SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Quem tem viagem marcada para as próximas semanas enfrenta uma dúvida: é seguro viajar em meio a tantos casos de coronavírus? A OMS (Organização Mundial da Saúde) declarou nesta quarta (11) que há uma pandemia do novo coronavírus em curso no mundo. "Nas últimas duas semanas, o número de casos de covid-19 fora da China cresceu 13 vezes e o número de países afetados triplicou. Há agora mais de 118 mil casos em 114 países e 4.291 pessoas perderam suas vidas", disse o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus. Em seguida, ele afirmou que a previsão é que esses números cheguem a níveis ainda mais altos nas próximas semanas. Além da China, os países mais afetados pela doença são Itália, Irã, Coreia do Sul, França e Espanha. O Brasil tem 98 casos confirmados até esta sexta (13), segundo o Ministério da Saúde. O maior número ocorre em São Paulo, onde há 56 casos de covid-19 confirmados até o momento. Também registram casos: Rio de Janeiro (16), Paraná (6), Rio Grande do Sul (4), Goiás (3), Santa Catarina (2), Bahia (2), Minas Gerais (2), Pernambuco (2), Espírito Santo (1), Alagoas (1), Rio Grande do Norte (1) e Distrito Federal (2). Além do possível contato com portadores da doença durante os passeios, quem viaja fica sujeito a algumas horas de transporte em espaço confinado com outras pessoas. Seja em avião, ônibus, trem ou cruzeiro, o isolamento aumenta o risco de um possível contágio. Em 26 de fevereiro, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, disse que as pessoas devem avaliar a necessidade de viajar para países com muitos casos da doença e que não há como fechar fronteiras em um mundo globalizado. "A regra continua sendo a mesma: se você tem sintomas como febre, é melhor não viajar", disse. "Se está vindo de áreas como a Europa e a China e tiver tosse, coriza, febre, procure uma unidade de saúde. A letalidade observada para o novo coronavírus, de acordo com dados tabulados pela Universidade Johns Hopkins até esta terça (10), é de 3,6%. Mas essa taxa é provavelmente menor, já que estão fora da conta os casos assintomáticos e casos leves não diagnosticados (e confundidos com uma gripe comum, por exemplo). Os maiores afetados, até o momento, têm sido idosos e pessoas com problemas de saúde que comprometam o sistema imunológico. A forma de se proteger do vírus é evitar o contato com pessoas que têm a doença, evitar tocar os próprios olhos, nariz e boca, lavar as mãos com frequência e cobrir a boca e o nariz quando for espirrar. O vírus não é transmitido pelo ar, mas por meio das secreções da pessoa doente. O uso de máscaras de proteção não é indicado se não houver sintomas da doença, já que sua principal função é evitar que uma pessoa doente contamine outras ao tossir ou espirrar, por exemplo. Veja abaixo perguntas e respostas sobre o coronavírus em viagens. DEVO CANCELAR UMA VIAGEM POR CAUSA DO CORONAVÍRUS? Depende. A recomendação do Ministério da Saúde é avaliar se a viagem para locais com muitos casos da doença, como a China e a Itália, é mesmo necessária. Na sexta (13), o ministério enviou um informe às autoridades regionais recomendando que eventos em massa sejam cancelados ou adiados. Também orientou o adiamento de cruzeiros turísticos e que viajantes internacionais, ainda que assintomáticos, fiquem em isolamento domiciliar por sete dias, procurando uma unidade de saúde caso apresentem febre e tosse ou dispneia. NÃO QUERO MAIS VIAJAR PORQUE ESTOU COM MEDO DA DOENÇA. CONSIGO FAZER O CANCELAMENTO SEM CUSTOS? Depende. O Procon-SP orienta passageiros com viagens à Itália ou a países que confirmaram casos de coronavírus, mas que não queiram mais fazê-las, a procurar o atendimento do órgão. Segundo eles, é preciso negociar com a empresa que efetuou a venda da viagem, que não pode se recusar a oferecer alternativas, como cancelamento, troca de destino ou mudança na data na viagem. A Abav (Associação Brasileira de Agências de Viagens) afirmou que está trabalhando para que os fornecedores dos pacotes turísticos "não imponham restrições ou multas aos consumidores que preferirem alterar o destino ou período da viagem", mas que as políticas de remarcações são de responsabilidades desses fornecedores. A espanhola Air Europa anunciou na segunda (9) que quem tiver comprado bilhetes para viajar em março para qualquer um de seus destinos poderá mudar a data de sua viagem gratuitamente. O passageiro