Sob a direção de Fernando Philbert, o monólogo escrito por Gabriel Chalita enfoca Cícero, um homem que reconstitui memórias e afetos compartilhados com a mãe, dona Maria, em fase terminal. Sozinho no palco, Medeiros se divide em seis personagens na peça que, depois de apresentações no Rio, em março, chega à capital paulista no Dia das Mães. Chalita criou a dramaturgia em solidariedade a um amigo que convivia com o luto da partida materna. O sentimento que motivou o autor, no entanto, pode ser comparado às experiências vividas pelos dois responsáveis por levar a história ao palco, Medeiros e Philbert.
CONVERSAS DELICADAS. O ator paranaense atravessou junto de sua mãe uma situação parecida no começo da década de 2000. Dona Meide lutou contra um câncer por seis anos que o filho, já em São Paulo, acompanhou na proximidade que foi possível.
Os ensaios de um espetáculo em Curitiba, Avenida Dropsie, dirigido por Felipe Hirsch, proporcionaram ao artista a possibilidade de passar três meses na cidade e acompanhar de perto a fase derradeira. "Tivemos conversas delicadas e profundas nesse período, sem que necessariamente ela me respondesse e, lendo o texto, recordo nossas vivências."
Na ficção, Cícero sabe que o tempo de dona Maria é curto e pensa em como torná-lo menos doloroso e até alegre. Com isso, a peça busca a emoção do espectador, inclusive, pela comédia em uma dramaturgia não linear. Medeiros exercita a versatilidade como, entre outros, uma velha tia ou duas amigas de dona Maria, que mãe e filho encontraram em uma viagem de avião e em uma missa.
"Eu tomo banho de alma", fala dona Carmen, uma das personagens, para sublinhar os bons momentos.
JEITO SOLAR. Medeiros reforça que não se trata de autoajuda, mas a sugestão de que o cotidiano, com suas alegrias e pesares, pode ficar melhor se encarado de um jeito solar. "Essa mensagem ganha mais força nesta fase que vivemos há dois anos, em que perdemos tanta gente querida e deparamos com o delicado tema da morte todos os dias", explica.
A experiência do diretor de Philbert em relação à perda materna é mais recente e remete ao primeiro mês da pandemia. Dona Ironês morreu em abril de 2020, derrotada por um câncer. Philbert, com a agenda cancelada por causa do fechamento dos teatros, permaneceu o último mês ao seu lado, no interior do Paraná e em Santa Catarina. "Eu bati papo, ajudei no banho e, quando fui montar a peça, várias passagens traziam de volta a minha mãe", diz.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.



