Foram inscritos, ao todo, 1.632 livros inéditos de autores estreantes na categoria escolhida. Pela primeira vez, houve mais inscrições de contos do que de romances - 844 ante 788. Criado em 2003, o prêmio, que já recebeu mais de 20 mil originais, foi o pontapé inicial para a carreira de escritores e escritoras como Luisa Geisler, André de Leones, Rafael Gallo, Lúcia Bettencourt, Marcos Peres e Sheyla Smanioto, entre outros.
Nascida em Vacaria, no Rio Grande do Sul, e editora da revista literária Travessa em Três Tempos, Taiane Santi Martins levou seis anos (quatro de escrita e dois de revisão) para finalizar seu romance escolhido por um júri final composto por Itamar Vieira Junior e Luciany Aparecida. Mikaia narra a história de três gerações de mulheres que viveram e fugiram da guerra civil moçambicana.
A autora explica, nesta primeira entrevista, que o romance surgiu da personagem que, por sua vez, surgiu, em 2012, de um desenho do viajante Louis Choris retratando a dança e a música em Santa Catarina, no século 19. Um contexto histórico completamente diferente do que decidiu seguir depois, mas que deixou sua marca. "Quando fui escrever meu projeto de doutorado, resgatei a imagem de uma mulher dançando ao som de um carimba e o nome Mikaia. A ideia era trabalhar, por meio da ficção, conceitos que venho estudando teoricamente desde minha primeira graduação, em História - em especial a construção da memória", comenta.
O mote inicial, ela explica, foi colocar memórias em disputa. Enquanto Mikaia, uma dançarina de balé que sofre uma amnésia repentina, quer lembrar, sua irmã, Simi, quer esquecer e sua avó, Shaira, decide silenciar.
Taiane, que foi aluna da famosa e pioneira Oficina de Criação de Luiz Antonio de Assis Brasil e viveu por um tempo em Moçambique, conta que há pelo menos 12 anos faz pesquisas no campo dos estudos africanos e que, por isso, era fundamental que esse fosse o coração de sua história. Quanto à sua formação, ela diz que a oficina foi fundamental. "Uma coisa é sua família e amigos acreditarem em sua escrita, outra é o Assis Brasil acreditar", brinca.
Para ela, mais do que oferecer teoria e prática, esse tipo de curso permite a convivência com pessoas comprometidas com a prática da literatura. "As oficinas que fiz me deram a base necessária não só para que eu acreditasse que poderia escrever, mas também para que eu encontrasse minha voz", diz - e acrescenta sua longa formação como leitora neste percurso.
Quanto a ter seu livro escolhido pelo autor de Torto Arado, um dos maiores sucessos da literatura brasileira contemporânea, a escritora se disse muito emocionada e honrada. "Li Torto Arado e vi o amor de minha família pela terra retratado no romance. Sou filha de pequenos produtores rurais, cresci num sítio, em meio à lida do campo e, embora exista um país inteiro entre o sul onde nasci e o sertão de Belonísia e Bibiana, me senti muito próxima das personagens de Itamar Vieira Junior - às vezes mais do que em relação a grandes personagens da literatura gaúcha. E, nesse sentido, é muito significativo para mim saber que ele fez parte do júri."
Melhor livro de contos
Do sul ao norte. Pedro Augusto Baía, vencedor do Prêmio Sesc na categoria Contos, nasceu e vive em Abaetetuba, no Pará, um município às margens do Rio Maratauíra. É psicólogo, trabalha como analista judiciário no Tribunal de Justiça do Estado do Pará, tem doutorado em Psicologia Forense na Universidade de Coimbra e faz, este ano, sua estreia na literatura.
Sua relação com o mundo dos livros, porém, começou muito antes - na infância, com os livros que a mãe levava para casa, com a literatura dos escritores locais que vendiam suas obras de porta em porta, com a ajuda da irmã e de professores; continuou na adolescência, com as muitas idas às bibliotecas da cidade, e segue como parte importante de sua vida.
"A literatura é um ecossistema de humanização para mim. E, de agora em diante, espero que a literatura opere em minha vida como uma arte de comunicação com o mundo, como um processo de diálogo humanizador, para que por meio da literatura possamos refletir sobre afetos, meio ambiente, direitos humanos", conta o novo escritor, também em sua primeira entrevista sobre seu livro premiado.
Os primeiros contos de Corpos Benzidos em Metal Pesado nasceram a partir da segunda metade do ano de 2018. "Eu me encontrava bastante mobilizado pelo cenário político e social brasileiro; era o ano das eleições presidenciais, o sentimento de despedaçamento da democracia aflorava em nossos corpos. Eu ainda não sabia muito bem o que estava produzindo, mas precisava escrever para refletir sobre os meus sentimentos, sobre a Amazônia, o Brasil e o mundo", conta.
Ao longo dos anos, foram surgindo novos contos, que ele foi reescrevendo em busca de sua voz narrativa. Em 2020, durante a pandemia, Pedro percebeu que seus contos possuíam, de alguma forma, um fio condutor e isso sugeriu a organização de um livro. Ele poderia ter se chamado Ano do Delírio ou então Estética da Ruína, mas os novos textos criados entre 2021 e 2022 levaram ao título definitivo: Corpos Benzidos em Metal Pesado.
"Inicialmente, os contos nasceram como um pedido de socorro, uma válvula de escape para eu expressar a angústia, a preocupação e as reflexões sobre o cenário ambiental, político e social brasileiro, com especial atenção para o Estado do Pará. Eu vejo diariamente a devastação ambiental, o assassinato dos rios, os conflitos de terra, mas também vejo um povo resistindo, por meio de sua cultura, ancestralidade, artesanato e uma relação íntima com o rio e as florestas", comenta o autor.
Ele continua: "Então, o fio condutor é o processo de devastação a que estão sujeitos os nossos corpos, afetos e geografias, em contraposição a uma reza ancestral que persiste entre nós, como um pedido de socorro, uma tentativa de reconstrução dos sentimentos e geografias".
O júri final que premiou o livro de Pedro foi composto pelos escritores Natalia Borges Polesso e Paulo Scott.