só pagará mais se houver diferença entre a tarifa do novo dia de viagem e a do antigo. A Gol divulgou que os clientes de voos internacionais que partem até 12 de abril podem pedir o cancelamento da passagem, com a conversão do valor em créditos para serem usados dentro de um ano, a remarcação imediata do bilhete, sem cobrança de taxas, ou o estorno do valor gasto na compra nesse caso, pode incidir uma taxa de reembolso. CORRO O RISCO DE ENCONTRAR ATRAÇÕES TURÍSTICAS FECHADAS POR CAUSA DO CORONAVÍRUS? Sim. Nos lugares onde há grande incidência da doença, o fechamento de espaços que atraem muitas pessoas está acontecendo. Na quinta (12), os parques da Disney em Orlando, na Califórnia e em Paris anunciaram que serão fechados a partir de domingo (15) até o final de março, Os parques da empresa em Tóquio e na China já estavam fechados. A Universal também vai fechar seus parques em Orlando e em Los Angeles até o final de março. Na Califórnia, a medida começa no sábado (14) e vai até o dia 28. O fechamento em Orlando começa no domingo e vai até o final do mês, "mas continuaremos a avaliar a situação", afirmou a empresa em comunicado. Os governos e empresas tomam essas decisões conforme os casos avançam, então, pode ser difícil prever se uma atração estará fechada. O museu do Louvre, por exemplo, ficou fechado por dois dias. Eventos que atraem muitos viajantes, como jogos de futebol, corridas de Fórmula-1 e festivais, também estão sendo cancelados para evitar a formação de multidões. COMPREI UMA VIAGEM PARA PARTICIPAR DE UM EVENTO QUE FOI CANCELADO OU PARA VISITAR UMA ATRAÇÃO QUE ESTÁ FECHADA. CONSIGO MEU DINHEIRO DE VOLTA? Depende. Segundo o advogado Guilherme Amaral, sócio do escritório ASBZ, tudo varia conforme as condições do contrato de compra do serviço. Ingressos para parques que foram fechados ou eventos que foram cancelados devem ser estornados, porque o serviço que foi contratado não será mais entregue. Já com hospedagens e passagens aéreas, a situação é diferente. Como o fechamento de um parque temático ou adiamento de um evento esportivo não afeta o funcionamento dos hotéis e companhias aéreas, essa empresas não são obrigadas a devolver o valor das diárias ou da passagem aérea mas muitas estão optando por regras mais flexíveis de remarcação ou cancelamento diante da pandemia de covid-19. "Vai da empresa escolher fazer um gesto comercial de abrir mão das multas ou penalidades pelo cancelamento" afirma Amaral. Já se as passagens e hospedagens foram adquiridas em um pacote de viagem, por meio de uma agência, a situação é diferente. Quem comprou um pacote no qual o foco era visitar a Disney, por exemplo, pode alegar que o serviço não será entregue e conseguir a devolução do valor gasto em todo o pacote, incluindo transporte e hospedagem. "A agência arca com a mudança do pacote. Quando o consumidor compra sozinho, ele não tem esse meio de campo", afirma o advogado. Se comprou a viagem com uma agência de turismo, mesmo que virtual, o consumidor deve procurar primeiro essa agência. É ela quem deve resolver o problema. Caso tenha adquirido os serviços por contra própria, terá que negociar diretamente com a companhia aérea e os hotéis. É SEGURO FAZER UM CRUZEIRO NESTE MOMENTO? O setor de cruzeiros é fortemente afetado por surtos de doenças porque o navio mantém milhares de pessoas isoladas e em contato constante. Na sexta (13), o Ministério da Saúde recomendou que cruzeiros turísticos sejam adiados. Caso haja algum caso suspeito de coronavírus durante uma viagem, portos podem se recusar a receber o navio aconteceu com o navio MSC Meraviglia, que, por ter um membro de sua equipe e uma passageira com sintomas de gripe, não obteve autorização para parar na Jamaica e nas Ilhas Cayman. A MSC afirmou em comunicado que a decisão da Jamaica e das Ilhas Cayman levou "a uma ansiedade desnecessária e injustificável, não apenas para nossos hóspedes e tripulantes a bordo, mas a todo o setor de turismo do Caribe e possivelmente além". A companhia vai reembolsar o valor gasto pelos 4.580 hóspedes com a viagem. As companhias estão alterando suas rotas na Ásia, para evitar os epicentros da doença. A Costa divulgou um comunicado no dia 26 de fevereiro afirmando que cancelou até o final de março os cruzeiros que partem da China. A empresa também afirmou que não vai receber hóspedes que venham das cidades italianas atingidas pela doença, nem qualquer pessoa que tenha viajado