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COP30 precisa perder linguagem da Faria Lima e adotar a de direitos humanos, diz diretora da Anistia Internacional

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BELÉM, PA (FOLHAPRESS) - Na Rio-92, conferência da ONU sobre meio ambiente que criou a base para as COPs, algumas das principais metas eram salvar o urso-panda, a arara-azul e as baleias da extinção. A médica Jurema Werneck, diretora da Anistia Internacional no Brasil, estava lá.

Mais de 30 anos depois, ela diz que os animais em extinção foram protegidos, mas "a gente é que está acabando".

Segundo Werneck, enviada especial da COP30 para periferias e racismo ambiental, as conferências da ONU para a mudança climática esqueceram que o ponto central da crise é o ser humano, que pode deixar de existir.

"Parece que a gente está em uma reunião da Faria Lima global", diz a ativista em referência à avenida de São Paulo que concentra escritórios do mercado financeiro, em crítica à quantidade de conversas sobre números na conferência diante da falta de urgência em apontar soluções concretas.

Para ela, não basta anunciar recursos a diferentes fundos sem implementar soluções para quem está na linha de frente dos eventos climáticos extremos —mulheres, pessoas negras, indígenas, quilombolas e ribeirinhos.

São esses grupos mais vulneráveis, diz, que apresentam diferentes soluções para a crise. Em preparação para o papel de enviada na COP30, Werneck se juntou às enviadas Denise Dora (direitos humanos e transição energética) e a primeira-dama Janja (mulheres) para ouvir mulheres de comunidades tradicionais de todos os biomas do país.

Apesar de testemunhar as dificuldades geradas pela emergência climática, diz, a conclusão do projeto teve um saldo positivo: "As mulheres não vão deixar o mundo acabar de jeito nenhum".

*

PERGUNTA - No projeto Vozes do Bioma, a senhora acompanhou relatos sobre os efeitos da crise climática em mulheres negras em todos os biomas do Brasil. O que mais te marcou nesse processo?

JUREMA WERNECK - Ainda que nós já soubéssemos que somos nós que estamos na linha de frente, que somos nós que criamos as estruturas para manter as comunidades, me impactou muito ver, por exemplo, uma mulher negra liderando um processo de plantadores de água [projetos de reflorestamento para superar a seca]. Me impactou muito positivamente ver essas soluções.

É claro que senti um impacto negativo. Elas estão criando soluções porque a situação é muito ruim para as mulheres negras, indígenas, pescadoras e de comunidades tradicionais. Nós visitamos uma comunidade de ribeirinhas, basicamente de mulheres negras, onde estão fazendo tudo sozinhas.

Visitamos também ribeirinhas que floresceram com investimentos. A questão é que as que florescem com investimento são a minoria do que encontramos.

Mas o balanço é muito positivo, porque as mulheres não vão deixar o mundo acabar de jeito nenhum. O mundo está sob ameaça agora e elas estão fazendo o que é preciso para salvá-lo.

P - Como a senhora pretende atuar como enviada especial da COP30 para racismo ambiental e periferias a partir dessa experiência?

JW - Contar [o que ouvimos] aos negociadores. A gente já entregou a carta [com as demandas e soluções encontradas em cada bioma] para os chefes de Estado, mas todos os outros representantes precisam ler. É uma mensagem das mulheres. Se eles não forem ler no papel, vão fazer leitura labial, porque a gente vai falar.

O nosso esforço é exatamente esse. Insistir, demonstrar, ensinar, com uma paciência alargada —porque essa é a trigésima COP, eles tiveram 29 oportunidades de acertar.

P - Como é representar os direitos humanos em uma conferência que foca nas negociações econômicas?

JW - Uma conferência que esqueceu que os direitos humanos existem.

Eles têm a obrigação de lembrar que a Declaração Universal dos Direitos Humanos tem mais de 70 anos. Vamos continuar conversando para lembrar a eles que [a COP] é sobre gente. São os direitos da natureza como um todo que são defendidos, porque também é um direito humano viver na natureza e em um ambiente saudável.

Parece que a gente está em uma reunião da Faria Lima, porque eles só falam de fundo, de dinheiro, de não sei o quê.

P - A crise climática é também uma crise dos direitos humanos?

JW - Ela é uma crise de direitos humanos, mas em uma dimensão existencial. É a sobrevivência da humanidade que está em jogo. Nós tivemos um secretário geral da Anistia que dizia: é uma crise profunda, está tudo sob ameaça. Diferentes espécies estão em ameaça, mas em última instância, quando tudo se destruir, a gente acaba também.

Tem uma corrente da sociedade civil que diz que não existe planeta B, só planeta A. E a gente não vai regenerar. O resto todo vai, a gente já viu outras vezes. A floresta nasce de novo. O urso-panda, eu sempre penso no urso-panda, porque na Rio-92, a gente queria salvar o urso-panda, as baleias e a arara-azul. Regeneraram. Percebe? Eles estão de volta. A gente é que está acabando.

É com esse nível de urgência que a gente precisa trabalhar. Se a gente acha que a humanidade é uma coisa legal, é bom meter a mão na massa.

P - A senhora acredita que a demora para perceber a urgência da crise climática envolve o fato de que os eventos extremos são sentidos principalmente em países em desenvolvimento?

JW - É porque eles sempre viram a nossa morte. Vem dessa experiência de modelo econômico, de invasão e colonização. É o Sul Global, esses países que foram invadidos, colonizados e expropriados. A nossa morte, os genocídios, sempre estiveram aí.

A gente fez transições: a Declaração Universal dos Direitos Humanos é um consenso importante, que diz que a gente existe também como seres humanos. As declarações de direitos indígenas, o reconhecimento das comunidades tradicionais, programas de ação de gênero, de enfrentamento ao racismo, foram avanços. Mas parece que eles colocaram tudo debaixo do tapete.

P - O que seria considerado uma vitória para os direitos humanos na COP30?

JW - Do ponto de vista estrito, era o reconhecimento [na carta] de que os direitos humanos são parte fundamental dos processos da tomada de decisão. Mas isso não está em discussão diretamente porque é algo que teria que ser óbvio.

Acho que uma vitória técnica é aparecer para além da citação. E como é que aparece? É preciso que a gente avance da linguagem da Faria Lima global para uma linguagem de direitos humanos. A linguagem não é palavra no papel, mas a forma como se enfrenta o problema, se descreve e implementa a solução.

A vitória seria a gente fazer de fato uma transição justa, de fato contemplar as comunidades locais, dar protagonismo e prioridade para elas, de fato colocar as mulheres na liderança.

Vamos enfrentar o racismo ambiental? Como? A gente vai resolver o esgoto que tirou daqui [do Parque da Cidade] e botou na favela [de Belém]? Vai sair daqui com esse compromisso? Estou dizendo o exemplo de Belém, mas é para o mundo inteiro.

Não vamos sair nesse nível, mas a vitória é que nosso compromisso seja completo, melhor articulado nos documentos e na política.

*

RAIO-X | Jurema Werneck, 63

Médica, ativista, autora e doutora em comunicação e cultura pela UFRJ. É fundadora da ONG Criola, que desde 1992 atua pela garantia dos direitos das mulheres negras no país. Em 2017, assumiu a direção executiva da Anistia Internacional Brasil.

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