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Crise com demissões e redução de horários no Inmet ameaça previsão climática

Por Folha de São Paulo

19/06/2024 9h15 — em
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RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Em meio aos avanços das mudanças climáticas, a falta de recursos no Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia) gerou a demissão de 40 dos seus 208 profissionais terceirizados, incluindo meteorologistas e outros especialistas que atuam na previsão do tempo, segundo servidores do órgão.

O desligamento ameaça a coleta de informações meteorológicas e pode afetar o combate às catástrofes climáticas, como as chuvas que atingiram o Rio Grande do Sul. Lá, apenas dois meteorologistas permanecem para fazer a previsão do tempo em todo o estado.

O contrato dos profissionais terceirizados foi feito por parceria entre a Universidade Federal de Lavras (UFLA) e o Mapa (Ministério da Agricultura e Pecuária), por meio da Fundecc (Fundação de Desenvolvimento Científico e Cultural). Em nota, a Fundecc afirma que o aviso prévio enviado aos terceirizados ocorreu devido a um atraso no repasse de recursos financeiros.

Segundo a instituição, parte do orçamento foi enviado na última semana, o que permitiu a manutenção de alguns dos profissionais.

"A manutenção dos demais ficará condicionada ao repasse necessário para honrar os salários previstos até o final da parceria, em 30 de agosto."

Procurado, ministério da gestão Lula (PT) não respondeu aos questionamentos sobre a demissão de terceirizados até a publicação desta reportagem.

Nos Estados Unidos, que tem território de proporções continentais assim como o Brasil, o Serviço Meteorológico Nacional tem aproximadamente 2.000 meteorologistas, a maior organização dessa área do mundo.

A última entrada de servidores no Inmet ocorreu em 2006. Desde então, o número de meteorologistas do órgão foi de 71 para 27, uma queda de 60%. Os dados são do painel estatístico de pessoal do governo federal.

O último concurso, anunciado em 2015, foi cancelado. A previsão era de 242 vagas, entre meteorologistas, auxiliares e outros cargos. Hoje, dos 208 profissionais ativos no instituto, 149 recebem abono de permanência, de acordo com os servidores, benefício concedido a quem opta por continuar no posto mesmo que já tenha idade para se aposentar.

O Enem dos Concursos —Concurso Nacional Unificado—, adiado devido à tragédia no Rio Grande do Sul, oferta 80 vagas para o órgão. Dessas, metade são para meteorologistas e a outra metade é para formações amplas, como das áreas administrativa e de tecnologia do Inmet.

Por meio da Condsef (Confederação dos Trabalhadores no Serviço Público Federal), a categoria pediu uma audiência com o Ministério da Agricultura na semana passada, mas não teve retorno até a publicação desta reportagem.

O sindicato previa um colapso do órgão já a partir do dia 15 de junho, quando o aviso prévio dos servidores desligados terminou.

Com a redução da força de trabalho, os servidores dizem que vão atuar sob horários limitados. Atividades do Inmet que já chegaram a funcionar até 23h passarão a ser encerradas mais cedo.

Aos fins de semana, os meteorologistas só devem trabalhar até as 13h, já que não há outros profissionais para fazer escala.

A categoria também reclama da falta de estrutura para trabalhar. As estações meteorológicas não têm recebido manutenção, o que pode gerar erros na coleta de dados sobre o clima e na previsão do tempo.

Um dos servidores que vão permanecer no Inmet e prefere não ser identificado lembra que os dados produzidos pelo órgão vão para o mundo inteiro, já que, por exemplo, tempestade que acontece aqui no Brasil pode afetar um navio que está indo para o canal do Panamá.

Outra preocupação dos profissionais é no acolhimento dos novos meteorologistas que devem entrar pelo concurso unificado. Não há pessoas suficientes para treinar os ingressantes, o que, para os servidores, vai dificultar ainda mais o trabalho.

A categoria defende que a profissão de meteorologista esteja na categoria de carreira de ciência e tecnologia, de maior remuneração, e vinculada ao Ministério do Meio Ambiente em vez de Agricultura. Os ingressantes no CNU estarão sob essa categoria, o que também revolta os servidores do Inmet.

"Vai haver profissionais exercendo a mesma função, mas em carreiras diferentes. Estamos exigindo que os servidores já atuantes tenham o mesmo tratamento, porque os futuros profissionais serão treinados pelos antigos, mas vão ter um salário maior", diz Ismael José César, diretor da Condsef.

ADIAMENTO DO CONCURSO

Categorias como o Inmet, que tiveram maior diminuição no total de servidores, são as mais afetadas pelo adiamento causado pelas chuvas no Rio Grande do Sul.

A falta de servidores vai impactar a agenda do governo porque, sem profissionais, não será possível cumprir as metas de desempenho, de acordo com Cibele Franzese, professora de administração pública da FGV (Fundação Getulio Vargas).

A prova vai ocorrer em 18 de agosto, e os novos servidores devem ingressar apenas no fim do ano, o que resulta em menos tempo para entrarem no ritmo de trabalho no setor.

"É muito difícil que servidores entrem no governo nessa quantidade, sejam recebidos, se ambientem e já consigam contribuir efetivamente para políticas públicas ainda neste mandato", diz a professora.


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