RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - O corte de perguntas nos questionários do Censo Demográfico inviabilizou a coleta de parte das informações sobre migração, uma das áreas investigadas na pesquisa, afirmou o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Os dados sobre o tema foram divulgados nesta sexta (27).
A redução foi determinada ainda na fase preparatória da contagem populacional, em 2019, durante o governo Jair Bolsonaro (PL). Na ocasião, a situação gerou embates entre os técnicos do IBGE e a direção do instituto, presidido à época pela economista Susana Cordeiro Guerra.
Na comparação com o Censo anterior, de 2010, um dos quesitos retirados dos questionários foi o de emigração internacional, que mediria a saída de pessoas do Brasil para outros países.
Com o corte, a edição de 2022 focou a imigração internacional. Ou seja, pessoas de outras nações que passaram a residir no Brasil.
O número de estrangeiros no país saltou 70,3%, ao pular de quase 592,6 mil em 2010 para cerca de 1 milhão em 2022, apontou o IBGE. Esse movimento teve impulso da entrada de venezuelanos.
Outro detalhamento retirado do Censo 2022, conforme o instituto, foi o indicador de tempo de residência da população nas unidades da federação.
A pesquisadora Izabel Marri, gerente de estudos e análises demográficas do IBGE, lamentou o corte e afirmou que o levantamento "perdeu dois quesitos importantes".
"Foi uma discussão da gestão do IBGE à época. Não foi uma decisão técnica. À época, trocou-se a gestão, e queriam reduzir o tempo do questionário. Então, esses dois quesitos foram retirados", disse a demógrafa em apresentação a jornalistas.
"Acho que a gente perdeu informação e talvez no próximo Censo consiga colocar isso de novo."
Os recenseamentos costumam ocorrer de dez em dez anos. A edição mais recente estava prevista para ir a campo em 2020, mas acabou adiada para 2022. A mudança no cronograma ocorreu devido a restrições de mobilidade na pandemia e aperto orçamentário.
A redução dos questionários chegou a ser contestada por servidores do IBGE e especialistas em 2019. À época, os críticos apontavam risco de perda de informações, além de possíveis prejuízos a estimativas populacionais, já que os fenômenos migratórios são levados em consideração nas previsões.
A direção do IBGE, por sua vez, argumentava que parte das estatísticas poderia ser levantada por meio de outras fontes, como registros administrativos (dados de órgãos públicos).
O enxugamento do Censo foi visto como uma tentativa de diminuir custos em meio a restrições fiscais no país, apesar de o comando do órgão alegar que esse não era o principal objetivo.
"O ajuste nos questionários tem como principal objetivo garantir a qualidade do Censo Demográfico, especialmente no que se refere à consistência e precisão das respostas. Naturalmente, um questionário menor tende a reduzir os custos globais da operação, mas esta não foi a preocupação central quando da decisão de otimizar o número de perguntas", afirmou um comunicado divulgado no site da agência de notícias do IBGE antes da realização da pesquisa.
O corte não se limitou à migração e também atingiu outras áreas pesquisadas no Censo. O levantamento é composto por dois tipos de questionários: básico e da amostra. O segundo é mais detalhado, com aplicação em uma parcela representativa dos domicílios.
Em 2022, o questionário básico teve 26 perguntas, e o da amostra, 77. Em 2010, os números eram de 34 e 102, respectivamente. O tema da migração é contemplado pelo questionário da amostra em 2022.
"Vamos tentar, pelo amor de Deus, simplificar. O censo dos países ricos tem dez perguntas, o Censo brasileiro tem 150, e o censo do Burundi tem 360. Se perguntar demais, você vai acabar descobrindo coisas que nem queria saber. Sejamos espartanos, façamos as coisas mais compactas e vamos tentar de toda forma ajudar", disse em 2019 o então ministro da Economia, Paulo Guedes. A declaração ocorreu durante cerimônia de posse da presidência do IBGE.
O instituto tem convivido com restrições de verba para suas pesquisas, além de perda de funcionários ao longo dos anos.
Diante do quadro, há quem defenda a intensificação do uso de registros administrativos, que já são utilizados em parte dos trabalhos do órgão.
O Censo, contudo, é uma pesquisa domiciliar ou seja, visita os lares brasileiros. A contagem populacional serve de base para políticas públicas.


