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Remanescentes do Moinho vivem entre demolições enquanto buscam moradia em SP

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Leidivânia Teixeira, 30, restringiu o espaço das brincadeiras dos filhos ao quarto que é quase todo ocupado por uma cama de casal desde que as casas próximas à dela começaram a ser desmanchadas na favela do Moinho. Integrante de uma das cerca de 230 famílias remanescentes da comunidade na região central de São Paulo, ela tenta evitar a circulação das crianças de 2 e 8 anos pela área esvaziada e repleta de entulho.

A viela de chão de cimento que era como um quintal para as crianças ficou insegura sem os vizinhos que se revezavam na vigília dos pequenos. "Agora a gente fica com medo", diz a mãe.

Com 639 famílias já reassentadas, a gestão do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) avançou significativamente em seu plano de remoção e passou a demolir habitações desocupadas. O início da operação completa seis meses nesta quarta (22).

As condições sanitárias sempre foram um problema no Moinho -uma ocupação que se formou ao longo de mais de três décadas em um terreno da União espremido entre duas linhas férreas, cujo núcleo é caracterizado por enormes silos de concreto em ruínas. Mas a situação piorou agora, dizem moradores que permanecem no local.

Ao percorrer a área, a reportagem encontrou pilhas de escombros e lixo que restaram das cerca de 150 construções demolidas e de outras aproximadamente 450 que tiveram portas, janelas e telhados arrancados para que não fossem reocupadas.

O acúmulo de entulho agrava infestações de ratos, baratas e escorpiões, segundo moradores. Eles dizem que só permanecem no local porque precisam de mais tempo para encontrar um imóvel que se enquadre na faixa de preço de R$ 250 mil, valor do subsídio dado às famílias por meio de um acordo firmado entre os governos de Tarcísio e do presidente Lula (PT), sendo R$ 180 mil da União e R$ 70 mil do estado.

Liziane Santos Ferreira, 37, afirma que a busca não é simples. Com mercado imobiliário aquecido, o subsídio foi suficiente para aquisição de um apartamento de 28 m². O imóvel precisará acomodar ela, o marido e os dois filhos pequenos.

Após uma demorada procura para continuar vivendo na região central da capital, Liziane precisou aceitar um apartamento menor do que a casa de dois quartos e dois banheiros que ela, vendedora, e o marido, caminhoneiro, construíram ao longo de dez anos no Moinho.

Emissões de certidões e outras questões burocráticas ainda podem atrasar a mudança em semanas, relata.

Enquanto não consegue sair, Liziane diz se sentir pressionada pelos constantes questionamentos sobre a previsão de saída vindos de funcionários da CDHU, a companhia de habitação do governo paulista. "Estou perdendo o sono, tomo remédios controlados", diz.

A CDHU diz oferecer "pleno suporte às famílias" em processo de reassentamento e afirma que o contato diário com esses moradores é para prestar orientações. A companhia ainda ressaltou que o local já era insalubre antes do início do plano de reassentamento.

Terminará nesta sexta (24) o prazo de dez dias estabelecido pela Justiça Federal para que o governo estadual retire materiais inservíveis da área, período em que também estão suspensas novas demolições. A Secretaria de Habitação da gestão Tarcísio diz estar cumprindo o acordado, tendo já retirado 75 caminhões de entulhos.

A questão das demolições é um ponto de divergência entre os governos Lula e Tarcísio. O governo paulista considera que o acordo judicial dá aval para a retomada das demolições após a limpeza da área.

Já a gestão federal avalia que o estado deve apenas desmontar cuidadosamente as casas, procedimento que é chamado de descaracterização do imóvel. Ambos os termos, demolição e descaracterização, são mencionados na decisão.

Outro ponto do posicionamento da Justiça sobre o Moinho interpretado como positivo pela gestão Tarcísio é a liberação da entrada da polícia para prevenir a reocupação de casas ou barracos.

O governo paulista vê na comunidade um ponto de distribuição de drogas que ajudava a abastecer a cracolândia, atrapalhando um plano de requalificação da região central, realizado em conjunto com a prefeitura de Ricardo Nunes (MDB).

Segundo a Secretaria de Segurança do governo paulista, mais de 1 tonelada de entorpecentes foi apreendida na região central nos oito primeiros meses do ano e uma recente operação policial prendeu líderes comunitários sob a suspeita de envolvimento com atividades criminosas. Atos realizados por moradores e grupos de oposição a Tarcísio classificam as prisões como arbitrárias.

O governo Lula fez diversas críticas às ações policiais na comunidade, especialmente após intervenções com bombas de gás e tiros de balas de borracha contra pessoas que protestavam contra a remoção.

A discordância da gestão petista sobre o uso da força policial é apontada por fontes do governo federal como o principal motivo para que a União não dê um dos últimos passos do acordo feito com o governo Tarcísio sobre o Moinho, que é a cessão da área para São Paulo. No local, o estado estuda construir um parque e uma estação de trens.

Em nota, a Secretaria do Patrimônio da União afirma que mantém diálogo permanente com a gestão estadual desde o início das negociações para cessão do terreno.

Se ainda há alguma incerteza sobre o futuro da área, é certo que a favela vai aos poucos deixando de existir com o desmonte de construções que davam a ela a característica de comunidade.

Após a última missa na igreja Nossa Senhora do Moinho, o missionário Vagner Tinelli, 42, retirava a marteladas madeiras e outras partes reaproveitáveis do espaço. "Muita gente chorou na celebração de encerramento, afinal, esse é um local de referência e fé", conta. "Mas também é gratificante ver as pessoas indo para novos lares, a gente torce para que trilhem um caminho melhor."

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