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Ex-membro do Parlamento alemão diz que fala de Merz sobre Belém foi racista

BELÉM, PA (FOLHAPRESS) - A declaração do primeiro-ministro da Alemanha, Friedrich Merz, criticando a sua estadia em Belém, onde esteve para a Cúpula dos Líderes, no último dia 7, não ressoou bem entre os alemães que participam da COP30 na capital paraense. A ativista climática Kathrin Henneberger, ex-membro do Parlamento alemão pelo Partido Verde, disse à Folha de S.Paulo que a fala foi "racista, grosseira e não-diplomática".

Merz afirmou, em um discurso que fez no Congresso Alemão do Comércio, que os alemães vivem "em um dos países mais bonitos do mundo".

"Perguntei a alguns jornalistas que estiveram comigo no Brasil na semana passada: 'Quem de vocês gostaria de ficar aqui?' Ninguém levantou a mão. Todos ficaram contentes por termos retornado à Alemanha, a noite de sexta para sábado, especialmente daquele lugar onde estávamos."

Kathrin, que é representante da região de Rheinland na COP30, afirmou querer pedir desculpas pelo comportamento do primeiro-ministro. "Mas eu gostaria de enfatizar que isso é bem típico dele. Na Alemanha, nós dizemos que ele é um 'velho cara branco', significando que ele pode ser muito mal-educado e rude."

Ela opina que Belém é linda. "As pessoas são muito gentis. Sempre que estou perdida, alguém me ajuda. Eu conheci locais, e a bondade nos seus corações é inacreditável. E a área é muito bonita e tão rica em biodiversidade."

A ativista climática diz que a declaração de Merz não a surpreende, levando em consideração que é de "um partido da direita conservadora, que está pendendo para a extrema direita".

Ela lembra ainda que o primeiro-ministro é "um ex-lobista da BlackRock [empresa multinacional estadunidense de investimento]". "Ele faz parte do movimento de reversão para os combustíveis fósseis. Então, na Alemanha, temos um problema enorme com isso. Ele tenta construir novas infraestruturas de combustíveis fósseis, e nós estamos fazendo todo o possível para lutar contra isso."

Já Heffa Schücking, diretora da Urgewald, uma organização ambientalista e de direitos humanos, diz que ficou "realmente chocada" com a declaração. "Ele deveria ser mandado para uma escola de diplomacia. Eu fico envergonhada que nosso primeiro-ministro possa dizer algo assim."

Segundo ela, na Alemanha, "há uma filosofia sobre como você deve se comportar como convidado": "Você deve demonstrar gratidão. E não houve nem gratidão nem modéstia, apenas arrogância".

Heffa acha que, inclusive, membros do próprio partido de Merz, a União Democrata-Cristã, de centro-direita, devem estar envergonhados.

A ambientalista alemã diz ainda que está animada "pelo fato de que, nesta COP, há grandes manifestações". "Você vê pessoas indígenas nos espaços. Você vê a variedade e diversidade, não apenas do mundo, mas também do Brasil."

Pela primeira vez no Brasil, Heffa diz querer voltar várias vezes. "Eu vou ficar depois da COP para encontros com ONGs, para ver mais do país e para aprender. Há partes da Alemanha que são bonitas, mas o Brasil tem a amazônia, o rio Amazonas, o pantanal, a mata atlântica. A Alemanha não tem mais lugares selvagens. O que os alemães chamam de floresta são, na verdade, plantações de árvores."

Alexander Bonde, diretor-executivo da Fundação Ambiental Federal Alemã, disse que a delegação alemã não ficou feliz com o comentário de Merz.

"Ele, obviamente, quis dizer que a Alemanha é um bom país e que é muito quente aqui em comparação com a Alemanha, mas isso gerou um comentário que foi surpreendente para muitos de nós, porque a nossa relação com o Brasil é muito boa, assim como a cooperação na COP."

Segundo ele, "toda a delegação alemã na COP gosta muito de Belém".

"Nós estamos impressionados com o trabalho da delegação brasileira e da presidência da COP. Nosso ministro do Meio Ambiente [Carsten Schneider], que está aqui para o período inteiro da conferência, e o secretário de Estado apenas têm boas palavras para falar sobre Belém e a presidência brasileira."

Ele conta que é sua primeira vez no Brasil e que está "impressionado" com a cidade. "Gostei de pegar um barco pelo rio até a ilha do Combu e ver uma pequena parte da linda floresta tropical. Foi uma experiência para a vida toda."

Bonde diz agora entender por que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) queria que a COP fosse em Belém. "Estamos perto da floresta amazônica, e isso dá uma impressão real do que está em jogo nessas negociações."

Já o cientista e consultor de transição ecológica Friedrich Bohn diz que não faz sentido comparar países. "Todos são diferentes, mas todos são importantes. Não há um ranking."

Ele elogia a capital paraense: "Estar aqui é muito bom, as pessoas são muito simpáticas, e a atmosfera é maravilhosa. Para mim, é como se fosse o paraíso. Eu realmente quero voltar".

Bohn acrescenta que, nestas duas semanas, este é um dos lugares mais importantes para se estar no planeta. "Não sei por que o primeiro-ministro não pensa dessa maneira. De maneira geral, nós precisamos da presença de mais tomadores de decisão de alto nível, tanto da política quanto da economia."

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