SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Após virar meme na internet durante a 21ª edição do Big Brother Brasil (Globo) por dormir muito ao longo dos dias, a cantora Pocah, 26, revelou em suas redes sociais que recebeu o diagnóstico de narcolepsia, distúrbio que provoca sonolência excessiva diurna, e agora começou seu tratamento.
Lúcio Huerba, neurologista do Hospital Sírio Libanês, explica que a narcolepsia é considerada uma doença neurológica do sono rara e os portadores do distúrbio enfrentam problemas em receber o diagnóstico correto. Ela acomete de 10 a 50 pessoas a cada 10 mil. Além de ser rara ainda é muito subdiagnosticada.
Huerba diz que existem cinco sintomas mais clássicos para o diagnóstico do distúrbio, dentre eles estão: sonolência excessiva diurna, cataplexia -perda de força muscular em especial após uma situação emocional intensa, sem perder a consciência-, paralisia do sono, alucinações e ter o sono noturno fragmentado.
O principal sintoma é a sonolência excessiva diurna, completa Paula Vallegas, neurologista especialista em medicina do sono. Huerba diz que o sintoma se manifesta através de ataques de sono, onde o indivíduo tem de forma súbita um sono irresistível e acaba dormindo em situações mais monótonas ou até inadequadas.
O neurologista comenta que quando o paciente dorme, faz cochilos curtos, de alguns minutos, e acorda se sentindo revigorado. É diferente de outras síndromes ou doenças que também levam a sonolência excessiva diurna.
Quanto às alucinações, Vallegas explica que existem dois tipos: Quando está entrando no sono, chamadas alucinações hipnagógicas, ou na transição do sono para a vigília, no despertar, chamadas hipnopômpicas.
Huerba diz que o mais comum, quando se tem as alucinações, é enxergar imagens aterrorizantes, como fantasmas, bruxas ou monstros e existem casos em que essas visões acontecem durante a paralisia do sono, o que pode ser traumatizante para o paciente.
Pocah não detalhou como a narcolepsia se manifesta nela, mas afirmou que está "tratando isso e algumas outras coisas como TDAH [Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade] e ansiedade". Minha prioridade agora está sendo cuidar de mim. Para que quanto antes eu possa retomar a minha vida normal. Achei importante compartilhar isso com vocês, afirmou ela nas redes sociais.
DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO
Huerba diz que após identificar os sintomas, existem exames confirmatórios. Vallegas completa que é necessário realizar um diagnóstico diferencial para não confundir o distúrbio com outras doenças ou hábitos que possam causar a sonolência excessiva diurna.
Ela explica que geralmente se pede ao paciente para relatar os horários de sono ao longo do mês e exames como actigrafia do sono ou polissonografia noturna. Na actigrafia, são monitorados os momentos em que o paciente cochilou ou dormiu.
Já a polissonografia noturna consiste no monitoramento do sono do paciente durante uma noite no laboratório. Conseguimos ver se o paciente possui outros distúrbios do sono, que entrariam como diagnóstico diferencial, diz Huerba, no dia seguinte ele segue monitorizado para ver o comportamento em relação ao sono no mesmo dia.
O neurologista explica que no dia seguinte após o exame, são dadas cinco oportunidades para o paciente cochilar, então é analisado quanto tempo o indivíduo demora para entrar no sono. Vemos se entra em um dos sonos profundos, o sono REM.
Vallegas explica que o sono REM (Rapid Eye Moviment) é a fase do sono mais profunda, onde temos o movimento rápido dos olhos e geralmente ocorrem os sonhos. Huerba afirma que os portadores de narcolepsia entram no estágio REM precocemente.
Além dessas opções, existe um exame mais invasivo, segundo Vallegas. Huerba explica que é [feito] através da pulsão lombar, nós avaliamos o liquor se os pacientes têm um peptídeo reduzido, chamado hipocretina. O neurologista diz que a hipocretina pode ser o mecanismo que causa todos os sintomas, uma vez que ela esteja baixa, o paciente desenvolve esses sintomas.
Sabe-se que existem duas categorias da doença: a narcolepsia tipo 1 que apresenta os sintomas e a baixa da hipocretina, e a tipo 2, que também possui os critérios diagnósticos, mas não tem a cataplexia e a hipocretina ou está normal, ou não se sabe.
A causa mais conhecida é a da narcolepsia tipo 1. A teoria diz que pessoas com pré-disposição genética, quando expostas a algum antígeno ou infecção, desenvolvem a autoimunidade e então o corpo produz anticorpos contra uma área específica do cérebro chamado hipotálamo lateral, que produz a hipocretina.
A falta do peptídeo deixaria o sono fragmentado, e seria a principal causa dos cinco principais sintomas, também por desestabilizar o sono REM. Apesar de não possuir cura, o distúrbio tem tratamento, e segundo Huerba ele é focado nos sintomas.
Ele pode ser farmacológico ou não farmacológico, explica o neurologista. Do ponto de vista não famacológico, orientamos uma higiene do sono, evitar estimulantes próximos do horário de dormir à noite, ter uma boa rotina, atividade física e fazer cochilos programados.
O médico diz que quanto aos métodos famacológicos, são prescritas medicações com o efeito estimulante para retardar e amenizar a sonolência excessiva durante o dia, e para os outros sintomas são usados medicamentos com efeitos inibidores do sono REM, a classe mais usada são alguns anti-depressivos.

