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Quando enchentes terminarem, há risco de seca severa no RS, diz ganhador de 'Nobel' da Alimentação

Por Folha de São Paulo

24/05/2024 13h24 — em
Variedades



BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Tragédias como as enchentes no Rio Grande do Sul não são um fenômeno isolado e foram vistas recentemente em outras partes do mundo, como no Paquistão, observa Rattan Lal, um dos mais reconhecidos cientistas de solo do mundo e ganhador do Prêmio Mundial da Alimentação —a láurea é considerada uma espécie de Nobel da alimentação e agricultura.

Ele também alerta que as inundações potencializadas pelo aquecimento global, como as que afetaram a região Sul, tendem a ser seguidas por secas severas, por causa da dificuldade do solo em absorver água. Diz ainda que temos a responsabilidade de tornar a agricultura uma solução para o problema.

"Quando as inundações acabam e altas temperaturas acontecem, o solo não tem mais água. Normalmente, a seca vem depois da inundação. Essa síndrome de seca-inundação é um impacto das mudanças climáticas. É uma situação trágica", afirma à Folha Lal, durante visita ao Brasil para se reuniur com chefes de Pesquisa Agrícola do G20.

Hindu-americano, Lal é cientista na Universidade de Ohio (EUA) e embaixador da boa vontade do IICA (Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura). Foi um dos cientistas que o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) reconheceu como tendo contribuído para o prêmio Nobel da Paz dado ao instituto em 2007.

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Pergunta - O que a tragédia no Rio Grande do Sul nos diz em termos de consequências das mudanças climáticas?

Rattan Lal - Minha solidariedade às famílias e pessoas que estão sofrendo com essa tragédia, que se deve principalmente às mudanças climáticas, mas também à mudança no uso da terra.

Essa tragédia no Rio Grande do Sul aconteceu em outras partes do mundo, como no Paquistão no ano passado, quando um terço do país sofreu com inundações. Na Índia, a mesma situação. O impacto das ações humanas em relação ao equilíbrio hídrico foi agravado pelas mudanças climáticas.

Infelizmente, onde quer que haja uma inundação, eventualmente também haverá seca. Porque o solo não está absorvendo água. Quando as inundações acabam e altas temperaturas acontecem, o solo não tem mais água. Normalmente, a seca vem depois da inundação. Essa síndrome de seca-inundação é um impacto das mudanças climáticas. É uma situação trágica.

P. - Foi o que aconteceu em outros eventos extremos, como no Paquistão?

R. L. - A mesma coisa. Quando as chuvas se vão, dois ou três meses depois, haverá uma seca severa no mesmo lugar.

P. - Estamos falando sobre o Rio Grande do Sul, um estado que tem tradição agrícola. Qual é o papel do uso histórico do solo nesse tipo de evento climático extremo?

R. L. - As mudanças climáticas têm gerado eventos extremos com frequência muito maior. Eventos hidrológicos extremos, que costumavam acontecer uma vez a cada cem anos, agora estão acontecendo uma vez a cada dez anos. Isso é chamado de período de retorno.

Então, o período de retorno de tempestades aumentou, tanto a intensidade quanto a frequência. A agricultura e a urbanização intensa e pesada desempenharam um papel e intensificaram muito mais a tragédia.

Mas a agricultura pode ser uma solução, se feita corretamente. Deixar o solo absolutamente nu com a superfície arada causa uma tragédia muito maior. Quando o solo tem cultivo de cobertura [que pode ser com folhas ou serragem], o impacto das chuvas é suavizado. A agricultura de conservação com cultivo de cobertura, rotação múltipla, agrofloresta é a solução.

P. - Pensando ainda no Rio Grande do Sul, é possível realizar uma agricultura resiliente a eventos climáticos extremos?

R. L. - Existem vários componentes disso, como a agricultura de conservação, sem arar, deixar os resíduos da cultura no solo; fazer o cultivo de cobertura, para que o solo esteja sempre protegido. É através do solo coberto que a água irá infiltrar, não criar uma inundação. Isso é uma agricultura resiliente ao clima.

