma sobrevivência improvável em uma das regiões com o metro quadrado mais caro da cidade. O local, que completa um ano de titulação federal pelo Incra neste mês de novembro, tornou-se símbolo de resistência ao manter, por mais de um século, a presença negra em meio à verticalização acelerada e às tentativas de expulsão que moldaram o entorno.
Sentado em um banco próximo ao fogão a lenha um dos símbolos da casa, seu Luiz resume a trajetória da família em uma frase que repete como quem ancora o próprio corpo às raízes: "Eles tentam tirar a gente, e eu continuo aqui. Não saio. Nunca vou sair."
A titulação, diz ele, não resolve tudo, mas representa a primeira garantia jurídica contra a pressão imobiliária histórica na área. "A certidão não diz que isso é teu, mas garante juridicamente. A especulação chega e quer que a gente vá embora", afirma. "As pessoas me perguntam se tenho raiva depois de 50 anos de luta. Eu digo: 'Existe vingança maior do que resistir?'"
A família Pinto ocupa o território desde o fim do século 19, quando o avô de seu Luiz chegou ali após fugir de uma fazenda em Amparo, Nova Friburgo. Na época, o local era tomado por mata e abrigava indígenas da Praia Funda, hoje Parque da Catacumba. A urbanização só chegaria décadas depois e com ela as disputas.
Ao longo do século 20, a comunidade enfrentou conflitos com vizinhos, remoções na Lagoa promovidas pelo Estado, investidas de grileiros e assédios de construtoras. Parte do território original de 11,8 mil m² acabou ocupado por três prédios vizinhos.
Nos anos 1970, o grupo tentou garantir a permanência por meio de um processo de usucapião. A vitória em primeira instância foi revertida por unanimidade na segunda. "Chegou o oficial com a reintegração de posse: 30 dias para sair", lembra Luiz. "Ele disse que tínhamos 1% de chance de reverter. Fui atrás mesmo assim."
Nesse período, a pressão veio também em forma de propostas financeiras. "Ofereceram R$ 3 milhões. Diziam: Assina aqui e entrega em 30 dias. Com esse dinheiro, você compra uma cobertura na Vieira Souto [rua com imóveis em alto padrão em Ipanema]'", conta. "Eu perguntei: 'Mas dá para levar os macacos? Esses miquinhos que vivem aqui? Dá para me levar meu fogão a lenha?' Isso é a minha vida", relembra.
A resistência incluiu episódios extremos. Em 2012, Luiz teve o portão de casa fechado por correntes e vigiado por dois PMs, em um episódio que define como "prisão domiciliar" ação, segundo ele, destinada a silenciá-lo.
Durante o processo de regularização como quilombo, vieram também questionamentos sobre a origem da família. Para enfrentar acusações de que seriam "falsos quilombolas", o líder realizou um exame de DNA, custeado com apoio de amigos e doações. "Deu 80% africano. Sou nigeriano da tribo iorubá", diz.
A trajetória de luta coincidiu com perdas pessoais. Luiz fala com emoção da morte do filho Márcio, que ficou conhecido ao recolocar cruzes derrubadas em um protesto pelas vítimas da Covid em Copacabana e depois depor na CPI da pandemia. Márcio morreu aos 55 anos, após quadro de depressão. Meses depois, o neto dele faleceu de Covid, aos 25. "Fazem uma falta tremenda", diz o patriarca, com a voz baixa.
Aos 83, ele afirma se preocupar com a continuidade da liderança. "Hoje só tenho um filho, o Luizinho. Preciso botar ele no meu lugar. Mas, sabe, essa coisa de militância não é muito a dele", admite.
Apesar das tensões, o Sacopã segue vivo como espaço cultural, com rodas de samba, festas e apresentações. "Quando você silencia, é tudo que eles querem", afirma. "O negro tem de se unir e ocupar todos os espaços. Tem que se escolarizar, falar a mesma língua da elite. Eles ficam revoltados quando você discute com eles. Eu só estou aqui hoje porque nunca silenciei."
A titulação trouxe, diz ele, algum alívio, mas a incompreensão sobre o território permanece. "Às vezes me perguntam quanto custa comprar um pedaço do quilombo. Não sabem que não pode vender. O território é da União; a gente tem uso e fruto."
Certificado pela Fundação Cultural Palmares desde 2004, o Sacopã passou quase duas décadas em processo de regularização até receber, em 2024, o título emitido pelo Incra o primeiro quilombo oficialmente reconhecido na zona sul do Rio.
Para seu Luiz, a conquista é menos um ponto final e mais um fôlego: "A chama não se apaga. Quando viram que nós estávamos resistindo, outros tiveram coragem de dizer: Eu sou descendente de escravos. O povo quilombola ainda baixa a cabeça para os engravatados. Eu não."