para a China, Hong Kong e Macau nos 14 dias anteriores ao embarque. A Costa Cruzeiros comunicou na sexta (13) que vai interromper as viagens da sua temporada brasileira, que iriam até abril, por causa da covid-19. "Vivemos uma situação única e delicada, que nos obriga a tomar decisões responsáveis para assegurar a segurança e a saúde de todos os nossos hóspedes e tripulantes, afirmou Dario Rustico, presidente da Costa para a América Central e do Sul. COMO É FEITO O CONTROLE DA DOENÇA NOS AEROPORTOS? Segundo a Anvisa (Agência Nacional da Vigilância Sanitária), o Brasil não adota a medição de temperatura do desembarque de passageiros em aeroportos, "tendo em vista a baixa efetividade desta medida para pessoas que estão em trânsito". Porém, a agência ressalta que as companhias aéreas têm autonomia para impedir o embarque de passageiros que apresentem uma ameaça à segurança do voo. "Esta é uma prerrogativa no campo da aviação e a autoridade neste caso é o próprio comandante da aeronave", afirma. A Anvisa indica que a tripulação de voos internacionais e os funcionários de aeroportos que tenham contato com os passageiros devem usar luvas e máscaras cirúrgicas. Passageiros não precisam usar as máscaras, no momento. As máscaras ajudam a impedir que uma pessoa doente contamine quem estiver perto dela, ao tossir, por exemplo. Se você tiver sintomas da doença, deve utilizá-las. Outra indicação de uso é para quem cuida de uma pessoa com a doença. Caso contrário, a OMS não indica o uso a utilização indiscriminada de máscaras pode acabar com estoques para quem realmente precisa usá-las. VOOS PARA PAÍSES COM MUITOS CASOS DA DOENÇA ESTÃO CANCELADOS? Em alguns casos, sim. A companhia aérea Emirates comunica que não está mais voando de Dubai, seu principal hub internacional, para Teerã, no Irã. Quem tiver comprado uma passagem com escala em Dubai e destino final em Teerã será impedido de embarcar no aeroporto de partida. A companhia também suspendeu seus voos para Cantão e Xangai, na China. Os passageiros podem solicitar o reembolso da passagem. A Azul está disponibilizando reembolso integral da passagem para clientes que tenham voos marcados para a Itália, com conexão em Lisboa ou Porto. É preciso procurar os canais de atendimento da companhia. Para voos que tenham a Itália como origem ou destino, emitidos até 23 de fevereiro para voar até o dia 15 de março, a Air Europa está permitindo a remarcação das passagens. A Delta está reduzindo temporariamente o número de voos entre os Estados Unidos e a Coreia do Sul. A companhia também suspendeu todos os voos entre os Estados Unidos e a China, desde o dia 6 de fevereiro, até pelo menos 30 de abril. Quem for afetado, pode entrar em contato com a companhia para alterar a viagem ou solicitar reembolso. Na quarta (11), o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou que voos vindos de toda a Europa (com exceção do Reino Unido) não poderão pousar no país durante 30 dias. A medida entra em vigor na sexta (13). Já a Latam suspendeu no último dia 2 seus voos entre São Paulo e Milão, na Itália, por causa da baixa demanda em consequência dos casos de coronavírus no país. Quem tem passagem comprada pode remarcá-la para voar até 15 dias após a data original do voo, sem tarifas adicionais, alterar o destino da viagem (pagando adicionais tarifários) ou pedir o reembolso. Segundo o advogado Guilherme Amaral, em caso de cancelamento do voo o consumidor tem o direito ao reembolso integral ou remarcação da passagem sem custos, já que o serviço que ele comprou deixou de ser oferecido. SEGURO-VIAGEM COBRE INTERNAÇÃO E TRATAMENTO PARA O CORONAVÍRUS? Com a declaração de pandemia feita pela OMS, há seguros-viagem que deixam de cobrir o atendimento para a covid-19. É preciso checar na apólice do seguro se há cobertura para pandemias. Caso contrário, o viajante terá que pagar pelo seu tratamento médico se contrair a doença no exterior. Algumas empresas de seguro já anunciaram que vão manter a cobertura para a covid-19. É o caso, por exemplo, da Assist Card, Allianz Travel e Travel Ace. COMO ESTÁ O CONTÁGIO DA DOENÇA NA ITÁLIA? O país implementou na terça (10) restrições de viagem em todo o território nacional. As regras impedem que as pessoas saiam das regiões onde vivem. A Itália é o segundo país onde o coronavírus mais matou, perdendo só para a China. Na quinta (12), eram 827 vítimas e 10.590 infectados, além de 1.045 já recuperados da doença.