Isso significa que os agricultores terão que deixar o resíduo no solo. É mais caro. Outro foco deve ser aumentar a eficiência de fertilizantes, isso é agricultura resiliente ao clima. Escolher espécies, o sorgo é tolerante à seca. O milheto é tolerante à seca. O arroz não é. O trigo não é.

P. - O sr. visitou o Brasil pela primeira vez em 1975. Quais mudanças observou na agricultura brasileira nesses quase 50 anos?

R. L. - Entre 1975 e agora, a produção da agricultura brasileira subiu feito um foguete. É uma grande história de sucesso. O Brasil era um importador de alimentos, agora é um exportador mundial. É uma potência da agricultura. A agricultura do cerrado se tornou algo que todos comentam.

Como cientista do solo e agrônomo, sinto orgulho da agricultura no Brasil. Os solos do cerrado que visitamos naquela época eram estéreis, sem produção, tinham baixo pH, baixo fósforo, baixo cálcio, sem magnésio. Todos pensavam que esses solos eram improdutivos. Mas colocaram cal e fósforo, e a produção aumentou tremendamente.

P. - O sr. destaca no seu trabalho a importância das pequenas propriedades. No Brasil, o avanço da agricultura nas últimas décadas é associado às grandes propriedades e indústrias agrícolas. Qual o papel das pequenas?

R. L. - Nós temos globalmente cerca de 500 milhões de pequenos produtores. Eles têm menos de dois hectares cada, mas produzem um terço do total de grãos para alimentação no mundo. É a agricultura de larga escala, como a do cerrado e do Meio-Oeste dos EUA, que é orientada para a exportação. Os produtores de pequena escala produzem para suas famílias, e um pouco do excedente para a venda. Não exportam muito. Apesar disso, a agricultura brasileira pode ser aplicada aos pequenos produtores.

É uma questão de se eles têm os recursos. Por exemplo, pedimos para deixar cobertura da colheita no solo para que haja uma boa infiltração de água. Eles retiram a cobertura da colheita para alimentar o gado. Eles não têm uma semeadora que possa plantar em um campo não arado.

Mencionei recentemente a agricultura de carbono. Se os pequenos agricultores puderem fazer uma agricultura semelhante, e forem compensados com créditos de carbono, eles podem produzir o mesmo que o cerrado.

P. - Qual o principal desafio hoje para a segurança alimentar no mundo?

R. L. - O mundo hoje enfrenta vários desafios: aquecimento global, degradação do solo, escassez de água, desequilíbrio hídrico, emissão de gases de efeito estufa, pobreza, insegurança alimentar, muito uso de energia. A agricultura sendo responsável por um terço de todas as emissões de gases de efeito estufa. Estes são os desafios que o mundo enfrenta, e a agricultura é uma parte importante disso.

A prioridade futura não é tanto produzir mais, já estamos produzindo o suficiente. [É preciso] reduzir o desperdício. Um terço de toda a comida produzida globalmente é desperdiçado. Se de alguma forma pudermos evitar o desperdício de alimentos, não precisaremos produzir mais.

A segunda parte é: podemos produzir mais com menos? Menos fertilizantes, menos pesticidas, menos arado, menos uso de energia.

Outro desafio é que nossa agricultura utiliza 70% de toda a água usada por humanos. Países como o Brasil usam irrigação por aspersão na maioria das vezes. Alguns países usam irrigação por sulcos, alguns usam por inundação.

Deveríamos usar irrigação e fertilização por gotejamento. O pequeno tubo de plástico enterrado no solo, com furos, e a água e o fertilizante saem desses furos, gota a gota. Isso economiza muita água. Temos que economizar água com o sistema de gotejamento, que não é muito conveniente, mas a tecnologia está disponível.

Na conservação do solo, não arar. Então, essas são algumas das melhorias na agricultura que precisam acontecer. Eu honestamente acredito que mudanças significativas acontecerão [na agricultura] entre agora e 2050.

