BELÉM, PA (FOLHAPRESS) - Catherine Wolfram é a pessoa por trás da coalizão criada na Cúpula do Clima, em Belém, para discutir a criação de um mercado global de carbono. Foi ela a responsável por liderar um estudo que modelou como esse mecanismo funcionaria e por apresentar o tema a acadêmicos e executivos de alguns dos países que assinaram a declaração.
Nos bastidores, a hoje professora do MIT (Massachusetts Institute of Technology) é mencionada como uma das mais determinadas em desenvolver tal mercado, onde países-membros fixariam um valor comum por tonelada de carbono para suas empresas e cobrariam um imposto para mercadorias vindas de países de fora da coalizão.
Ela foi apresentada a membros do governo brasileiro pelo executivo Marcelo Medeiros, um dos fundadores da empresa de reflorestamento Re.green. Desde então, mantém contato frequente com eles.
olfram esteve em Belém na sexta-feira (7) e no sábado (8), para participar de um evento sobre o tema. Na próxima quinta (13), ela volta à cidade para mais um encontro dessa vez com secretários do Ministério da Fazenda, pasta responsável pela concepção do instrumento dentro do governo brasileiro.
À Folha, Wolfram celebrou a adesão de China e União Europeia à coalizão e disse que agora o objetivo é trazer a Índia, a quarta maior emissora de gases de efeito estufa na atmosfera. Ela também afirmou que um mercado global de carbono como se espera deve começar apenas na próxima década, quando detalhes técnicos e políticos estiverem resolvidos.
Leia a entrevista abaixo.
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*Folha - Qual é a importância de China e a União Europeia terem aderido à coalizão?*
*Catherine Wolfram -* É enorme, eles representam 40% das emissões globais. Isso enfatiza o ponto que um pequeno número de países, se forem emissores importantes, pode ter progressos em relação ao clima.
*Folha - O formato que você criou tem 22 países, mas só oito, além da UE, aderiram. O que faltou?*
*Catherine Wolfram -* A forma como estruturamos a coalizão foi baseada nos países que estavam representados no grupo de trabalho. Então, não foi nossa melhor estimativa de como seria a coalizão final. Mas acredito que haverá mais países africanos, incluindo aqueles que modelamos como parte de nossa coalizão. Além disso, me explicaram que a Índia tende a analisar e não a aderir imediatamente. Mas eu não daria muita importância aos países que estão lá agora, ainda estamos no início, e é preciso muito trabalho diplomático para trazer mais países.
*Folha - Algum país que ainda não entrou na coalizão é essencial para que ela seja eficiente?*
*Catherine Wolfram -* Eu diria a Índia, mas ainda há tempo para eles assinarem. A Índia é um grande país, uma grande economia e um grande emissor, está entre os quatro maiores emissores.
*Folha - Você vê resistência dos indianos?*
*Catherine Wolfram -* Não uma resistência específica. Sei que a Índia tem resistido ao CBAM (taxação de carbono da UE a produtos importados) e que o país está muito empenhado em garantir que os níveis de financiamento climático sejam adequados. Então, talvez eles vejam isso como um desvio, mas eu não sei. Não posso falar pelo governo indiano.
*Folha - Com a coalizão formada, o que agora será feito?*
*Catherine Wolfram -* A coalizão será importante como um veículo para construir confiança, para que os países entendam quais são as políticas de carbono uns dos outros, mas também há trabalho técnico a ser feito. Por exemplo, precisamos pensar em como comparar os países que têm precificação de carbono implementada para um mercado de carbono e aqueles que têm uma política de preço implementada apenas com imposto ou taxa. Pessoas como eu terão muito trabalho.
*Folha - Se tudo der certo, quando veremos um mercado global de carbono em operação?*
*Catherine Wolfram -* Honestamente, acho que estamos a pelo menos vários anos de distância.
*Folha - Então não estamos falando de algo até 2030?*
*Catherine Wolfram -* Isso provavelmente é um pouco ambicioso, mas não acho que até 2035 esteja fora de possibilidade. Acho que há muitas coisas que podemos fazer antes de chegar a esse passo. E uma coisa de que falamos no relatório é essa ideia de reconhecimento mútuo, onde não estamos realmente negociando licenças de carbono uns com os outros, mas estamos reconhecendo diferentes preços de carbono.
*Folha - É natural que os membros da coalizão queiram ajustar algo no formato que você propôs, mas existe algum ponto específico que, se mudado, pode diminuir a eficiência desse mercado?*
*Catherine Wolfram -* Não acho que a eficiência seja o único objetivo. Acho que a justiça também é um objetivo importante. Por isso, modelamos esse preço graduado, para que os países pudessem se juntar à coalizão com níveis mais baixos de preços de carbono se tivessem níveis mais baixos de renda. Outra coisa importante é que, além da precificação de carbono, a coalizão pode querer pensar em financiamento climático, como apoiar a descarbonização do aço em países de baixa e média renda.
*Folha - A taxação para países de fora da coalizão também é um dos pontos que não deveriam ser alterados?*
*Catherine Wolfram -* Não acho que tenha que ser a primeira coisa que a coalizão faça, mas acho que se torna uma maneira importante de nivelar o campo de jogo. Se os membros da coalizão estão precificando as emissões de carbono, então eles não querem competição de fábricas fora da coalizão que não enfrentam as mesmas regulamentações sobre as quais estamos falando.
*Folha - Ano que vem, o Brasil tem eleições. Você acredita que esse mercado global de carbono pode se desfazer se houver mudança de governo no país?*
*Catherine Wolfram -* O Congresso já aprovou a criação de um mercado de carbono no Brasil, e enquanto o país tiver essa legislação em vigor, ele estará na coalizão. Mas se o governo mudar, o país pode ter menos liderança na governança da coalizão.
*Folha - É bem provável que haja pressões externas contrárias a esse mercado, vindas por exemplo de Donald Trump. Como você acredita que deve ser a reação dos países da coalizão a essas críticas?*
*Catherine Wolfram -* Na modelagem que fizemos, mesmo estando fora da coalizão, os EUA se beneficiam da existência dela, porque os americanos têm uma produção bastante limpa e um mundo onde há mais precificação de carbono é um mundo que recompensa a produção limpa. Por isso, em termos puramente econômicos, Trump não deveria se opor à coalizão. Pode haver fatores além da economia que influenciam Trump, como a cultura, mas, de qualquer forma, ele não tem controle sobre regulamentações dos países, ainda que ele possa fazer muito barulho.
*Folha - Um dos temas de discordância dentro da coalizão é sobre se as empresas poderão compensar suas emissões com créditos de carbono florestais. A Europa é reticente, mas o Brasil não se opõe. Você enxerga algum modelo em que um país aceite um tipo de compensação e outro não?*
*Catherine Wolfram -* Eu não vejo isso acontecendo e a razão é porque, se o Brasil aceitar compensações, então as compensações provavelmente terão preços muito baixos e isso levará o preço do mercado de carbono no Brasil para um valor muito baixo. E assim o Brasil não chegará ao preço adequado para se juntar à coalizão. Então, acho que precisa haver um consenso sobre isso.
*Catherine Wolfram, 58*
Professora na MIT Sloan School of Management, foi subsecretária adjunta para Economia Climática e Energética no Departamento do Tesouro durante o governo de Joe Biden. Também já foi professora assistente de economia em Harvard. Seus principais trabalhos tratam sobre energia e precificação de carbono.

