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Cidades de SP contam mil casos e 100 mortes a mais que governo do estado

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Os números apresentados pelo governo do estado de São Paulo de pessoas infectadas e mortas pelo novo coronavírus apresentam grande defasagem em relação às cifras contabilizadas pelas prefeituras municipais, segundo levantamento feito pela reportagem em 178 cidades paulistas. Segundo balanço divulgado pelo governo paulista na última quarta-feira (15), o estado de São Paulo tinha 11.043 infecções confirmadas pelo novo coronavírus e 778 mortes. Enquanto isso, no mesmo dia, as cidades somavam 12.073 casos de Covid-19 e 880 mortes . Esses 1.030 casos e 102 mortes não somados ao balanço do governo estadual, representam mais confirmações e mortes que estados como Paraná, Minas Gerais, Santa Catarina e Bahia, no mesmo dia. Nesta quinta-feira (16), os números foram atualizados pelo governo do estado para 11.568 casos e 853 mortes, mas a defasagem continua alta --o que pode atrapalhar no combate a um vírus que se espalha rapidamente. Uma das cidades em que os números são mais destoantes é Barueri, na Grande São Paulo. No balanço de quarta-feira, o governo estadual dizia que havia por lá 64 casos confirmados, com 4 mortes. O balanço do município do mesmo dia apontava 349 casos (445% a mais) e 6 mortes. A contagem estadual está pelo menos uma semana atrasada. A última vez que a prefeitura contou 64 casos confirmados por lá foi em 7 de abril. O boletim mais atualizado da gestão de João Doria (PSDB), divulgado na quinta (16), manteve o número de 64 confirmações em Barueri. "O município está trabalhando em tempo real. Na medida em que fecha os casos e os lança no sistema, já é feito o boletim, enquanto o estado e o Ministério da Saúde acabam demorando um tempo pra receber, depurar e tabular esse dado, até lançar como um dado oficial", disse a Prefeitura de Barueri. A discrepância na contagem provoca um problema de comunicação no município. Em comentários de informes da prefeitura nas redes sociais, pipocam baruerienses que apontam a discrepância com os números estaduais e acusam a cidade de inflar os dados para justificar o fechamento do comércio. A Covid-19, doença provocada pelo novo vírus, é de notificação compulsória, ou seja, todos os hospitais ou serviços de saúde que receberem casos suspeitos devem avisar à vigilância epidemiológica do município. A prefeitura lança essas informações em um sistema, compartilhado com o estado e com o Ministério da Saúde, e o alimenta com a evolução do caso --se foi confirmado ou descartado, se o paciente foi curado ou se morreu etc. Há casos em que a demora é longa. Em Sertãozinho, por exemplo, cidade de 126 mil habitantes próxima a Ribeirão Preto, a prefeitura confirma uma morte por Covid-19 desde 3 de abril, de um homem de 62 anos que morreu em março. Até hoje, 13 dias depois, o óbito não entrou na conta oficial do governo paulista. Para a secretária de saúde da cidade, Angélica Lazarini, a demora pode ser pelo fato de que a confirmação veio a partir de um teste de laboratório privado. O município ainda aguarda resposta do Instituto Adolfo Lutz, órgão do governo responsável pela maior parte dos exames no estado. "O município comprou alguns testes por conta própria, de laboratório credenciado pela Anvisa, e estamos colhendo exames de todos os casos graves e com internação. Notificamos imediatamente no sistema", explica. O governo João Doria (PSDB) não respondeu especificamente sobre os casos citados na reportagem. Na quarta (15), o coordenador do Controle de Doenças, Paulo Menezes, afirmou que os números discrepantes ocorrem por falta de atualização no sistema. "Pode acontecer nos municípios que existam situações que não entraram a notificação [da confirmação do exame laboratorial], por terem sido principalmente atendidas no setor privado", disse. "E também a confirmação diagnóstica pode ter sido feita fora do sistema de vigilância e o sistema não ter recebido ainda." "Além disso, existem óbitos que são identificados através de declaração de óbito fora do sistema de vigilância e precisam ser inseridos no sistema. Então é esperada essa diferença", afirmou Menezes. Para Fatima Marinho, médica e pesquisadora do Instituto de Estudos Avançados da USP, que trabalhou com dados de epidemias no Ministério da Saúde, prefeituras de cidades menores podem demorar mais a notificar, sobretudo quando o número de casos cresce e o trabalho acumula. "Especialmente nas prefeituras menores, a informação pode circular com mais lentidão até chegar a um lugar que centralize. Mas é sempre melhor pegar diretamente com as cidades, que têm os dados mais atualizados", diz. Para Fernanda Campagnucci, da ONG Open Knowledge Brasil, que tem monitorado a transparência dos dados sobre a pandemia, falta também uma diretriz nacional que padronize quando um caso é suspeito ou confirmado. "Deveria haver uma articulação maior do Ministério da Saúde na coleta desses dados. Não faz sentido que estados e municípios usem fontes diferentes para monitorar o problema", afirma Campagnucci.

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