Início Variedades Contra quebra de patentes, Brasil endossa iniciativa na OMC para ampliar distribuição de vacinas
Variedades

Contra quebra de patentes, Brasil endossa iniciativa na OMC para ampliar distribuição de vacinas

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O Brasil endossou formalmente uma proposta na OMC (Organização Mundial de Comércio) para ampliar a produção e distribuição de vacinas contra a Covid-19 e, com isso, tentar superar o impasse na entidade quanto à quebra de patentes de imunizantes e medicamentos contra a coronavírus. A decisão do país de copatrocinar a iniciativa apoiada por outros oito países na OMC também busca evitar que seja aprovado pelo Congresso um projeto que prevê a suspensão dos direitos de propriedade intelectual das vacinas contra a Covid-19. Na quinta-feira (8), o ministro Carlos França (Relações Exteriores) comunicou a diretora-geral da OMC, Ngozi Okonjo-Iweala, de que o Brasil entraria na coalisão formada por Austrália, Canadá, Chile, Colômbia, Equador, Nova Zelândia, Noruega e Turquia. A proposta agora endossa pelo Brasil prevê que a diretoria-geral da OMC estabeleça um fórum que reúna países e desenvolvedores e produtores de vacinas e de outros medicamentos contra o vírus, além da OMS (Organização Mundial de Saúde) e de outras entidades. São três os objetivos desse fórum: o mapeamento da capacidade ociosa em diferentes lugares do mundo que possa ser usada para o aumento da produção de vacinas; a facilitação, por meio da OMC, de acordos de transferência de tecnologia com as fabricantes de imunizantes; e a identificação de barreiras comerciais que de alguma forma possam dificultar a importação e exportação de vacinas. A principal diferença da iniciativa com uma proposta apresentada anteriormente por Índia e África do Sul é que ela não prevê a quebra de licenças e patentes de vacinas durante a pandemia. O argumento apresentado por essas nações é que isso tornaria a produção de imunizantes mais barata e acessível para nações mais pobres. Apesar de pedidos de sul-africanos e indianos, o Brasil não aceitou fazer parte da iniciativa, o que gerou críticas contra o ex-chanceler Ernesto Araújo. Nas últimas semanas, negociadores brasileiros passaram a ver com bons olhos a ideia lançada pelo grupo de oito países, que na entidade foi vista como uma "terceira via". Mas, segundo interlocutores, a luz verde para que o país aderisse ao projeto só foi dada por França, o novo chanceler. França colocou como uma de suas prioridades promover o que chamou de "diplomacia da saúde" --Ernesto, por outro lado, caiu após diversas críticas de parlamentares de que o Itamaraty não estaria empenhado na busca de vacinas e medicamentos. O argumento de negociadores brasileiros é que no momento o apoio do Brasil à quebra de patentes não resolveria o problema imediato de falta de vacinas e poderia, ainda, ser contraproducente. Além do mais, afirmam, a moratória proposta por Índia e África do Sul é muito ampla e engloba outros insumos de combate à Covid. O diagnóstico é que a falta de imunizantes no Brasil e em outras partes do mundo se deve à falta de capacidade produtiva, e não aos direitos de propriedade intelectual. Além do mais, dizem pessoas que acompanham o tema, a suspensão dos direitos de propriedade intelectual não seria suficiente para que o Brasil reproduzisse fórmulas e resolvesse o atual problema de falta de oferta. Por último, interlocutores ressaltam que grandes laboratórios internacionais --que hoje fornecem vacinas para os governos-- poderiam ver o país como um risco de apropriação de segredos industriais, o que dificultaria a assinatura de contratos ou mesmo os acordos já existentes de transferência de tecnologia. "O Brasil entende que o acordo Trips [que regula a propriedade intelectual] compreende adequado conjunto de incentivos à inovação e de flexibilidades consagradas na Declaração de Doha sobre Trips e saúde pública, inclusive à luz do princípio do interesse público, para enfrentar crises de saúde. O Brasil continuará a participar de todas as discussões na OMC sobre iniciativas para combater a pandemia, inclusive aquelas relacionadas ao sistema de propriedade intelectual", diz o Itamaraty, em nota. "É importante notar, finalmente, que todos os países-membros da OMC --o Brasil incluído-- estão habilitados pelo acordo Trips a decretar o licenciamento compulsório de patentes como forma de atender a imperativos de ordem pública, modalidade prevista na legislação nacional", conclui a chancelaria. A expectativa do governo Bolsonaro é que a adesão do Brasil à "terceira via" na OMC ajude a convencer senadores de desistir do projeto de lei que trata da suspensão de direitos intelectuais de medicamentos contra a Covid-19. A justificativa apresentada aos parlamentares tem sido a mesma da resistência do Brasil à proposta da Índia e África do Sul: no contexto atual de alta dependência dos grandes laboratórios, uma medida que sinalize descompromisso com patentes poderia ter efeito adverso e desencorajar contratos e estudos clínicos no Brasil. A posição do governo foi apresentada pelo chanceler França à senadora Katia Abreu (PP-TO), presidente da Comissão de Relações Exteriores e uma das principais apoiadores da proposição que corre no Congresso sobre a quebra de patentes.

Siga-nos no

Google News
Quer receber todo final de noite um resumo das notícias do dia?