Tom Zé conta, já em um texto de divulgação do álbum, a "importância de outras culturas para a formação e a construção da língua portuguesa em terras brasileiras": "Foram dois anos de trabalho, de domingo a domingo, com Daniel Maia sempre a meu lado, fazendo um esboço imediato de arranjo, que nos permitia calcular o futuro alcance da música". E segue: "E assim chegamos, com leves arranhões, a este disco com gravações inéditas, que passamos aos vossos ouvidos. Nós nos orgulhamos da língua cantabile e melodiosa que falamos no Brasil. As averiguações mostram que herdamos isso de uma antiga língua africana e negra: o quimbundo. Falamos, com pouso nas vogais, uma língua quase cantada, em vez daquelas consoantes acentuadas preferidas em Portugal".
O repertório reflete a pesquisa do compositor. Hy-Brasil Terra Sem Mal, a música que abre o álbum, é, como explica o texto de divulgação, "inspirada na crença tupi-guarani da Terra Sem Mal e na mitológica ilha que figura na cultura celta, denominada Hy-Brasil: uma porção de terra ao nome do Oceano Atlântico que passaria períodos cíclicos de sete anos oculta sob grossa neblina, revelando-se aos olhos dos navegantes por um único dia, porém se mantendo sempre inalcançável às embarcações". A seguinte canção, Pompeia - Piche no Muro Nu, surgiu de seu "espanto com a descoberta dos registros de pichações em latim vulgar nas paredes da cidade de Pompeia, na Itália".
Ao Estadão , Tom Zé falou o seguinte em relação às informações que o álbum traz sobre as origens da língua brasileira à margem do aprendizado oficial: "Felipe Hirsch achava que, trabalhando isso no teatro, poderia trazer todos esses segredos preciosos. Uma coisa curiosa é que, se agora todo o jornalismo e toda a propaganda lutam muito contra o racismo, é interessante a pessoa que fala português ser racista, porque foi a língua chamada quimbundo, uma língua de Uganda e uma das africanas que mais influenciaram a língua brasileira. Foram os negros quem mais influenciaram a formação dessa língua cantante".
RESISTIR
O álbum traz ainda a canção Língua Brasileira, com participação especial de Maria Beraldo, lançada originalmente em 2003, no disco Imprensa Cantada, a única não inédita do projeto. As outras são Unimultiplicidade, Gênesis Guarani, Metro Guide, Índio Desliga Jaraguá, A Língua Prova Que, San Pablo, San Pavlov, San Paulandia, Clarice e Os Clarins da Coragem.
Há um certo ato de resistência na busca por se saber da própria língua. Tom Zé diz assim ao repórter: "A cultura de um povo eram suas lendas. Elas uniam as tribos e as mantinham unidas durante séculos e séculos. Muito bem. Esse povo abandonou suas lendas, deixou de cantar para suas musas, e tal e coisa, e foi decaindo culturalmente. Mas decaíram tanto que chegaram ao barbarismo, e acabaram lutando uns contra os outros e se destruindo". Parece haver alguma semelhança com o Brasil. E há.
A PALAVRA
"Há uma certa semelhança com isso porque se acaba a cultura, se acaba o jornalismo e se desfaz e desrespeita a canção em um país que tem uma canção muito respeitada no exterior e tudo... Eu não faço propaganda de presidente da República. Quando eu quero falar nas coisas do Brasil, eu tento falar dessa maneira."
Indagado sobre a influência de sua recente pesquisa nas palavras de suas composições, um elemento que torna sua obra tão abrangente, Tom vai ao passado: "O que me tirou de Irará (interior da Bahia) foi a música. Quando a televisão foi inaugurada em 1950, eu, Roberto Santana, meu primo, que foi produtor de Elis Regina, isso e aquilo outro, ele fazia e acontecia, mandou me dizer que eu ia cantar em um programa (chamado) Escada para o Sucesso. Era um programa de calouros, no domingo à noite, que iria ao ar daqui a duas semanas... Falei, bom... eu, em Irará, para poder ser ouvido, tinha mudado o jeito de fazer música. Não fazia música para a namorada, passei a fazer música sobre os episódios de Irará". E segue para finalizar dizendo que a música, tanto quanto a palavra, sempre esteve presente em sua vida.
Investigação sobre origem de palavras deu mote das canções
A música Língua Brasileira, criada por Tom Zé e lançada em 2003, no álbum Imprensa Cantada, dá o prumo do projeto. Ela diz o seguinte: "Quando me sorris / Visigoda e celta / Dama culta e bela / Língua de Aviz / Fado de punhais / Inês e desventuras / Lá onde costuras / Multidão de ais / Mel e amargura / Fatias de medo / Vinho muito azedo / Tudo com fartura / Cravos da paixão / Com dores me serves / Com riso me pedes / Vida e coração / Vida e coração / Babel das línguas em pleno cio / Seduz a África, cede ao gentio / Substantivos, verbos, alfaias de ouro".
As novas expõem também uma investigação feita pelo cantor e compositor baiano. Clarins da Coragem diz: "Os clarins da coragem / Dos nossos heróis / Quiseram criar / Um Brasil que até hoje não há / Liberdade ainda que tarde / Porém essa tarde já tarda natais / Natais, demais / Cada morro, favela no alto / É um cadafalso / Que elege carrascos / Letais, os tais / Ô ô ô ô / Minas Gerais, aí dor, aí dor / Ainda ouço, aí dor, aí dor / No calabouço, aí dor, aí dor / Dores demais, punhais e mais".
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.



