Na inauguração do jardim vertical, Doria, hoje governador, se referiu ao projeto como "o maior corredor verde do mundo em um eixo urbano" e garantiu que a ação não iria representar custos aos cofres municipais.
Desde o meio do ano passado, porém, a manutenção desse corredor já custou pelo menos R$ 500 mil.
Com o valor mensal despendido atualmente seria possível, por exemplo, plantar cerca de 500 mudas de árvores de espécies nativas na cidade a cada mês.
"Cada muda, no padrão Dpav (Departamento de Parques e Áreas Verdes), custa cerca de R$ 200. Essas paredes nos custam mais caro que uma floresta", diz o botânico Ricardo Cardim, especialista em arborização urbana.
"Uma árvore dura, no mínimo, 60 anos e capta muito mais CO2 (dióxido de carbono) que uma herbácea [como as plantadas nos muros da avenida]."
Longe de ser uma unanimidade, a medida sofre críticas desde sua implantação, em agosto de 2017, logo após a polêmica causada pelo ex-prefeito ao mandar apagar os grafites que existiam nas paredes da avenida que liga o centro da cidade à zona sul paulistana.
A principal crítica ao projeto de Doria --além das direcionadas à falta de diálogo por ter apagado os grafites, em grande parte patrocinados por seu antecessor Fernando Haddad (PT)-- é o baixo impacto no sequestro de carbono das plantas que passaram a ornamentar os muros da avenida.
Como a Folha de S.Paulo mostrou antes mesmo da inauguração do corredor, para que ele tivesse alguma relevância ecológica real para a cidade seria necessário que tivesse mais de 1.500 km --distância similar ao trajeto de São Paulo a Cuiabá, em Mato Grosso.
Pelo acordo feito em 2015, ainda na gestão Haddad, em vez de plantar mais de 26 mil árvores, a construtora de um residencial no Morumbi foi autorizada a financiar a construção de jardins verticais para compensar a destruição de mais de 800 árvores que havia no terreno.
Até o fim de 2016, cinco jardins nas laterais de prédios que circundam o Minhocão, na região central, haviam sido implantados.
No início da gestão Doria, o então prefeito resolveu que as laterais da 23 de Maio fariam parte da compensação. O valor da implantação do projeto foi de R$ 9,7 milhões.
A manutenção de plantas e folhagens, como manjericão, coração-magoado, alecrim, brilhantina, tapete-inglês, orégano, salsa-íris, coleus, entre outras, foi entregue ao Movimento 90°.
Em março de 2018, no entanto, a empresa desistiu de fazer a manutenção, alegando falta de condições financeiras, diz a prefeitura.
A empresa nem sequer pode ser multada, já que tudo foi apenas apalavrado por meio de cartas com a prefeitura
A partir de então, a secretaria das Subprefeituras passou a arcar com o valor da manutenção e pequenos serviços relacionados ao muro verde.
Uma licitação foi lançada pela prefeitura para que uma nova empresa assumisse o contrato.
O resultado foi sentido não apenas nos cofres da administração municipal, mas também no caminho dos paulistanos que passam diariamente pela 23 de Maio.
Em lugar de paredes verdes, o marrom de plantas secas tomou os muros da avenida.
Como a Folha mostrou à época, de abril a junho de 2018, logo após a empresa que fazia a manutenção desistir do serviço, as plantas passaram meses sem receber irrigação porque a prefeitura não pagara contas de água e luz referentes ao abastecimento.
Plantadas em pequenos vasos colados à parede, as plantas necessitam de irrigação pois não são capazes de obter toda a água que necessitam apenas da chuva.
Apesar de crítico à implantação do muro verde, Cardim defende sua manutenção.
"Seria um equívoco completo fazer novas paredes como essa, mas já que foi instalado e milhões em dinheiro de compensação ambiental foram gastos, como vai parar agora?", diz.
Ainda que pragmático em relação ao futuro do muro verde, o botânico afirma que as prioridades da administração municipal em relação à cobertura vegetal da cidade deveriam ser outras. "Numa cidade como São Paulo, que não sabe nem ao menos quantas e quais árvores tem, isso virou um problema", afirma.
PREFEITURA AFIRMA QUE JARDIM VERTICAL FOI RECUPERADO
A Secretaria Municipal das Subprefeituras afirma, em nota, que, em 2017, a empresa Movimento 90º assinou Termo de Compensação Ambiental que tinha exigência legal de 12 meses para a manutenção do jardim vertical da avenida 23 de Maio.
De acordo com a pasta, após esse prazo, "a empresa firmou um compromisso de manutenção sem obrigações contratuais.
Em seguida, a empresa suspendeu os serviços, alegando não ter condições financeiras para prosseguir. Nesse período, as subprefeituras assumiram os serviços de manutenção como irrigações diárias, pequenos reparos e reposição de peças".
Em 2019, afirma a secretaria, a empresa Era Técnica Engenharia foi a vencedora da licitação para a manutenção dos jardins. Começou a prestar os serviços em 1º de julho de 2019.
O valor exato do contrato é de R$ 106.980,00 por mês.
"A empresa presta serviços de limpeza e troca de mudas, substituição das bombas queimadas e furtadas, além de manutenção no sistema de irrigação", diz a secretaria.
"Uma obra civil também está sendo realizada para conter o acesso às casas de máquinas, evitando furtos e vandalismo, 100% dos jardins já foram recuperados."
