Cassiano, que começou a ouvir histórias ainda na barriga da mãe, tem hoje 4 meses. A hora da leitura na casa desta nova família de Brasília é sagrada. No final do dia, quando todas as rotinas já foram cumpridas e ainda não chegou a hora de dormir, Isadora pega seu bebê no colo ou o coloca no carrinho, estica a mão para alcançar os livros que ela deixou num cesto perto do sofá, e começa a ler para ele. Cassiano não entende as palavras nem as histórias, mas começa a aprender a ler sua mãe e a entrar em contato com as emoções. Dia desses, ao ler um mito grego para o pequeno, ela franziu a testa para fazer cara de espanto e, quando menos percebeu, o bebê estava mexendo a sobrancelha.
Tem uma outra hora boa para histórias lá. Cassiano nasceu prematuro, tem alergia alimentar e alguns desafios, como diz Isadora. E ainda precisa de vitaminas e de remédio para refluxo. Ele acorda, toma a medicação e só meia hora depois é que pode mamar. Como acalmar um bebê com fome e com dor? Com histórias. Isso Isadora aprendeu há cerca de 15 anos, quando foi voluntária na ONG Viva e Deixe Viver e lia para crianças em hospitais. "Muitas vezes aquilo era um consolo e um afago para aquela criança que estava com dor ou se sentindo sozinha e com medo", comenta. Depois ela foi estudar biblioteconomia e, trabalhando em biblioteca escolar, mergulhou ainda mais neste universo literário - e quer o filho imerso nisso também.
CALMA. "A leitura é um momento essencial de quietude. Com a experiência de trabalhar com crianças, percebi que não dá para ter, todo o tempo, uma atividade agitada de música, de bater palma, de virar de cabeça para baixo, de correr, pular. Tem que existir um momento para a criança se acalmar. Ela precisa de silêncio, de um silêncio interno. É preciso acalmar os ânimos, o coração e a mente para que ele consiga se concentrar naquela história. Esse momento em que faço a leitura com o Cassiano é uma pausa do dia. Um momento em família, de afeto e calma", diz a mãe de primeira viagem já muito segura do que quer para seu filho. Isadora imagina que lendo para o bebê ela está ajudando a criar um repertório para ele e que isso tudo trará ganhos futuros - em vocabulário, em percepção crítica do mundo.
Cassiano está tendo uma experiência parecida com a de Theo Silvestre Rosario, hoje com 6 anos - e um ávido leitor em alfabetização. "Eu gosto de todos os livros. E eu gosto deles porque é uma forma de me deixar inteligente e eu amo ser inteligente!", diz o garoto dono de uma biblioteca de cerca de 200 títulos, que ouvia histórias na barriga da mãe e que, com os livros, ganhou muito mais do que vocabulário e repertório.
"Eu não consegui amamentar o Theo devido a uma cirurgia que fiz e, aquele momento tão esperado pelas mães, o do olho no olho, o da troca, o da intimidade, eu não pude ter com meu filho. E eu acho que, sem querer, isso aconteceu para nós de uma outra maneira: pelos livros. A leitura era, e é, o nosso momento", conta Karin Silvestre, jornalista e professora de inglês de SP.
A leitura permitiu a criação de um vínculo entre mãe e bebê, algo primordial. Theo nunca se recusou a ouvir uma história e Karin nunca deixou de ler o que ele pedia - mesmo que fosse pela milésima vez. "Hoje, o Theo é uma criança que se expressa muito bem, tem um vocabulário amplo, conversa sobre vários assuntos com sequência lógica, é muito concentrado e desenvolveu uma excelente memória. Curiosidade, imaginação e criatividade não faltam a ele. As várias histórias lidas lhe possibilitaram a construção da empatia. E também é possível notar que a leitura, o contato com os livros, é algo que lhe é muito prazeroso, a ponto de no dia do brinquedo na escola ele pedir para levar um livro", conta a mãe orgulhosa. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.



