Início Variedades Pacto global deve falhar em metas para reduzir poluição plástica até 2025
Variedades

Pacto global deve falhar em metas para reduzir poluição plástica até 2025

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A substituição de embalagens de plástico virgem por aquelas com material reciclado ou reutilizável não deve acontecer até 2025. Além disso, quase metade das empresas globais (42%) ainda não adotou medidas com essa finalidade. É o que mostra um relatório produzido pela Fundação Ellen MacArthur e o PNUMA (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente).

Outro alarme é o crescimento no uso de plástico virgem, que apresentou queda entre 2018 e 2020, mas frustrou expectativas ao retomar no ano passado o patamar de 2018.

O Compromisso Global por uma Nova Economia dos Plásticos foi firmado naquele ano com 500 instituições, governos e organizações não governamentais e as grandes empresas, que somam metade dos signatários e representam um quinto do plástico fabricado no mundo.

O objetivo conjunto é combater a poluição plástica por meio da reciclagem e da permanência do material já fabricado nas cadeias produtivas e de consumo, proposta que vem da economia circular. Uma das formas de manter esse plástico em circulação está na meta que pretendia ter 100% das embalagens no mercado feitas de materiais recicláveis ou reutilizáveis até 2025.

A parcela de materiais desse tipo era de 63,2% em 2019, mas os pequenos incrementos de sua participação, que chegaram a 65,4% em 2021, não devem ser suficientes para que seja cumprido o objetivo daqui a três anos.

Embora a meta principal do compromisso esteja se tornando inviável até 2025, a quantidade de resina reciclada usada passou de 4,8% para 10% entre os signatários, o que é um avanço na visão de Thais Vojvodic, gerente da iniciativa Nova Economia do Plástico na Fundação Ellen MacArthur.

Em entrevista à Folha, a especialista afirma que há dois principais entraves para os objetivos propostos. Um deles é a dificuldade técnica de reciclar plásticos flexíveis, justamente aqueles utilizados em embalagens, como sachês de molhos e embalagens de chocolates.

O outro é a infraestrutura deficitária para a coleta e o processamento em escala das embalagens. "Não adianta ser tecnicamente reciclável. Nossa definição de reciclabilidade é que haja evidência de que existe infraestrutura para a reciclagem em escala", afirma Thais.

"Por volta de 16% das embalagens que as empresas colocam no mercado são flexíveis. Não existe avanço suficiente para que até 2025 haja um plano concreto para que elas sejam recicláveis."

Já a presença do plástico virgem nas embalagens, verificada em MMT (milhões de toneladas métricas), também é alarmante. Embora tenha havido uma pequena queda até 2020, as embalagens com o material voltaram a 11,9 MMT no ano passado, o mesmo de 2018.

Para chegar à meta de 9,5 MMT em 2025, seria necessária uma redução de 5,4% deste ano em diante, o que não deve acontecer.

"Existe uma tendência grande de utilização de plástico reciclado, o que tende a reduzir a quantidade de plástico novo que precisa ser produzido. Mas esse crescimento não está sendo suficiente", diz Thais.

Ela explica que há uma tendência entre os signatários do compromisso para o uso de plástico reciclado, mas que isso não supera o volume produzido por grandes empresas.

Essa participação do plástico reciclado tem aumentado desde 2018, mas precisa crescer a um ritmo de 27% ao ano para chegar à meta de 2025, de 26% de reciclados em relação a todas as embalagens plásticas usadas.

Para a gerente, o mercado e os governos precisam avançar em decisões mais ousadas que transformem cadeias e modelos de produção, distribuição e consumo. A retomada do uso de plásticos se confunde com a retomada de atividades após as restrições mais severas impostas pela pandemia de Covid, como no setor de restaurantes.

Mas ela atribui o aumento também aos modelos atuais de negócio. "É preciso desassociar o crescimento de negócios e o de plásticos únicos. Precisamos de ações mais ambiciosas em relação a como as empresas entregam seus produtos."

Algumas fabricantes de bebida, como Coca-Cola e PepsiCo, que são signatárias do compromisso, anunciaram compromissos públicos com embalagens reutilizáveis. A prática, segundo o relatório, pode gerar uma tendência entre outras empresas.

Além disso, ações conjuntas poderiam fazer a reciclagem ganhar escala, como estruturas comuns entre as empresas para lavagem das embalagens, ainda um piloto.

Thais também destaca o papel de governos, que somam 50 dos signatários, que poderiam atualizar suas legislações para promover políticas com os conceitos de economia circular e com leis e programas de incentivo fiscal.

Hoje há apenas projetos, e, para a especialista, "compromissos voluntários não são suficientes". O Brasil ainda precisa investir em infraestrutura de coleta --hoje com grande participação de catadores-- e processamento, o que permitiria de fato o aumento da reciclagem.

O país deve se juntar a outros para definir os rumos da reciclagem em novembro, quando começa a ser negociado no Uruguai o Tratado Global dos Plásticos, previsto para 2024.

Siga-nos no

Google News
Quer receber todo final de noite um resumo das notícias do dia?