Na dúvida, é melhor 'ir duro, ir cedo e ir rápido' contra a ômicron, diz cientista

Por Folha de São Paulo / Portal do Holanda

27/11/2021 13h06 — em Variedades

BRUXELAS, BÉLGICA (FOLHAPRESS) - Na dúvida sobre a gravidade da nova variante ômicron, "é melhor 'ir duro, ir cedo e ir rápido' e pedir desculpas se estiver errado", afirmou uma das principais especialistas em sequenciamento genético e saúde pública, Sharon Peacock, diretora do consórcio de genômica britânico COG-UK e professora de saúde pública e microbiologia da Universidade de Cambridge.

A avaliação foi compartilhada por vários cientistas britânicos que analisaram os riscos da nova variante de preocupação para a plataforma Science Media Center.

Sharon ressaltou que há muitas questões em aberto, mas as respostas científicas levarão semanas e "há sinais de alerta suficientes para presumir o pior em vez de esperar o melhor, e adotar uma abordagem de precaução".

Desde a última quarta (24), laboratórios sul-africanos e britânicos trabalham para responder a cinco dúvidas sobre a ômicron: 1) é mais transmissível que variedades já conhecidas?; 2) é capaz de provocar doenças mais graves?; 3) consegue escapar da proteção oferecida pelas vacinas já disponíveis?; 4) tem mais potencial para reinfectar um paciente recuperado e 5) os métodos atuais de diagnóstico são adequados para detectá-la?

Em relação à primeira questão, os números da evolução de Covid no sul da África sugerem que a ômicron seja mais transmissível, "e várias mutações são consistentes com transmissibilidade aumentada", afirma a especialista.

Ela diz que também estão presentes nessa variante mutações que, em outras já conhecidas, foram associadas à evasão imune -ou seja, a uma menor eficácia dos imunizantes ou do sistema de defesa humano.

Estudos já iniciados para examinar em laboratório como anticorpos e células T (usadas pelo corpo humano para se defender) interagem com a ômicron "levarão várias semanas para serem concluídos", ressalta Sharon. Depois disso, ainda será necessário obter dados do mundo real sobre se a imunidade é reduzida a vacinas e a infecções anteriores.

Em relação à gravidade da doença, uma preocupação é que os tipos de mutação encontrados poderiam indicar que a ômicron surgiu "em alguém que foi infectado, mas não conseguiu eliminar o vírus, dando a ele a chance de evoluir geneticamente".

"Mas o significado de muitas das mutações detectadas e o efeito da combinação dessas mutações ainda não são conhecidos", ressalta Sharon. Enquanto isso, ela considera acertado limitar a circulação de pessoas e diz que é necessário aumentar a vigilância, a testagem e o sequenciamento.

No final, pode ser que se conclua que a ômicron não é tão grave quanto a alfa ou a delta, "mas as consequências potenciais de não agir e depois descobrir que ela causa mais dano são sérias", concorda Ewan Birney, diretor-geral-adjunto do Laboratório Europeu de Biologia Molecular.

A restrição a viagens também é defendida pelo professor de epidemiologia de doenças infecciosas da Universidade de Edimburgo, Mark Woolhouse, mas não deve ser vista como solução definitiva.

"Se um novo mutante adquiriu vantagens sobre os anteriores, como ser mais contagioso, ele vai chegar de qualquer forma", afirma. Ele diz que, se as restrições ajudam a ganhar tempo na luta contra o coronavírus, seu valor depende do que fazemos com esse tempo.

"A prioridade deve ser estabelecer se a ômicron realmente representa uma ameaça significativa à saúde pública. Se for, temos um conjunto de ferramentas disponíveis para diminuir seu impacto", diz o cientista.

Woolhouse afirma que o mundo terá que "viver com o vírus", o que significa adotar medidas de forma proporcional e sustentável, tentando evitar restrições no atacado, que são menos eficientes. "É melhor tornar as viagens mais seguras com melhores testes e triagem que proibi-las totalmente."

Ao mesmo tempo, países desenvolvidos deveriam intensificar esforços para vacinar o resto do mundo, para entre outros resultados evitar o aparecimento de novas variantes, afirma o pesquisador sênior em saúde global da Universidade de Southampton (Reino Unido), Michael Head.

"Apenas cerca de 11% da população africana recebeu ao menos uma dose da vacina contra Covid. A grande parte da África subsaariana tem sido muito bem-sucedida para manter surtos sob controle, apesar de seus recursos limitados, mas o risco de um colapso é sempre muito grande", afirmou.

Lawrence Young, virologista e professor da faculdade de medicina da Universidade de Warwick, concorda: "Variantes continuarão a ser geradas enquanto o vírus puder se espalhar, especialmente em países onde as taxas de vacinação são baixas. É do interesse de todos vacinar todo o mundo".

Além de ampliar as campanhas de vacinação, é preciso concentrar esforços para melhorar os atuais imunizantes, diz Richard Hatchett, principal executivo da Cepi, rede global criada em 2017 para se antecipar a patógenos capazes de provocarem pandemias.

A coalizão coordena o desenvolvimento de uma nova geração de vacinas, que possam superar limitações das atualmente disponíveis, como uma versão nasal, que possa interromper a transmissão, ou fármacos que visem outras partes do coronavírus que não a proteína S (estrutura usada pelo Sars-Cov-2 para penetrar na célula humana).

O fato de que a ômicron tem um número grande de mutações nessa proteína S é o que leva os cientistas a temerem que a variante possa escapar da proteção oferecida pelas vacinas, criadas para reconhecer uma estrutura que pode ter sido muito alterada.

Segundo Hatchett, os centros de inovação estão "um passo à frente do vírus", desenvolvendo vacinas contra variantes de preocupação já conhecidas e outras "à prova de variantes", capazes de proteger contra uma grande diversidade de mutações.

A Cepi também financia estudos sobre quais as estratégias mais eficazes de vacinação, como por exemplo a combinação de fármacos diferentes, que podem provocar uma imunidade mais forte e duradoura.

Como os imunizantes ainda são escassos e insuficientes para a demanda, o objetivo precisa ser "otimizar a distribuição das vacinas, para que cada dose forneça o benefício máximo", afirma Hatchett.

Em entrevista na manhã deste sábado à BBC, o cientista britânico que liderou as pesquisas sobre a vacina Oxford/AstraZeneca contra o coronavírus afirmou que é possível criar uma nova contra a variante ômicron "muito rápido".

O professor Andrew Pollard, diretor do Oxford Vaccine Group, considerou que é "altamente improvável" que esta nova variante se propague com força entre a população já vacinada.

Os fabricantes de outras vacinas, como Pfizer/BioNTech, Moderna e Novavax também se mostraram confiantes em sua capacidade para combater a nova cepa.


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