SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Pesquisadores brasileiros apresentaram na COP30, em Belém (PA), um novo mecanismo de crédito de carbono baseado na recuperação de áreas degradadas de florestas tropicais, e que pretende colocar as florestas no centro das estratégias de mitigação das mudanças climáticas.
O Mecanismo de Reversão de Desmatamento (RDM na sigla em inglês) quer preencher uma lacuna deixada pelos dois modelos financeiros de preservação das florestas tropicais criados até hoje: o Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação (chamado de Redd+) e o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, na sigla em inglês).
O Redd+ remunera os créditos de carbono gerados a partir da redução no desmatamento, que é um grande emissor de carbono. Já o TFFF, apresentado há poucos meses pelo Brasil, foi pensado como um fundo de renda fixa que remunera a conservação de florestas, que são reservatórios naturais de carbono.
O RDM, por sua vez, aposta na restauração florestal como uma solução eficiente para capturar carbono no curto prazo e a baixo custo, gerando créditos de carbono.
"O RDM foca justamente nesse elemento da agenda de florestas que está meio que descoberto, mas que melhor contribui para a agenda do clima porque captura carbono, enquanto o TFFF e o Redd+ almejam parar de gerar danos na atmosfera via emissões", explica o economista Juliano Assunção, diretor do Climate Policy Initiative (CPI/PUC-Rio), que coordenou a proposta.
"Neste momento em que a gente está falhando de maneira inacreditável na mitigação, e as emissões de carbono só aumentaram desde o Acordo de Paris, exceto por um pequeno soluço durante a pandemia, a restauração das florestas tropicais em escala é muito necessária", avalia.
Para ele, é preciso "reenquadrar o papel das florestas na agenda de clima". "Elas não são apenas vítimas ou uma ameaça, mas são parte do conjunto de soluções", afirma.
Assunção é também coautor do estudo que está na origem do RDM, realizado em parceria com o Nobel de Economia Lars Peter Hansen (Universidade de Chicago) e o economista José Alexandre Scheinkman (Universidade Columbia), conselheiro da COP30.
O estudo avaliou o uso da terra na floresta amazônica brasileira a partir do avanço do desmatamento para fins de agropecuária e o impacto que o reflorestamento dessas áreas pode ter na absorção de carbono.
A partir daí, os economistas calcularam o valor da tonelada de carbono líquido (aquele capturado menos o quanto foi emitido) capaz de tornar financeiramente mais atrativo reflorestar o território do que utilizá-lo, desmatado, para a agropecuária.
A proposta do RDM extrapola essa lógica para todas as 91 florestas tropicais mapeadas a partir de informações de satélites. Esses países possuem juntos 1,27 bilhão de hectares de florestas tropicais, que armazenam 593 gigatoneladas de carbono equivalente (GtCO2), o que corresponde a cerca de um terço das emissões históricas de carbono.
Brasil, Indonésia e República Democrática do Congo (RDC) são os países que possuem as maiores coberturas de florestas tropicais do mundo, nesta ordem.
*
PAÍSES COM AS MAIORES FLORESTAS TROPICAIS DO MUNDO
1 - Brasil
2 - Indonésia
3 - República Democrática do Congo
4 - Peru
5 - China
*
Os pesquisadores então analisaram o desmatamento ocorrido nos últimos 25 anos nessas florestas tropicais e concluíram que o mundo perdeu 180 milhões de hectares. Brasil, RDC e China são os que mais desmataram suas florestas tropicais desde 2001.
"Países como o Brasil, a Indonésia, a República Democrática do Congo têm um potencial de captura de carbono via restauro muito impressionante", afirma Assunção.
Na proposta, os pesquisadores calcularam que reflorestar essas áreas capturaria 49 gigatoneladas de carbono equivalente e que o valor ideal para incentivar esta escolha é a remuneração de US$ 50 (cerca de R$ 270, na cotação atual) por tonelada de carbono líquido.
"O restauro florestal pode ser usado como ferramenta potente para mitigação, para remoção de carbono da atmosfera, e, ao fazer isso a um preço razoável, é possível canalizar muitos recursos para a proteção desses ecossistemas", argumenta o diretor do CPI. Segundo ele, o baixo custo do reflorestamento tem a ver com a observação de que áreas desmatadas abandonadas viam um crescimento rápido e espontâneo de floresta secundária.
*
PAÍSES COM A MAIOR ÁREA DESMATADA ENTRE 2001 E 2023
1 - Brasil
2 - Indonésia
3 - China
4 - República Democrática do Congo
5 - Malásia
*
"Observamos que a atividade econômica que tem dado lugar à floresta, pelo desmatamento, é uma pecuária de baixíssima produtividade que não consegue fazer frente a um fluxo de receita advindo de uma atitude séria em relação à captura de carbono", afirma Assunção, que coordenou a análise de eficiência econômica do uso da terra nesses locais e avalia como grande desafio o ingresso desse mecanismo nos mercados regulados de carbono.
"O carbono que está sendo negociado no mercado europeu é uma redução de emissões dos setores industriais, ou seja, as empresas que têm que emitir mais do que elas têm a permissão compram créditos daquelas empresas que estão emitindo menos. Então, se está se transacionando ali é o direito de poluir a atmosfera", avalia.
Para ele, o restauro florestal vai na direção oposta. "É um serviço premium. Só que a gente precisa garantir que a jurisdição na qual a gente está aplicando esse mecanismo esteja contribuindo de maneira realmente efetiva para a captura de carbono."
Segundo Assunção, para que uma proposta deste tipo avance, "a gente realmente precisa é de um mundo preocupado com o clima e que queira remover carbono da atmosfera".
"Eu acho que esse mundo vai chegar mais rápido do que a gente imagina, e não necessariamente por uma razão boa, mas porque a gente vai estar lidando com emergências climáticas maiores."