P. - Quais mudanças acha que acontecerão?

R. L. - Agricultura de precisão, inteligência artificial, plantas se comunicando com o agricultor através de sinais moleculares [identificados por sensores]. Mudanças significativas acontecerão em grandes cidades.

Até 2100, o número de megacidades [com mais de 10 milhões de habitantes] será próximo de 90. Uma cidade de 50 milhões de pessoas será comum, e vai requerer 30 mil toneladas de alimentos por dia. A agricultura urbana se tornará muito importante. Agricultura em estufas, grandes estruturas de estufas.

As cidades terão arranhas-céus feitos de vidro para cultivar alimentos. Usando aeroponia, hidroponia, cultura de areia. Então, tomate, pepino, alface, aipo, morango, a mercearia verde acontecerá sem solo. Essa cultura sem solo se tornará mais comum. O planejamento urbano terá produção de alimentos dentro dos limites da cidade.

P. - É acessível para países em desenvolvimento ou pobres?

R. L. - A agricultura urbana será o futuro. Singapura está produzindo muitos de seus alimentos verdes dentro dos limites da cidade.

P. - No Brasil, a atividade agrícola muitas vezes é retratada como a vilã da crise climática por causa do desmatamento.

R. L. - Bem, a agricultura tem sido um problema. Desde o início, há 10 mil anos, a quantidade total de carbono emitido pela agricultura é de cerca de 550, 600 gigatoneladas. Mas, de 1750 até agora, o total da queima dos combustíveis fósseis é de cerca de 450 gigatoneladas.

A agricultura tem que ser uma solução porque não podemos viver sem ela. Estou um pouco preocupado que se dê muita publicidade à agricultura como um problema. Eu respondo a isso: sim, mas se acha que ela está causando esse problema, deixe de comer. Não comer não é uma solução. Todo mundo precisa comer.

Então, se pudermos reduzir o desperdício, se pudermos adotar plantas geneticamente modificadas —as pessoas têm objeções sobre isso, eu não tenho. Produzir mais com menos, isso será a agricultura. E devolver alguma terra para a natureza. Como parte da floresta amazônica que foi degradada.

Os Himalaias que foram desmatados. Quando as pessoas dizem que a África deveria aumentar sua área de terra [cultivada], não! Seu rendimento por hectare é tão baixo. Eles deveriam melhorar o rendimento por hectare.

P. - Em quais partes do globo a experiência brasileira na agricultura poderia ser replicada?

R. L. - Eu vivi na África por 20 anos. Acho que o Brasil, Índia e a África eram muito semelhantes nos anos 1960. Se você olhar para o rendimento total das safras e o uso de fertilizantes e irrigação, todos eram muito iguais. Mas a África permaneceu a mesma. Então, eu acho que é onde a cooperação Sul-Sul, onde a experiência de Brasil, Índia e China poderiam trabalhar juntas e mostrar à África o que pode ser feito.

A outra parte é que a comida de melhor qualidade é realmente um problema. Que tal cultivar mais feijões? Grão-de-bico, feijão-caupi, feijão-mungo e feijão-azuki. Há mais proteína neles. A agricultura não está focando na qualidade nutricional, na comida de alta qualidade. Esse é o ponto.

P. - No Brasil, existe uma crítica sobre uso intensivo de pesticidas.

R. L. - Quando o solo está saudável, tem alto teor de matéria orgânica e uma biodiversidade muito alta. Assim como pessoas saudáveis são mais imunes a doenças, quando o solo está saudável, ele é imune a doenças. O uso de pesticidas pode ser muito menor.

Precisamos deles, mas não tanto. Quando você tem dor de cabeça, toma uma aspirina. Mas [tomar] cem aspirinas não é certo. Da mesma forma, os fertilizantes devem ser usados como remédio.

RAIO-X

Rattan Lal, 79

Nascido no Punjab, imigrou com a família para a Índia após a criação do Paquistão. É considerado uma das maiores autoridades em ciências do solo do mundo, tendo recebido o Prêmio Mundial da Alimentação em 2020. É professor da Universidade de Ohio, nos Estados Unidos, e atua como embaixador da boa vontade do Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura.


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