Diante da admiração, Baskerville confessa que há duas décadas sonhava levar Anjo de Pedra aos palcos. "É uma peça em que mesmo os personagens secundários têm grande importância e se tornam agentes dos acontecimentos", defende, mais uma vez, a preferência. Pouco cultuada, a obra ganhou raras montagens brasileiras. As principais delas foram protagonizadas por Cacilda Becker, em um distante 1950, e por Nathalia Timberg, dez anos depois. Em São Paulo, a peça foi vista em 2011, com pouca repercussão, sob a direção de Inês Aranha, tendo Rosana Maris e Rui Ricardo Diaz nos papéis principais.
A adaptação de Anjo de Pedra assinada por Baskerville e Luis Marcio Arnaut quebra esse jejum no Tucarena em uma temporada que se estende até 15 de maio. O elenco de oito atores é formado por Sara Antunes, Ricardo Gelli, Chris Couto, Kiko Marques, Carolina Borelli, Luiza Porto, Selma Luchesi e Thomas Huszar. "Levantamos o espetáculo apoiados na multiplicidade das ideias de cada um porque essa imagem do diretor como o dono da verdade ficou para trás, não pode existir mais no teatro", declara Baskerville.
ALIENAÇÃO
A trama é ambientada no verão de 1916. Filho de um médico, John Buchanan Jr. (interpretado por Gelli) segue os passos do pai e, nas férias da faculdade, visita sua cidade. É um sujeito mundano, aberto aos prazeres da vida, o oposto de Alma (papel de Sara), sua vizinha. Criada sob as rédeas de um pai autoritário, o pastor Winemiller (vivido por Marques), a jovem é apaixonada pelo rapaz desde criança e cresceu sem oportunidade de fazer sua voz ouvida. Sua mãe (representada por Chris), tida como louca, é outra vítima da opressão e se alienou em um mundo particular.
Para o diretor, o projeto se concretiza na hora certa, ressignificado por conta da pandemia e dos debates feministas e religiosos. "John e o pai dele tentam isolar um vírus que espalharia a gripe espanhola e mataria milhões de pessoas e existe um paralelo sobre o quanto a fé pode privar as pessoas de liberdade", compara. Baskerville buscou uma leitura social e antropológica, analisando a origem dos personagens e o efeito disso em suas vidas. "O perigo é tratar Alma e John como uma história de amor que não deu certo e não é nada disso. O amor deles jamais seria concretizado por causa dessas diferenças", afirma o dramaturgo.
O ator Ricardo Gelli se desafia na quinta incursão ao universo de Tennessee Williams. Ele participou de Rosa de Vidro (2007), versão de João Fábio Cabral para À Margem da Vida, Essa Propriedade Está Condenada e Por Que Você Fuma Tanto, Lily?, duas peças reunidas no projeto Propriedades Condenadas (2014), e, mesmo que não tenha estreado por problema de agenda, ensaiou A Catástrofe do Sucesso (2019). "Eu levo tudo o que estudei para o John porque Tennessee cria os personagens a partir de projeções biográficas", explica. "O John é o sonho americano realizado, só que ele não queria esse sonho, então virou um cara limítrofe, à beira do abismo."
CONEXÕES. Sara Antunes, por sua vez, estabelece conexões entre Alma e momentos marcantes de sua carreira, como os espetáculos Hysteria (2002), do Grupo XIX de Teatro, e As Meninas (2009), texto de Maitê Proença e Luiz Carlos Góes dirigido por Amir Haddad.
"Temos mais uma mulher enclausurada por uma sociedade doente e é curioso como eu, enquanto artista, rodo, rodo e acabo ligada a projetos coletivos que expressam minhas pesquisas individuais", reconhece a atriz.
O final de Alma nesta encenação sugere diferentes entendimentos e, segundo Sara, se torna mais contemporâneo e libertário. A atriz garante que, durante o processo, lutou muito para ampliar essa visão, e Baskerville, de ouvidos abertos, endossou a contribuição. "Existe uma tendência do Tennessee de castigar as personagens femininas, como se fosse um recado para as mulheres: não faça isso porque pode acontecer com você a mesma coisa", afirma o diretor. "Acho que o papel do encenador é rever questões assim e adaptá-las para o mundo de hoje."
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.



