Uma nova espécie de peixe cavernícola descrita por pesquisadores nos Estados Unidos chamou atenção pela aparência incomum e pela raridade. Batizada de Demogorgonichthys arcanus, ou peixe-demônio das cavernas, ela foi encontrada na Caverna Bobcat, perto de Huntsville, no Alabama.
O local já era conhecido por abrigar o camarão-das-cavernas-do-Alabama, ameaçado de extinção, duas espécies de lagostins e o peixe-das-cavernas-do-sul. Era isso que o pesquisador Matthew Niemiller esperava encontrar quando explorou o sistema de cavernas no ano passado. O que apareceu, porém, foi um animal desconhecido pela ciência.
O peixe não tem olhos nem qualquer pigmentação. Sob a pele translúcida, é possível enxergar o cérebro. Apresenta ainda uma corcunda, raios espinhosos e um formato de focinho diferente do de outras espécies de peixes cavernícolas.
Da caverna ao laboratório
Niemiller, professor associado de ciências biológicas da Universidade do Alabama em Huntsville, contou que a experiência o deixou desconfiado. Segundo ele, ao longo dos anos já foi enganado por peixes que pareciam distintos, mas se mostraram geneticamente muito próximos. Nesse caso, as diferenças se mantiveram consistentes.
Ele enviou fotos ao pesquisador Jonathan Armbruster, curador de peixes do Museu de História Natural da Universidade de Auburn, e à professora Pamela Hart, da Universidade do Alabama, ambos coautores do estudo. A equipe realizou tomografias computadorizadas, testes genéticos e outras análises, que revelaram esqueletos diferentes dos de qualquer animal já identificado na caverna. A partir daí, o grupo descreveu não apenas uma espécie nova, mas um novo gênero. O trabalho foi publicado em 6 de julho na revista Scientific Reports.
Armbruster observou que a transparência em si não é tão rara: costuma aparecer em peixes pequenos que vivem em águas abertas e usam o corpo transparente como camuflagem em águas cristalinas.
Por que o nome faz referência à série
Em Stranger Things, um monstro chamado Demogorgon assombra a cidade fictícia de Hawkins, no estado de Indiana. A origem da palavra é incerta: alguns estudiosos apontam raízes gregas, e o termo foi adotado como nome de um vilão no jogo Dungeons & Dragons, lançado nos anos 1970. Décadas depois, a Netflix o resgatou para a série.
Fã antigo da produção, Armbruster sugeriu a homenagem quando o peixe foi descoberto, período em que a série se preparava para lançar mais uma temporada. Ele explicou que é difícil encontrar nomes descritivos para um animal branco e sem olhos, e que muitos organismos de cavernas acabam recebendo nomes ligados a criaturas subterrâneas.
Muita coisa ainda é desconhecida
Os pesquisadores não conseguem diferenciar machos de fêmeas nem sabem como a espécie se reproduz. Quanto à alimentação, Armbruster avalia que o peixe provavelmente come tudo o que couber em sua boca.
Também não há estimativa segura de população. Na última visita à Caverna Bobcat, Niemiller contou 27 exemplares, número que provavelmente não representa o total. Segundo ele, a espécie é conhecida em um único local e deve ter uma população muito pequena, o que a colocaria entre os peixes mais raros do mundo.
A bacia de recarga da caverna, que influencia a quantidade e a qualidade da água subterrânea que entra no sistema, é muito pequena, o que indica que o animal provavelmente está criticamente ameaçado. Ainda assim, Armbruster considera bastante improvável que a espécie desapareça, já que existem medidas de proteção da qualidade da água na região.
Outras espécies podem estar escondidas
O estudo aponta que a descoberta sugere a existência de outras espécies ainda não identificadas, mesmo em áreas bastante estudadas. Terrenos de acesso restrito podem servir de refúgio: a Caverna Bobcat fica sob o Arsenal Redstone, do Exército dos Estados Unidos.
Suzanne McGaugh, professora da Universidade de Minnesota que estuda a evolução dos peixes cavernícolas, classificou como extremamente raras as descobertas de novas espécies de vertebrados norte-americanos. Ela destacou ainda o fato de duas espécies de peixes de caverna conviverem no mesmo ambiente tendo evoluído a partir de ancestrais diferentes.
Para Armbruster, organismos cavernícolas funcionam como indicadores ambientais, à maneira dos canários usados em minas de carvão: a queda das populações pode sinalizar contaminação da água subterrânea. Ele acrescentou que compreender a biodiversidade do planeta é parte da garantia da própria sobrevivência humana.



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