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SP tem menos acidentes de trânsito na pandemia, mas com maior gravidade

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O médico Syro Maiuri Teixeira da Silva, 41, trabalha desde janeiro de 2010 no Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) e já viu de tudo na vida.

Durante a pandemia, notou também um fenômeno que, num primeiro momento, parecia estranho. O número de atendimentos a acidentes de trânsito caiu na cidade de São Paulo, mas a gravidade deles aumentou bastante.

"Fui mais acionado para atender acidentes de carros e motos do que era anteriormente", afirma o médico, que trabalha em uma base na avenida dos Bandeirantes, próxima à marginal Pinheiros, e é especializado em atendimentos graves.

Segundo Silva, um dos vetores da violência no trânsito foi o aumento na circulação de motos. "Principalmente no período em que todo mundo estava em casa. O pessoal perdeu o emprego e foi trabalhar com entrega. Muitos não tinham experiência", diz. "O que me deixa muito triste é ver gente jovem que morre ou fica sequelada por acidente besta", completa.

O médico explica que vítima grave é aquela que precisa de um suporte médico imediato, porque corre o risco de vida ou de ficar com uma lesão irreparável.

"Geralmente, é algo avaliado pelo número e pela gravidade das lesões, como aquelas ocorridas em órgãos internos. Ou traumatismo craniano, fraturas, perda de sangue", diz

Para Silva, falta cultura de segurança no trânsito. "Não só com relação à velocidade, mas também ao fazer conversão proibida ou ao adotar formas inadequadas de dirigir. A maioria dos acidentes é evitável."

Na comparação entre janeiro e agosto deste ano com o mesmo período de 2019, no pré-pandemia, o número de chamados à CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) para atender a interferências provocadas por acidentes de trânsito caiu 61,6% (de 2.449 para 941 casos). Durante o período noturno, das 22h às 5h59, a queda foi ainda maior, de 68% (447 para 143).

Entretanto, a percepção de pessoas como o médico do Samu ou de quem conhece bem o trânsito é muito clara a respeito do aumento da gravidade dos acidentes, a despeito da queda no número de ocorrências.

"Estou em Washington e isso aconteceu aqui nos Estados Unidos também, com a gravidade se acentuando", afirma Sergio Avelleda, coordenador do Núcleo de Mobilidade Urbana do Insper, ex-secretário municipal de Transportes de São Paulo e também ex-presidente do Metrô e da CPTM, entre passagens por outros cargos públicos.

"Com menos carros nas ruas, eles estão andando de maneira mais rápida. Não tem mais engarrafamento para conter a velocidade do automóvel. E há uma razão entre aumento da velocidade e maior gravidade de acidentes", explica.

Engenheiro de carreira e diretor de operações da CET, Hemilton Inouye também afirma ter visto mais acidentes graves durante a pandemia. E por desrespeito aos limites de velocidade e à sinalização. "Às vezes, aparece alguém que se estatelou no poste em um lugar onde esse tipo de problema não acontecia", afirma.

Segundo Inouye, o período noturno é quando essas ocorrências mais se manifestam. "Esses acidentes da madrugada ficam concentrados nas grandes avenidas, porque o motorista sabe que as pistas estarão livres e então abusa", diz. "Não é porque estão ele e mais dois carros que pode andar a 100 km/h", completa.

O aumento na circulação de motos também é motivo de preocupação para o diretor de operações da CET, que se reuniu ao menos duas vezes nas últimas semanas com representantes da categoria para falar sobre a segurança no tráfego. "O caso do motociclista é à parte mesmo. A gente sabe que esse é um modal que aumentou durante a pandemia, com aplicativos e delivery", conta.

Para fazer o atendimento durante o período noturno, que é crítico, a CET conta com 120 profissionais trabalhando em toda a cidade. Eles não atendem exclusivamente às interferências causadas por acidentes, mas também a interdições provocadas por obras, manutenções do sistema viário, entre outras.

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