SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A remoção de árvores em um terreno onde serão construídos prédios residenciais no Alto da Lapa, na zona oeste de São Paulo, resultou na semana passada em protestos de moradores da região e em um bate-boca envolvendo o prefeito Ricardo Nunes (MDB).
Os moradores são contra a autorização Termo de Compromisso Ambiental que a prefeitura emitiu para a construtora Tegra retirar 118 árvores do chamado Bosque dos Salesianos e construir prédios residenciais.
O terreno fazia parte da Unisal (Centro Universitário Salesiano de São Paulo), que o vendeu para a Tegra no início de maio, por quase R$ 95 milhões. A obra tem alvará para ser realizada, e o corte de árvores ocorreu ao longo da semana passada.
Na última quinta-feira (6), moradores foram a um evento com a presença do prefeito para se manifestar contra a obra, portanto cartazes com dizeres como "Assassinaram o Bosque" e "A Lapa está de luto". Nunes reagiu aos protestos e disse "larga de ser babaca" a um dos manifestantes.
O emedebista fazia um discurso durante a entrega de veículos movidos a biometano para coleta de lixo. Logo no início da fala, ele disse que a cidade é dividida em duas categorias, de pessoas civilizadas e não civilizadas. Na sequência chamou os manifestantes de "baderneiros" e "pessoas sem noção".
Vídeo publicado na página do grupo no Instagram sugere ainda que o prefeito chegou a mostrar o dedo do meio aos manifestantes, o que a Secretaria de Comunicação nega. "Quanto à imagem congelada e fora de contexto, é um absurdo e irresponsabilidade querer induzir o leitor a erro de interpretação", diz a gestão Nunes, em nota.
Dois dias antes, na terça (4), um grupo com cerca de 40 pessoas protestou em frente ao terreno. Alguns dos moradores, em tom mais exaltado, bateram contra o portão de acesso à obra. O local estava fechado, e maquinários operavam normalmente apesar dos protestos.
Os moradores afirmaram ter sido surpreendidos pela derrubada de árvores. "Mais do que uma relação com a comunidade, o bosque tem uma fauna e flora riquíssimas, com pássaros e até macacos. É um dos poucos lugares de São Paulo em que você tem isso", disse a fotógrafa Sílvia Simões.
"R$ 95 milhões pagam seu lugar no céu, padre?", disse uma moradora aos gritos, em direção a religiosos que moram no terreno ao lado.
A área de 7.000 metros quadrados do bosque reúne 207 árvores, entre as ruas Pio XI, Sales Júnior e Presidente Antônio Cândido. Segundo o Termo de Compromisso Ambiental, a construtora deverá fazer plantio compensatório de 1.799 mudas.
O Ministério Público de São Paulo chegou a ajuizar ação pedindo a paralisação das obras. Obteve decisão liminar favorável à suspensão do projeto, medida que posteriormente caiu.
O argumento era de que o local estaria protegido por um decreto de 1989 que proibia a supressão das árvores. A norma, no entanto, foi revogada pelo governo Luiz Antônio Fleury Filho, em 1994, em mudança que atribuiu ao município a decisão sobre o corte de espécies nativas. A ação acabou julgada improcedente.
"Embora a vegetação possua valor ambiental e paisagístico, não se enquadra necessariamente nas categorias que imporiam vedação absoluta a qualquer tipo de intervenção. A legislação permite, mediante processo administrativo específico e atendidos determinados requisitos, o manejo excepcional dessa vegetação", afirmou o juiz Kenichi Koyama ao rejeitar o pedido da Promotoria.
Acionado por moradores, o biólogo Roque de Gaspari disse à reportagem que o início da primavera não é a época ideal para o corte de árvores. "É tempo de início de reprodução das aves, o que leva cerca de 30 dias. Depois nascem os filhotes, e o crescimento deles pode levar até dois meses. Se você derruba uma árvore grande, leva tudo junto", disse.
Em nota, a Tegra disse que o empreendimento é regular, pois "possui todas as autorizações necessárias para as atividades em seu terreno [...], incluindo o alvará de execução e o TCA (Termo de Compromisso Ambiental), emitidos pela SVMA (Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente)."
"O manejo arbóreo ocorre conforme critérios técnicos e ambientais da SVMA: cerca de 73% das árvores que precisarão ser removidas encontram-se mortas, são invasoras ou exóticas o que compromete a regeneração natural do espaço e 66 exemplares nativos serão preservados", acrescentou a empresa.
A incorporadora disse também que realizará compensação ambiental com investimento superior a R$ 1 milhão, além de revitalizar quatro praças na região.

