BELÉM, PA E SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um incêndio atingiu os pavilhões da COP30, em Belém (PA), no início da tarde desta quinta-feira (20). As chamas começaram nos setores reservados aos países, causando correria entre os participantes da conferência das Nações Unidas sobre mudanças climáticas.
A energia elétrica foi cortada no local, e as labaredas chegaram a furar o teto dos estandes. Todo o espaço da chamada zona azul onde há pavilhões de países e entidades, além de salas das negociações diplomáticas foi esvaziado.
Os participantes só puderam retornar ao local perto das 21h. A COP30 foi suspensa até a sexta-feira (21), data originalmente programada para ser o dia final da conferência, que tem tradição de atraso em suas conclusões.
A organização da COP30 afirmou que o incêndio foi rapidamente controlado e que não houve feridos por queimaduras. Contudo, 21 pessoas foram atendidas (19 delas por inalação de fumaça, e 2 por crises de ansiedade). Até a noite desta quinta, 9 delas ainda estavam sob cuidados, segundo o Ministério da Saúde.
O incidente ocorreu na fase final da conferência, quando os países tentam fechar o texto do acordo. Nas redes sociais, vídeos mostraram que as chamas começaram no estande da África Oriental. Ainda é incerta, porém, a causa do incêndio que durou 6 minutos. Segundo o corpo de Bombeiros, o fogo deve ter iniciado por algum problema em um aparelho eletrônico.
A entidade e a empresa responsáveis por erguerem a estrutura da área central da conferência ficaram em silêncio sobre o incidente e sobre o que se sucedeu nos momentos seguintes ao fogo.
O governo Lula (PT) contratou, com dispensa de licitação, a OEI (Organização dos Estados Ibero-Americanos) para erguer as estruturas do evento da ONU. O contrato tem valor de R$ 480 milhões e já foram gastos R$ 324,6 milhões.
A OEI, por sua vez, contratou a empresa DMDL, por R$ 182,6 milhões, para a construção da "blue zone" uma ampla estrutura de metal, lona e estandes no Parque da Cidade. A DMDL já recebeu R$ 112,9 milhões pelos serviços.
A reportagem questionou a entidade e a empresa sobre o incêndio, sobre a resposta dada para o esvaziamento do local (como o funcionamento do sistema de alarme e das saídas de emergência) e sobre problemas elétricos como eventual causa. Nem a OEI nem a DMDL responderam aos questionamentos.
A OEI apenas enviou uma resposta da organização da COP30, a cargo do governo federal, repetindo que o incêndio foi controlado e que não houve feridos, com prosseguimento do monitoramento da situação. A empresa, por sua vez, disse que o governo federal deveria ser procurado.
O ministro do Turismo, Celso Sabino, disse que o fogo pode ter começado em decorrência de um curto circuito. Ele também defendeu a escolha da capital paraense como sede da COP30. "Não vai colar a ideia de que Belém não deveria sediar a COP", disse ele. "Esse incêndio poderia ter acontecido em qualquer lugar do mundo."
A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, foi retirada do pavilhão da COP30 após o incêndio que atingiu o espaço. A secretrária da Cultura do Pará, Úrsula Vidal, disse esperar o pronunciamento da ONU, com informações corretas.
"Nós estamos aguardando que a ONU, que é responsável pelo espaço, dê as informações corretas pra que esse clima de desinformação não gere um ambiente ruim para a COP", afirmou.
No meio da correria causada pelo incêndio, a caixa móvel Dielly Silva presenciou as chamas que, segundo ela, se espalhavam com muita rapidez. "Levei um susto, todo mundo correndo, praticamente passando por cima de todo mundo. A gente tentou achar um lugar mais tranquilo para correr", contou. "Todo mundo gritava para sair: 'fogo, fogo', em vários idiomas".
Pessoas tiveram que sair da COP30 usando escadas para escapar do incêndio que atinge o pavilhão dos países. O Hangar, construção do Parque da Cidade que faz parte da zona azul da COP30 e não é composto por tendas, também foi esvaziado. Na área de alimentação, bombeiros e voluntários gritam para que as pessoas se retirem.
Na primeira semana do evento, a ONU enviou uma carta à organização pontuando problemas na infraestrutura e na segurança. O secretário-executivo da UNFCCC (o braço climático das Nações Unidas), Simon Stiell, assinou o documento demandando que a proteção seja reforçada e que os problemas (como alagamentos e altas temperatura no ambiente) sejam resolvidos.
Meses antes do início da conferência, dezenas de negociadores assinaram uma carta endereçada ao governo Lula e a Stiell pressionando para que a COP30 fosse transferida, ao menos em parte, para outra cidade as reclamações eram sobre os altos preços de hospedagem e os problemas de infraestrutura da capital paraense.
O governo federal optou por mantê-la em Belém, e Lula destacou que isso demonstrava um ato de coragem. O presidente argumentou que seria mais fácil realizar o evento em uma cidade pronta para recebê-lo, mas destacou a importância de sediar as reuniões climáticas na amazônia pela primeira vez.
Durante o incêndio, técnicos de áudio da zona azul ajudaram os bombeiros com extintores. "Eu estava no estande da Noruega, onde tinha uma palestra, a gente ouviu muita gritaria, e alguém disse 'É fogo'", diz o técnico Reginaldo Santos.
"Fiquei na minha sala, ouvi o pessoal de onde tava pegando fogo pedindo extintor de incêndio. Tinha um na minha sala e outro na sala da frente, levei para eles", diz Santos. Segundo o grupo, dois técnicos foram atendidos pelo serviço de saúde. Um por inalar fumaça e outro por cair durante a correria.
Já na zona verde, um aviso foi emitido nos alto-falantes informando que as atividades desta quinta-feira (20) seriam encerradas mais cedo. De acordo com o informe, as palestras que estavam em andamento poderiam continuar, mas novas não seriam iniciadas. A justificativa foi que o espaço está sendo usado como área de dispersão após o esvaziamento da Zona Azul.
Negociadores ouvidos sob condição de anonimato divergiram sobre o impacto do incêndio no desenrolar das tratativas. Alguns avaliaram que o episódio pode desagradar os diplomatas. Outros, afirmaram que tudo isso poderia ter ocorrido em qualquer outro lugar do mundo.
"Não existe uma maneira óbvia de avaliar o impacto disso na negociação", disse Claudio Angelo, coordenador de política internacional do Observatório do Clima e observador nas conferências do clima.
Ele ponderou que o incêndio pode deixar os os negociadores estressados, ou que a noite de folga pode acabar servindo para recarregar as energias. "É ruim perder um dia, mas quantas COPs recentes terminaram na sexta-feira? Então, pode ser que estenda um pouco e tudo bem".


