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No G20, Von der Leyen ameniza tom da UE contra combustíveis fósseis

BERLIM, ALEMANHA (FOLHAPRESS) - A inflexível posição da União Europeia em Belém nas negociações sobre o rascunho final da COP30 ganhou uma ponderação da própria presidente do bloco, Ursula von der Leyen. Em entrevista em Johannesburgo, na sexta-feira (21), a chefe da Comissão Europeia declarou que o problema são as emissões de gases do efeito estufa, não o que as provoca.

"Não estamos lutando contra os combustíveis fósseis, estamos lutando contra as emissões dos combustíveis fósseis", declarou a conservadora alemã, na véspera da reunião do G20, que ocorre neste fim de semana na África do Sul.

A fala vai de encontro ao esforço empreendido pelos negociadores da UE no Brasil, que se revoltaram com a ausência de um "mapa do caminho" para o fim dos combustíveis fósseis e do plano para zerar o desmatamento na última versão do rascunho apresentado pela presidência brasileira da COP.

A exclusão atendeu à pressão de países produtores de petróleo, mas provocou a reação imediata de cerca de 30 nações —majoritariamente latino-americanas, europeias e pequenas ilhas—, que ameaçam bloquear o acordo final caso o tema não volte ao texto.

Como as decisões precisam de unanimidade, as tratativas continuam neste sábado (22), e cresce o risco de a conferência terminar sem consenso. "Se não chegarmos a um consenso e não implementarmos o que está no Acordo de Paris, todos vão perder", afirmou o presidente da COP30, André Corrêa do Lago, na plenária de abertura de sexta.

Horas antes, o diplomata brasileiro recebeu uma carta do grupo de países insatisfeitos com a exclusão da transição energética do rascunho. "Não podemos apoiar um resultado que não inclua um roteiro para a implementação de uma transição justa, ordenada e equitativa para longe dos combustíveis fósseis", dizem os signatários em um dos trechos.

O impasse ocorre apesar da estratégia brasileira de separar o debate técnico do político, tentativa de evitar que temas divisivos contaminassem o processo, algo que não funcionou.

"Estamos mantendo o rumo", declarou Von der Leyen horas mais tarde, quando questionada se sua fala não representava um recuo do bloco. "Somos claros quanto ao nosso desejo de atingir essas metas [climáticas]. Estamos no caminho certo para atingir o objetivo de 2030. No caminho a seguir, temos que ser adaptáveis e flexíveis, porque esta é uma grande transição que está acontecendo. Ninguém fez isso antes. Portanto, estamos realmente em águas desconhecidas."

Negociadores da Arábia Saudita, que estariam ainda mais intolerantes que os europeus na disputa, declararam que o futuro da indústria do país estaria fora dos limites da discussão. Uma menção explícita ao fim dos combustíveis fósseis preocupa também grandes consumidores, como Índia e China.

"O problema é causado pelas emissões, e a realidade é que quanto mais poluentes forem os combustíveis fósseis, maiores serão os danos que causam", tergiversou Wopke Hoekstra, comissário europeu de Meio Ambiente, ao ser indagado sobre a fala da chefe do outro lado do Atlântico.

O aceno de Von der Leyen aos opositores da menção pode ser entendido como um gesto pragmático de diplomacia. Segundo observadores, uma forma de atender os dois lados seria trocar a citação sobre o fim dos combustíveis fósseis por algo mais ameno como transição energética ou nos sistemas de energia.

A ginástica semântica manteria viva também a indústria de captura de carbono, tecnologia ainda muito cara e tecnicamente inviável, que ambientalistas percebem como desperdício de tempo e dinheiro.

O planeta já caminha para o "overshoot", uma trajetória acima do limite estabelecido pelo Acordo de Paris de 1,5°C de aquecimento em relação aos níveis pré-industriais. Seria mais lógico investir os recursos em tecnologias limpas e encerrar as emissões de uma vez, dizem, do que tentar buscar a sobrevida da energia suja.

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