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Conexão do PCC com transporte de São Paulo remonta a perueiros e brigas de décadas

Por Folha de São Paulo

13/04/2024 16h00 — em
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Se surpreende pelas cifras que chegam a R$ 1 bilhão, a investigação coordenada pelo Ministério Público contra um suposto esquema de lavagem de dinheiro em empresas de ônibus para o PCC (Primeiro Comando da Capital) é o capítulo novo de uma história antiga em São Paulo.

Entre os mandados de prisão da operação Fim da Linha, deflagrada na última terça (9), estão, por exemplo, os nomes de Luiz Carlos Efigênio Pacheco, o Pandora, preso, e Silvio Luiz Ferreira, o Cebola, que está foragido. Ambos, segundo o Ministério Público, têm ligação com o PCC e com as antigas classes de perueiros.

Há três décadas, no entanto, o transporte alternativo nem sequer havia se proliferado em São Paulo. Em 1992, a operação de ônibus havia sido municipalizada pela então prefeita Luiza Erundina (no PT à época) para modernizar a frota e o serviço. Antes, em 1990, um decreto da prefeita havia autorizado o transporte por lotação, que operava principalmente dentro dos bairros.

Mas, em maio de 1992, quando a operação municipalizada havia engrenado sob a CMTC (Companhia Municipal de Transporte Coletivo), Erundina, hoje deputada federal pelo PSOL, enfrentava a maior greve já registrada no transporte de São Paulo. Foram nove dias de paralisação, observados pelas grandes empresas da época --Ruas, Belarmino e Constantino.

No ano seguinte, a gestão de Paulo Maluf (então no PDS) iniciou estudos para reverter a municipalização e privatizar a CMTC, que daria lugar, em 1995, à SPTrans, responsável pela gestão do sistema de transporte na capital.

O fim da CMTC, que expandiu a operação na cidade mas se tornou financeiramente inviável, deixou um vácuo na oferta de transportes, já que os contratos foram renegociados de novo com as empresas. Ao longo da década de 1990, e especialmente após o fim da CMTC, os perueiros ocuparam esse espaço.

As Kombis clandestinas lotadas de passageiros viraram parte da rotina. Em 1997, primeiro ano do mandato do prefeito Celso Pitta (então no PPB), a cidade convivia com protestos dos motoristas e negociações para tentar organizar a operação que, na época, contava com 15 mil perueiros --2.700 deles legalizados.

Sem conclusão, a questão se arrastou pelo mandato. Dois anos depois, em 1999, perueiros queimavam um ônibus enquanto a Câmara aprovava um projeto para regularizar até 4.100 motoristas.

O projeto também permitia o desenho de uma licitação para a concessão de linhas, obrigando os motoristas a adotarem padrões de segurança e trajeto. Era o começo de um processo que só seria concluído na gestão de Marta Suplicy (PT), a partir de 2001.

Pitta ainda enfrentou um processo de impeachment pelo chamado Pittagate, que não chegou a tirá-lo definitivamente do cargo. Após um período de afastamento, em 2000, chegou a ser carregado nos braços dos perueiros, que ganharam naquele ano um alvará temporário, de volta à prefeitura.

A licitação de Pitta foi cancelada em março de 2001 por irregularidades, segundo a gestão Marta Suplicy. Em meio a protestos, a categoria ganhou uma prorrogação da licença temporária para rodar pela cidade.

Já o setor de ônibus --motoristas e cobradores, além de empresários-- também pressionavam por melhorias. O serviço estava sucateado, com ônibus velhos e empresários acomodados sob a queixa da concorrência desleal com o transporte clandestino.

Uma nova licitação do transporte, concluída em 2003, dividiu a cidade em oito lotes e permitiu que consórcios formados por cooperativas de profissionais autônomos aderissem ao novo sistema para receberem os repasses da prefeitura. Foi então que os perueiros, que cresceram na ilegalidade, passaram para o lado oficial do serviço.

Ao longo dos anos, as cooperativas passaram a ganhar mais dinheiro e trocaram as Kombis por micro-ônibus e linhas de ônibus. Mas práticas como o uso de apoio político, o pagamento de propina e de proteção, além da lavagem de dinheiro, também se perpetuaram no meio, segundo autoridades.

Pandora, alvo da operação Fim da Linha, chegou a ser preso em 2006, quando presidia a CooperPam, uma associação de perueiros, sob a acusação de ter financiado uma tentativa frustrada de resgate de um integrante da facção criminosa. A Cooperpam foi incorporada anos depois à Transwolff, uma das empresas investigadas.

Segundo os promotores da operação Fim da Linha, a empresa era usada para lavar dinheiro injetado pelo PCC por meio de laranjas, que depois era distribuído como dividendos e reinvestido em carros e imóveis.

Já Cebola foi preso em flagrante em 2012 com mais de meia tonelada de maconha na garagem da extinta cooperativa Paulistana G2, na zona norte de São Paulo, que depois daria origem à Qualibus e, em seguida, à UPBus, a outra empresa da operação. Solto após decisão da Justiça, nunca mais foi encontrado.

Anos depois, em 2014, Jilmar Tatto, na época secretário de Transportes da gestão Fernando Haddad (PT), foi flagrado pela polícia em um encontro na Transcooper no qual estavam 13 integrantes do PCC. À época, Tatto negou qualquer ligação com facções criminosas.

O petista, assim como o presidente da Câmara de São Paulo, Milton Leite (União Brasil), foi incluído pelo Ministério Público como testemunha na operação Fim da Linha.

O problema não ficou restrito à cidade de São Paulo. Operações semelhantes também aconteceram na região metropolitana da capital paulista, como uma investigação da Polícia Civil contra a Coopertab e a Coopergente, de Taboão da Serra, em setembro de 2009.

A suspeita era de que dois vereadores da cidade, Valdevan Noventa e José Luiz Eloi (à época presidente da Câmara de Taboão da Serra), eram usados para lavar dinheiro do tráfico em Paraisópolis, na capital, e em cidades do sul da Grande São Paulo.


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