SÃO CARLOS, SP (FOLHAPRESS) - A "guerra" entre chimpanzés-comuns (Pan troglodytes) parece ser um bom negócio para os vencedores, indica um novo estudo. No Parque Nacional de Kibale, em Uganda (África Oriental), o aumento de território proporcionado pela vitória em combate de um grupo dos grandes símios permitiu que as fêmeas do bando gerassem mais filhotes e perdessem menos bebês nos primeiros anos de vida.
Os dados dão mais peso à hipótese de que os confrontos letais entre grupos, documentados na espécie desde o trabalho pioneiro da britânica Jane Goodall (1934-2025) nos anos 1970, não são apenas uma aberração causada pela interferência humana, mas podem ser usados pelos animais como um mecanismo para obter mais recursos.
O trabalho, que saiu na última segunda (14) na revista especializada PNAS, foi coordenado por Brian Wood, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, e John Mitani, da Universidade de Michigan em Ann Arbor. Mitani acompanha há muito tempo os animais do chamado grupo de Ngogo e já havia documentado a expansão territorial de um dos grupos às custas de outros.
Com efeito, entre 1998 e 2008, os símios de Ngogo mataram 21 macacos de comunidades vizinhas, a maioria das quais de uma área adjacente, a nordeste do território deles. Depois dessa década de "guerra", a região vizinha, medindo 6,4 quilômetros quadradas, foi incorporada às terras dos chimpanzés de Ngogo, o que representou um aumento de 22% no território deles.
A terminologia pode parecer estranha, mas o fato é que esse tipo de confronto entre comunidades da espécie, documentado em vários países africanos, tem algumas semelhanças significativas com formas tradicionais de guerra em sociedades humanas de pequena escala.
Em geral, os confrontos começam quando um grupo de machos adultos do bando está patrulhando as fronteiras de seu território ou penetra, de forma esquiva, no território de um bando vizinho. Se a coalização de machos percebe a presença de chimpanzés isolados ou pequenos grupos de um bando rival, eles tentam se aproximar da maneira mais silenciosa possível e então atacam.
O principal objetivo costuma ser o uso da superioridade numérica para dominar e matar rapidamente os outros macacos, num processo que lembra um linchamento. Se os indivíduos atacados são fêmeas com filhotes, é comum que o animal imaturo seja morto, enquanto a adulta às vezes (mas nem sempre) é poupada.
Não estava claro se esse comportamento podia estar ligado apenas à defesa do território ou se ele tinha objetivos mais expansionistas e agressivos. Trabalhos anteriores de Mitani indicaram que o expansionismo poderia ser o principal objetivo. Faltava, no entanto, demonstrar que havia também um benefício naquilo que os biólogos evolucionistas chamam de aptidão, ou seja, no sucesso reprodutivo dos animais não necessariamente dos machos envolvidos na "guerra", mas ao menos no do bando como um todo.
Os números apresentados agora pela equipe sugerem que, de fato, é isso o que está acontecendo, ao menos no parque nacional ugandense. Basta dizer que, nos três anos antes da expansão territorial, as fêmeas do grupo de Ngogo (cuja população girava em torno de 150 indivíduos) tinham tido 15 filhotes. Nos três anos após a "conquista", porém, o número subiu para 37 nascimentos ou seja, a probabilidade de que as fêmeas sexualmente maduras do bando tivessem filhotes dobrou de um período para outro.
Como se não bastasse, a "mortalidade infantil" despencou. No período pré-expansão, a chance de que um filhote do bando vitorioso morresse antes dos três anos de vida era de 41%. Na fase posterior à "conquista", essa probabilidade caiu para 8%.
Os pesquisadores propõem dois fatores principais para explicar essa mudança tão grande. O primeiro é o aumento da disponibilidade de alimentos principalmente frutas graças ao acesso a um território maior. O segundo tem justamente a ver com o fato de que confrontos entre grupos muitas vezes levam à morte de filhotes em primeiro lugar, um perigo que foi removido, em grande parte, junto com a eliminação dos chimpanzés rivais.
É muito provável que aquilo que beneficia mães e filhotes também beneficie os machos. Isso porque são eles que estão gerando todos os filhotes do bando, considerando que, na espécie, os indivíduos do sexo masculino ficam a vida inteira no mesmo grupo, sem transferência de animais de um bando para outro.
Embora seja muito tentador aplicar essas descobertas à compreensão das origens da violência entre seres humanos, convém lembrar que os chimpanzés modernos não são modelos perfeitos do ancestral comum desses primatas e da humanidade. Além disso, os bonobos ou chimpanzés-pigmeus (Pan paniscus) têm o mesmo grau de parentesco conosco que o dos chimpanzés-comuns, e a sociedade deles é basicamente pacífica.


