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Pão-folha, conhaque histórico e novos vinhos embalam viajantes na Armênia

Por Folha de São Paulo

13/06/2024 16h00 — em
Variedades



IEREVAN, ARMÊNIA (FOLHAPRESS) - A meio caminho entre a Europa e a Ásia Ocidental, encravada entre grandes impérios —russos, turcos e persas—, a Armênia desponta no Cáucaso como uma joia ainda não totalmente lapidada para o turismo.

Com um fluxo constante de visitantes de descendentes da diáspora armênia, o país também atrai, e cada vez mais, viajantes interessados em pular as filas e fugir das lotações que se tornaram as grandes cidades turísticas da Europa.

Ninguém vai estranhar sua capital, Ierevan, pois é uma cidade tipicamente europeia, com largas avenidas, passeios públicos, praças e calçadões repletos de gente local e de turistas.

Como nas grandes capitais iluminadas do continente à Oeste, sair à noite em Ierevan é topar com centenas de pessoas nos bares, lojas e restaurantes, onde se come o lavash, pão-folha armênio, acompanhado de pastas, como as árabes, e espetos grelhados.

A comida, de fato, é um ponto alto do país e pede exploração. Há o lahmajun, que os locais chamam de pizza armênia por ser uma grande massa fina e redonda. Mas, coberta com carne e temperos, está mais para uma de nossas esfirras do que para uma criação napolitana.

Carnes marinadas de boi, porco e frango preenchem os espetos, e não deixe de conhecer essas duas massas: o khinkali, uma trouxinha recheada de carne, para pegar com a mão, e chupar o líquido do interior; e o mantã, espécie de pequeninos capeletti abertos e crocantes.

Todo lugar serve a kompot, uma espécie de suco com grandes pedaços de frutas cozidas. Há inúmeros sabores, como pêssego, marmelo, morango, cereja etc.

Diz-se que o inglês Winston Churchill só tomava o conhaque Ararat, marca mais famosa do país e uma das melhores do mundo, cuja fábrica em Ierevan você pode visitar.

O monte Ararat, aliás, onde religiosos acreditam que a arca de Noé, com um par de todos os animais do mundo, ancorou após 40 dias e 40 noites de tempestades, é o símbolo máximo do país.

Porém, desde que a República da Armênia foi fundada, em 1918, ele só pode ser vislumbrado pelos cidadãos, uma vez que ficou em território turco após o esfacelamento do Império Otomano com a Primeira Guerra Mundial.

Ao lado da ópera e dos jogadores de xadrez nos parques da cidade, pode-se subir o Cascade, um monumento de 570 degraus de onde se vê os dois impressionantes picos do Ararat, um a uma altura de 5.137 metros e o outro a 3.896.

Mas atenção a essa dica: o Cascade possui escadas rolantes escondidas e qualquer um poderá utilizá-las para subir do parque abaixo, onde estão esculturas de Botero, até o pavimento superior.

Lá de cima, vemos o monte a apenas 36 km de distância, mas a fronteira com a Turquia é fechada e seria necessário ir à Georgia e entrar por ali. A relação com a vizinha Turquia é turbulenta.

Entre 1915 e 1923, os turcos foram responsáveis pelo Genocídio Armênio, que matou entre 800 mil e 1,8 milhão de pessoas e espalhou refugiados por todo o mundo, na chamada diáspora armênia —inclusive no Brasil, onde hoje vivem algo entre 40 mil e 100 mil descendentes.

Também é conflituosa a relação com o vizinho do leste, o Azerbaijão, que receberá a COP 29 neste ano, a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas. No ano passado, o Azerbaijão invadiu um enclave em seu território onde viviam 120 mil armênios e os expulsou com a roupa do corpo.

Vale lembrar que a Armênia foi uma das repúblicas socialistas soviéticas de 1920 a 1991, quando conseguiu sua independência e optou pela democracia. Por causa disso, é mais comum que as pessoas na rua falem russo como segunda língua, mas atualmente é possível se virar com o inglês mesmo.

Já a língua armênia é bem peculiar, com um alfabeto único e próprio, criado por um monge local no ano 405. Boa notícia é que, além do tradicional conhaque Ararat, os vinhos melhoraram demais nos últimos anos e uma garrafa de tinto local, por menos de R$ 100, é ideal para acompanhar os jantares.

Pequenas vinícolas próximas a Ierevan abrem a cada ano ao enoturismo. Nelas, você será servido pelo dono enquanto presencia os vinhedos ensolarados e vai almoçar uma refeição típica normalmente feita por sua mulher.

Saindo da capital em direção ao sul do país, há uma série de atrações, como as cavernas de Areni. Ali foi encontrado o sapato mais antigo do mundo, e ela está aberta à visitação. Já o sapato, de 3.500 a.C., está em exposição no excelente Museu de História da Armênia, no centro de Ierevan.

As cavernas do país foram locais de residência do povo armênio por muito tempo, e não estamos falando do "tempo das cavernas". Em Khndzoresk, o turista pode visitar dezenas delas em um penhasco, muitas escavadas pelo homem, que começaram a ser esvaziadas apenas nos anos 1950 a mando das autoridades soviéticas.

As famílias construíram casas no alto do morro e ainda vivem por ali. Para chegar lá, é preciso atravessar uma ponte pênsil de 150 metros em um desfiladeiro com um pequeno fio d’àgua abaixo. Sustentada por cabos de aço, a ponte balança e diverte.

Falando em autoridades soviéticas, uma das visitas mais interessantes a se fazer no sul do país é o radiotelescópio espacial de Orgov, na encosta do monte Aragats. É um lugar incrível, pois parece que os cientistas que ali trabalhavam foram tomar um café em 1991 e, com o derretimento da URSS, não voltaram mais.

Fundado em 1975, o local mantém as estações de controle do radiotelescópio e outras imensas maquinarias atrás de vidros quebrados e cadeiras jogadas. Em toda mesa você encontra papeis, documentos, desenhos técnicos e mesmo tiras de papel perfuradas pelos antigos computadores do passado.

A alguns quilômetros dali, está o complexo astronômico Byurakan, que possui seis telescópios altamente defasados, um deles inaugurado em 1961 por Nikita Kruschev, então líder da União Soviética. Defasados, mas operacionais, e toda noite estrada lá estão as lentes esquadrinhando o céu, contou o astrofísico Viktor Ambartsumian.

E com tantas igrejas e mosteiros antigos, vale visitar o Monastério de Tatev, que, na Baixa Idade Média, funcionou como uma universidade, ensinando ciências, filosofia e religião.

Tão interessante quanto estar, no entanto, é chegar lá: em 2010, foi construído um bondinho que sai de Halidzor e segue por quase seis quilômetros, atravessando dois vales a uma altura de até 320 metros.

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O jornalista viajou a convite da UGAB Brasil (União Geral Armênia de Beneficência)


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