BELÉM, AL (FOLHAPRESS) - A sexta-feira (14) amanheceu com um protesto de indígenas do povo munduruku em frente ao acesso principal da COP30, a conferência das Nações Unidas sobre mudança climática, em Belém.
Eles querem a revogação do decreto que estabelece o Plano Nacional de Hidrovias, assinado neste ano pelo governo Lula (PT). O projeto inclui os rios Tapajós, Madeira e Tocantins como eixos prioritários para navegação de cargas.
"Chega de mercadoria com a nossa floresta", afirmou a líder Alessandra Munduruku em conversa com a imprensa.
"A COP tem [mais de] 190 países. Não é possível que alguém não vá nos ouvir. Não é possível que alguém não se sensibilize com essas crianças, que há dias e dias estão no sol quente esperando uma resposta", afirmou. "Não aceitamos ser sacrificados para o agronegócio".
Os manifestantes também pedem proteção contra grandes empreendimentos dentro do território e o cancelamento da Ferrogrão projeto de ferrovia que vai de Mato Grosso ao Pará. Cerca de 40 pessoas participaram do ato pacífico, com a presença de muitas crianças.
Com a movimentação, o Exército brasileiro ocupou a entrada da COP por algumas horas, fechando o principal acesso à conferência. A entrada de pessoas credenciadas foi realizada pela saída.
O presidente da COP30, André Corrêa do Lago, e a diretora-executiva da conferência, Ana Toni, dialogaram com os indígenas por volta das 8h30, pedindo a liberação da passagem.
Cerca de uma hora depois da chegada das autoridades da COP30, o ato foi dispersado após as lideranças serem convidadas para um encontro com as ministras Marina Silva (Meio Ambiente) e Sonia Guajajara (Povos Indígenas) e membros da Defensoria Pública do Pará.
Corrêa do Lago caminhou para o espaço da reunião de mãos dadas com a líder indígena Alessandra Munduruku, ao lado de Toni, e seguido pelos outros manifestantes.
Após a dispersão da manifestação, a porta principal foi liberada, mas filas imensas haviam se formado. Como é praxe em espaços das Nações Unidas, revistas individuais são feitas nas bolsas e mochilas, mas o processo é demorado.
Perto das 11h, o acesso ao prédio da Zona Azul, onde acontecem as negociações diplomáticas, foi normalizado.
Na última terça-feira (11), um grupo de manifestantes invadiu a zona azul após participação em uma marcha sobre saúde e clima que ocorria nas ruas de Belém. Eles foram expulsos do local após confronto com seguranças.
O secretário-executivo da UNFCCC (o braço climático das Nações Unidas), Simon Stiell, assinou uma carta na quarta-feira (12) demandando que a proteção seja reforçada e que os problemas (como alagamentos e altas temperatura no ambiente) sejam resolvidos.
Na manhã desta sexta, a organização do evento chegou a emitir nota informando os participantes da COP sobre a situação. "Está ocorrendo uma manifestação pacífica na entrada principal da Zona Azul. Não há perigo", dizia o texto. O aplicativo oficial voltado a participantes da COP30 também enviou um alerta.
"Eles querem ser ouvidos na COP30. Eles estão em um situação de dificuldade. Querem também que seja combatida a exploração no território", afirmou o advogado da associação indígena Ipereg Ayu, Marco Apolo. "Apoiar as populações indígenas é apoiar a questão climática, ao menos aqui na Amazônia."

