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Mercado de Belém oferece poções que prometem de 'passar em concurso' a 'chamar o amor'

Por Folha de São Paulo

21/04/2024 8h31 — em
Variedades



BELÉM, PA (FOLHAPRESS) - "Esse você bota uma gotinha na 'perseguida' e faz o homem ficar louco. O homem também pode usar, na cabeça do pênis, para deixar a pessoa mais apaixonada."

Foi com essa descrição do "superpoder" de um perfume que a vendedora Claudiana, 36, atraiu a reportagem para os produtos à venda na barraca da Maria Loura do mercado Ver-O-Peso, em Belém, considerado o maior da região amazônica.

Nas mãos, um líquido de coloração alaranjada acondicionado em pequenos frascos --igual aos frascos de doses de vacina- escrito "Óleo da Bota".

Indagada sobre o nome, Claudiana continua: "'bota' durante a relação sexual com a pessoa amada, para ela ficar mais apaixonada". O perfume é feito à base de plantas naturais com propriedades atrativas, continua a vendedora. Dentre as espécies, "agarradinho", "carrapatinho" e "chora nos meus pés".

Outros, são mais explícitos, como um que promete atrair o público homossexual e um para aumentar o tamanho do pênis.

A profusão de frascos, seja em garrafas plásticas de 1 litro ou em frascos de 30 ml, compõe o setor de ervas do Ver-O-Peso, também chamado popularmente de "Ver-As-Ervas". Lá, atualmente, há 80 barracas cadastradas, a maioria passadas às famílias por gerações e com conhecimento tradicional sobre a produção artesanal.

Os ingredientes dos perfumes não são declarados, mas alguns trazem no rótulo informações como óleo de andiroba, casca de copaíba e jiboia branca, dentre outros.

Além destas, aparecem também arruda, manjericão, manjerona, alecrim e cravo, misturados em frascos para compor banhos aromáticos -as poções-, que prometem as mais variadas sortes: "Passa no Concurso", para quem está em busca de um novo emprego; "Perfume do Estudante", para aqueles com dificuldade de concentração; e "Quebra Inveja", para acabar com o mau olhado.

"Depende do que você vai querer. Se você quer um atrativo, esse aqui de essência de jasmim, você mistura um pouco como colônia. Agora se você quer 'abrir caminho' [ter sucesso na carreira, por exemplo], pode preparar um banho", explica Fabiana Araújo, 22.

Araújo é a quinta geração da barraca de sua família. "Tudo o que aprendi foi vendo a minha vó fazer", conta. Segundo ela, há pessoas que são "preguiçosas", mas ela gosta de pegar as ervas mesmo, macerar e fazer a extração do óleo, para ter o melhor resultado. "Quem quer só as ervas para um banho, nós vendemos também", diz.

Ela se refere às próprias ervas secas, dispostas em ramos já prontos para serem preparadas em casa. "Eu sou das antigas, e gosto de fazer do zero, mas muita gente vem procurar um banho de arruda." Outros preparos são para infusões, como chás, que prometem curar todos os males.

Apesar de muitas ervas ali serem comuns, os erveiros do Ver-O-Peso mantêm a tradição de cultivo e preparo a partir de espécies amazônicas, conta João, da Banca do João. Ele diz que frequentemente recebem treinamento sobre extração de óleos essenciais com as cooperativas agricultoras e extrativistas que trabalham para o gigante de cosméticos Natura.

Tal decisão de trabalhar em acordo se deve a um imbróglio jurídico, de 2005, quando produtoras e produtores artesanais acusaram a marca de biopirataria e de apropriação do conhecimento tradicional.

Um ano depois, a Justiça deu decisão favorável aos produtores, e a empresa reconheceu o uso de informações fornecidas por vendedoras de ervas na produção de perfumes. Houve um compromisso da empresa em assinar o primeiro contrato de participação de benefícios do país.

Há também vasta literatura científica que busca ressaltar o caráter sociológico das erveiras do Ver-O-Peso. Um desses artigos, publicado na revista Perspectivas em Ciência da Informação, em 2013, qualifica essa formação como "a aquisição e transmissão desse saber pela observação e oralidade no contato cotidiano do trabalho com esses produtos".

No caso de Araújo, sua família tem origem indígena, do interior do Pará, e a avó sempre fez ervas e poções com as plantas do quintal da casa, o que foi ensinado para a neta, representando também uma atividade econômica importante feminina.

Apesar de serem produtos ditos naturais, há o risco potencial de tanto para a pele como mucosas, explica a dermatologista Rosana Lazzarini, membro da diretoria da Sociedade Brasileira de Dermatologia.

"No Brasil, é comum o uso de produtos ditos 'naturais' para tratamentos de doenças ou até de situações relacionadas a relacionamentos afetivos, como atrair entes queridos ou afastar pessoas. Entretanto, essas poções são produzidas de maneira artesanal, sendo os métodos de fabricação desconhecidos."

"A composição, também desconhecida, pode conter plantas ou produtos de origem animal que podem causar reações cutâneas, como dermatites irritativas, decorrentes das próprias plantas contidas ou de outros componentes, como o álcool ou diluente utilizado", explica.

Ela reforça que, sem a devida certificação, existe ainda a possibilidade de contaminação dos produtos por bactérias, fungos ou outros agentes infecciosos, que podem também contaminar a pele.

Outros frascos com indicação de uso terapêutico --um óleo para diabetes, outro para curar "os nervos"-- devem ser evitados, recomenda o hepatologista e professor da Faculdade de Medicina da Unesp (Universidade Estadual Paulista) de Botucatu, Giovanni Faria Silva.

"Veja bem, o problema é que algumas dessas substâncias nós já conhecemos os potenciais riscos de toxicidade hepática, mas outras não, e esse risco existe. Não é só de toxicidade ao fígado, mas também a outros órgãos", explica.

Ele também traz um alerta para produtos que prometem "curas milagrosas" ou que servem para tudo, desde unha encravada até dores nas articulações. "Infelizmente, sabemos que há muita propaganda de fórmulas mágicas para emagrecer, para a cura de todos os males, e são cheios de compostos sabidamente tóxicos", diz.

Segundo a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), insumos de origem vegetal podem ser utilizados para produtos cosméticos, alimentícios ou medicamentos, a depender de sua forma, processamento e finalidade de uso. Chás, por exemplo, são dispensados de registro na Anvisa, enquanto cosméticos devem ser regularizados por registro ou notificação.

"Já os medicamentos fitoterápicos devem ser registrados de forma geral, podendo haver enquadramentos em que a regularização é feita por notificação. De forma geral, a Anvisa alerta quanto às propagandas de produtos com promessas 'milagrosas', que prometem prevenir, tratar e curar diversos tipos de doenças e agravos à saúde, além de melhorar problemas estéticos", disse o órgão, em nota.

Procurada sobre a fiscalização das barracas do Ver-O-Peso, a prefeitura de Belém não respondeu até a publicação deste texto.


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