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Brasil deve avançar no mercado de carbono, diz presidente do Banco Central na COP26

GLASGOW, ESCÓCIA (FOLHAPRESS) - O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, afirmou nesta quarta-feira (3) que este é o momento de avançar em um ponto no qual o Brasil vinha bloqueando as negociações climáticas: o chamado artigo 6 do Acordo de Paris, que estabelece regras básicas para o mercado de carbono.

"Vou me arriscar um pouco e sair das minhas atribuições para dizer que esta é a grande oportunidade para fecharmos o artigo 6. É muito importante desenvolver a precificação do carbono", afirmou o economista, em palestra virtual exibida no estande brasileiro da COP26, conferência climática que acontece em Glasgow (Escócia) até 12 de novembro.

A declaração é mais uma indicação de que o Brasil está determinado a apagar a imagem de "vilão do clima" com que saiu da última COP, quando o então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, foi um dos principais responsáveis por impedir um acordo sobre esse tema.

De acordo com Campos Neto, possibilitar financiamentos sustentáveis é cada vez mais relevante, porque a preocupação ambiental chegou "com força" a setor financeiro, depois de passar pelos de energia e de alimentos.

De acordo com ele, investidores e fundos de investimento, de private equity (investimento direto em companhias), de infraestrutura e de construção exigem produtos ESG (sigla em inglês para responsabilidade social, ambiental e de governança).

"Por que essa terceira onda é tão poderosa? Porque está na verdade impedindo alguns países e algumas companhias de receberem investimentos estrangeiros", disse o presidente do BC.

Um exemplo desse obstáculo foi anunciado nesta mesma quarta, na COP26: mais de 450 instituições financeiras de 45 países, com ativos de US$ 130 trilhões (quase R$ 730), se comprometeram a chegar a 2050 com todos os seus investimentos alinhados com a meta de zero emissão líquida de gases de efeito estufa.

Por causa dessa tendência, o BC deve tornar mais rigorosa sua análise de riscos climáticos e sociais, segundo Campos. Até dezembro, vai aumentar a coleta de dados sobre quanto dos investimentos dos bancos brasileiros tem potencial de causar danos ambientais ou sociais.

O controle também será maior sobre os investimentos em atividades que podem ser afetadas pela crise climática ou pela transição energética --a redução da geração baseada em carvão e petróleo e o aumento das fontes renováveis, como hidrelétricas, geração eólica e solar.

Até abril do próximo ano, ele quer também incluir esses riscos ambientais e sociais nos testes de estresse, pelos quais o Banco Central avalia a saúde financeira dos bancos. "No mundo há países que tornaram isso obrigatório, e queremos resultados rápidos", disse.

Campos Neto afirmou que a crise climática afeta diretamente as duas responsabilidades do Banco Central: manter estabilidade de preços e do sistema financeiro.

"O clima afeta a política monetária muito fortemente. Estamos vendo isso no Brasil neste ano, com a onda de calor, depois as geadas e as interrupções em cadeias de suprimento, que elevaram preços de alimentos e commodities."

Por causa disso, a inflação deste ano pode chegar perto de 10%, segundo a previsão de economistas, o que tem levado o BC a aumentar a taxa de juros.

Do lado da estabilidade bancária, Campos Neto afirmou que eventos climáticos podem fazer crescer a inadimplência, o que afeta o balanço dos bancos.

O BC quer acelerar uma pauta de finanças sustentáveis, que, segundo o presidente do órgão, inclui uma parceria com a Climate Bonds Initiative para desenhar um mercado de títulos verdes (papéis de empreendimentos sustentáveis). "Queremos estar sintonizados com as regras globais, para garantir a emissão dos títulos e permitir que o dinheiro flua."

Campos Neto disse ainda que até dezembro deve implantar um mecanismo de liquidez financeira sustentável, no qual os bancos poderão obter empréstimos usando como garantia títulos verdes, o que deve acelerar a emissão desses papéis.

O outro caminho para mobilizar os fluxos financeiros globais é o mercado de carbono, de acordo com o presidente do BC, para quem "a transição climática vai impor custos crescentes e desafios para a economia e a sociedade".

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