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Livro narra história de sobreviventes e de vítimas da tragédia de Brumadinho

Por Folha de São Paulo / Portal do Holanda

23/01/2022 10h32 — em
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BELO HORIZONTE, MG (FOLHAPRESS) - "Bombeiro, acha meu pai." O pedido é de uma das crianças órfãs do rompimento da Barragem 1 da Mina Córrego do Feijão, da mineradora Vale, em Brumadinho (MG). Foi enviado em carta para a corporação durante as buscas pelas vítimas do colapso da estrutura, que completa três anos na próxima terça-feira (25).

A mensagem e a dor que evoca abrem o livro-reportagem "Arrastados - Os Bastidores do Rompimento da Barragem de Brumadinho, O Maior Desastre Humanitário do Brasil", da jornalista Daniela Arbex. Além do pai do autor do pedido, o rompimento da barragem matou outras 269 pessoas. Seis corpos ainda não foram localizados.

Com lançamento marcado para a data dos três anos da tragédia, o livro conta a história de pessoas que morreram, pessoas que conseguiram se salvar, que salvaram, e também de quem estava na ponta final para identificar quem eram todos aqueles mortos.

O livro apresenta relatos minuciosos, com reprodução de diálogos mostrando, por exemplo, a aflição de quem tinha parentes no local da tragédia ao saber do colapso da estrutura.

Relatado no livro, esse é o caso de um piloto de avião, Gustavo Barroso Câmara, 34, irmão de Izabela Barroso, 30, engenheira da Vale. O piloto voava quando ficou sabendo da tragédia em Brumadinho e lembrou que a irmã havia sido transferida para a cidade.

Câmara então entrou na frequência de um helicóptero do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais. "Arcanjo, está na escuta? Aqui é o PT-OPX. Preciso saber se vocês resgataram uma menina de 1,70 metro, magra, cabelos pretos lisos e longos, engenheira. Ela é minha irmã."

E recebeu a seguinte resposta do comandante da aeronave: "Infelizmente não posso te falar nada, porque aqui está um caos". O corpo de Izabela foi identificado entre as vítimas do rompimento da barragem oito dias depois da tragédia pelo Instituto Médico-Legal de Minas Gerais.

O instituto recebeu as primeiras informações sobre a tragédia às 14h07 do dia 25, relata o livro.

"Boa tarde. Barragem da Vale em Brumadinho teve rompimento e atinge a cidade. Equipes do Corpo de Bombeiros de Contagem acionadas com helicópteros e diversas viaturas. Grande chance de ter vítimas fatais", diz comunicado recebido pela assessoria da diretoria do instituto. Contagem, assim como Brumadinho, é uma cidade da região metropolitana de Belo Horizonte.

A autora mostra mensagens trocadas entre médicos-legistas no dia da tragédia, falando sobre acionamento de código de emergência para hospitais da capital e pedido de sacos para cadáveres.

Arbex relata a chegada dos primeiros bombeiros ao local da tragédia e o início do trabalho de resgate de sobreviventes, o que ocorreu então sob a possibilidade, levantada naquele momento, de que outra barragem poderia se romper, levando mais lama exatamente para a área de atuação dos bombeiros.

O livro descreve o cenário de destruição provocado pela lama que desceu da barragem e o comportamento da Vale antes e depois da queda da estrutura. Em posfácio, a autora conta como tomou conhecimento da tragédia e o que a levou a escrever sobre a ruptura da estrutura da mineradora em Brumadinho.

Arbex fecha o livro falando ainda sobre a possibilidade de que tragédias como a de Brumadinho voltem a ocorrer e lembra outro rompimento de barragem ocorrido em Minas Gerais. "Fomentar a cultura de segurança de barragens é, de fato, uma tarefa urgente. Mas a construção de uma nova cultura exige o abandono de velhas práticas de poder", aponta.

"Em 2015, quando o país foi palco do maior desastre ambiental de sua história, o lema adotado pelo então diretor-presidente da Vale quando assumiu o cargo dois anos depois foi: 'Mariana nunca mais'. Três anos e dois meses depois após o rompimento da barragem de Fundão, que matou dezenove pessoas, a cidade de Brumadinho foi manchada de minério e 272 vidas foram perdidas", recorda a autora no livro.

A conta que chega em 272 mortes leva em consideração o falecimento na tragédia de duas grávidas. "De lá para cá, alterações nas leis impuseram exigências novas a empreendedores de barragens, sobretudo no setor de mineração. Mas, se o desfecho da tragédia se repetiu, é porque o enredo continuou o mesmo", avalia ela.

"Perguntei aos especialistas que entrevistei se o ciclo de tragédias se encerraria em Brumadinho. Ainda não há respostas para isso. Enquanto o modelo de negócio não mudar e a política da mineração priorizar o produto, em vez da vida humana, não haverá lugar seguro para ninguém", diz a escritora, na publicação.

Daniela Arbex também é autora, entre outros, de "Holocausto Brasileiro" (2013), que fala sobre os maus-tratos a pacientes do Hospital Hospício de Barbacena, de "Cova 312" (2015), história sobre o assassinato pelas Forças Armadas de um militante político durante a ditadura, e de "Todo Dia a Mesma Noite" (2018), sobre o incêndio da boate Kiss, em Santa Maria (RS), que causou a morte de 242 pessoas.

Os quatro livros foram publicados pela editora Intrínseca, responsável também pelo lançamento da obra sobre Brumadinho, previsto para a data em que a tragédia completa três anos. O lançamento acontecerá às 12h28, horário do rompimento da barragem, e terá uma live que poderá ser acompanhada pelos perfis da editora, @intrinseca, e da autora, @daniela.arbex, no Instagram.


O Portal do Holanda foi fundado em 14 de novembro de 2005. Primeiramente com uma coluna, que levou o nome de seu fundador, o jornalista Raimundo de Holanda. Depois passou para Blog do Holanda e por último Portal do Holanda. Foi um dos primeiros sítios de internet no Estado do Amazonas. É auditado pelo IVC e ComScore.

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